Carla Rebelo: Inteligência artificial e estupidez natural

Carla Rebelo, diretora-geral do Adecco Group em Portugal, reflete sobre o principal risco para a Humanidade face ao avanço exponencial da tecnologia.

Carla Rebelo é diretora-geral do Adecco Group em Portugal.

Carla Rebelo é diretora-geral do Adecco Group em Portugal

 

Esta expressão é do famoso escritor e professor de História Yuval Harari, num dos seus brilhantes livros 21 Lições para o século XXI. Quando a li, imediatamente me ocorreu refletir de um modo diferente sobre o principal risco para a humanidade face ao avanço exponencial da tecnologia. Em último reduto será o de ficarmos apenas com a segunda e oferecermos a primeira aos robots.

Passaram exatamente 12 meses desde que o nosso Mundo e sistema de equações passou a contar com mais um elemento: o imprevisto e improvável, agora como parte integrante, presente e permanente do sistema. Sucede que, mesmo neste contexto novo e relativamente desconhecido, a simplicidade continua a ser uma das características mais subvalorizadas. Foi Leonardo Da Vinci que há muito tempo avisou: simplicity is the ultimate sophistication. Ainda assim, consciente ou inconscientemente, continuamos a dar mais espaço e importância a tudo o que nos é apresentado de modo complexo. Não vemos porque não queremos ou porque realmente estamos dominados por vieses que nem sequer identificamos?

Porque é que, em média, as pessoas que mostram elevada autoconfiança tenderão a influenciar mais do que os que são realmente especialistas, ainda que eventualmente mais introvertidos?

A história da evolução humana explica que o nosso cérebro foi programado para poupar energia. Em tempos pré-históricos, e porque a comida não era abundante, a sobrevivência estava muito condicionada pela quantidade de calorias que cada homo sapiens, ainda apenas caçador e coletor, conseguia ingerir e desse modo assegurar o funcionamento do seu corpo, incluindo o cérebro. E se o cérebro pode gastar energia! Daqui a necessidade de um mecanismo de auto proteção simples, natural e biológico e que resultou no desenvolvimento de atalhos que nos permitam percecionar rapidamente o mundo à nossa volta e que poupam consumo de energia pelo cérebro, razão base pela qual tendemos a ter sistemas automáticos de reações e pensamentos.

Ora acontece que, estes sistemas podem ser também a nossa principal armadilha e a tomada dessa consciência é essencial para que se faça um upgrade no sistema humano de processamento de informação e se for o caso, na tomada de decisão. Sem isto a capacidade de aprendizagem do ser humano pode ser posta em causa.

Como se explica que, por exemplo, riscos históricos e com relação causa-efeito muito evidente não sejam devidamente mitigados? Como se explica muitas vezes a escassez de talento para encontrar talento? Como se explicam as ondas de influência que fações extremistas da sociedade movimentam com substrato de total ininteligibilidade? Ou ainda o reiterado desalinhamento entre sistemas de compensação e objetivos estratégicos de uma empresa?

Haverá que fazer mais uso das capacidades cognitivas que nos foram distribuídas, mas se não o fizermos a tecnologia tratará de ficar com a inteligência e deixará para o ser humano apenas a estupidez. Havendo escolha não caberá espaço nem tempo para a lamentação.

 

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