Carla Olival: “A subida das mulheres a bordo pode fazer grande diferença”

Carla Olival é managing diretor na Marítimos Manning Portugal e presidente da WISTA Portugal. Um dos seus principais objetivos é contribuir para quebrar os telhados de vidro que ainda existem na marinha mercante, onde a executiva acredita que a maior presença feminina pode ser determinante.

Carla Olival é managing diretor na Marítimos Manning Portugal e presidente da WISTA Portugal.

Carla Olival é advogada de profissão, nasceu no Reino Unido e vive em Portugal. O seu percurso está marcado por uma forte componente internacional, e também por alguma versatilidade formativa. Estudou e trabalhou em Portugal, no Reino Unido, em Singapura, na Suíça e na Alemanha.

Começou pela licenciatura e pelo mestrado em Gestão, no Reino Unido, na London Metropolitan University, ao mesmo tempo que trabalhava em atividades bolsistas com base em plataforma eletrónica. Em Outubro de 2005, regressa a Portugal onde começa a trabalhar, e em simultâneo, inicia o curso de Direito, fundamental para garantir o acesso ao mestrado em Singapura em Direito Internacional e Comparativo que ambicionava concretizar. A sua tese foi baseada no funcionamento da Zona Franca da Madeira (ZFM) e do Registo Internacional de Navios da Madeira (MAR). No final do mestrado faz um curso de alemão na Suíça e, em 2012, é convidada a integrar o escritório de advogados da Pinsent Masons LLP em Munique, onde faz parte da criação do Asia Desk, departamento dedicado a clientes da Ásia e da India.

 O seu interesse pela marinha mercante nasceu em 2015, desencadeado por um convite da então ministra do Mar para participar num evento sobre shopping, em Hamburgo.  Nesse ano, regressa a Portugal para trabalhar na BSGG Advogados e na Valor Management e torna-se representante local de armadores internacionais com navios registados no MAR, ao mesmo tempo que trabalhava no constituição e gestão de empresas sediadas na Zona Franca da Madeira. Em Junho de 2016 é convidada a integrar a European Mar (EUROMAR), parceira da Sociedade de Desenvolvimento da Madeira (SDM) e responsável pela promoção do MAR a nível internacional, como consultora legal e responsável pelo departamento de Registo de Navios. Esta empresa, com sede na Madeira, representa mais de 90% dos armadores internacionais, com frota registada sob a bandeira de Portugal, que hoje conta com mais 600 navios ativos, em termos de tonelagem, são 26 milhões em porte bruto.

Entretanto, em 2017 assume a vice-presidência da direção da European International Shipowners Association of Portugal (EISAP), associação que representa quase 100% dos armadores com navios registados sobre a bandeira portuguesa. E a partir de 2018 acumula estas funções com a direção da Marítimos Manning Portugal (MMP), agência de recrutamento de tripulantes líder de mercado, prestando serviços tanto a armadores como a empresas de gestão de navios.

No mesmo ano, fundou e assumiu a presidência da WISTA Portugal – Women’s International Shipping & Trading Association of Portugal. O objetivo desta entidade é a promoção do desenvolvimento sustentável do cluster marítimo nacional e internacional, através da criação de uma rede profissional de mulheres nos níveis de tomada de decisão. Recentemente, a WISTA Portugal associou-se à Associação de Armadores da Marinha de Comércio (AAMC), para uma colaboração mútua na promoção do desenvolvimento sustentável do cluster marítimo nacional e da Blue Economy portuguesa, mas também, para estreitar a relação com a European Community Shipowners’ Association (ECSA) de forma a promover a indústria em Portugal a nível europeu. 

Como se interessou por esta indústria e como tem desenvolvido a sua carreira nesta área?

O meu interesse pelo shipping não foi imediato. Foi surgindo na sequência do percurso académico e profissional, mas também tendo em conta alguns interesses pessoais que foram acabando por limitar os sectores onde vinha a exercer atividade profissional. Na prática tive sempre alguns critérios que orientavam as minhas escolhas. Desde logo, a vontade, que sempre cultivei, de fazer carreira num sector internacional, e desse modo, onde e quando fosse possível aproveitar a experiência internacional. Hoje vejo como tudo isso contribuiu para chegar onde estou. Além da formação em áreas diferentes, principalmente na área da gestão e mais tarde em direito, após o meu regresso a Portugal, fui adicionando conhecimentos na área da marinha mercante. As evidências do potencial desta indústria e especialmente do Registo Internacional de Navios da Madeira (MAR) em Portugal pareciam-me nítidas, a oportunidade estava lá e o desafio acabou por ser lançado nos termos em que esperava.

O shipping, as suas pessoas e a sua realidade, encaixavam perfeitamente no que pretendia: trabalhar num sector verdadeiramente, multi-jurisdicional, mutável e com desafios extraordinários.

Por outro lado, talvez seja útil referir que há um momento marcante que condicionou seriamente as minhas opções. Essa ocasião foi um convite para um evento relacionado com o sector na Alemanha, organizado pela então ministra do Mar. Porventura esse tenha sido um momento importante, o momento de viragem. A representação de armadores internacionais com navios registados no MAR foi a minha entrada no sector e a minha chance. Na verdade veio a revelar-se um fator crucial para as decisões que acabei por tomar, nomeadamente, investir e dedicar-me exclusivamente a esta área. O shipping, as suas pessoas e a sua realidade, encaixavam perfeitamente no que pretendia: trabalhar num sector verdadeiramente, multi-jurisdicional, mutável e com desafios extraordinários. Quem como eu tem a oportunidade de iniciar e manter contatos com pessoas que trabalham nesta área, seja lá qual for o sector, rapidamente percebe que a paixão que dela advém, de um modo ou de outro, é transversal e para a vida.

Quais os principais desafios que enfrenta como managing diretor na Marítimos Manning Portugal?

A Marítimos Manning Portugal (MMP) dedica-se à gestão de tripulação e serviços administrativos relacionados com o agenciamento de tripulantes, fazendo a ligação entre os armadores internacionais com navios registados no MAR e os marítimos e jovens formados em Portugal, procurando contribuir para o aumento do número de cidadãos portugueses nos navios. Portanto, é fácil compreender a importância desta atividade para um país com forte tradição ligada ao mar, com apostas políticas em prol do desenvolvimento das atividades marítimas e, não menos importante, com necessidade de criar novos empregos. A MMP tem por isso objetivos claros e um mercado que considero muito relevante. É óbvio que nem tudo corre com a rapidez e a consistência que gostaríamos. Temos uma gestão por objetivos mas há variáveis que não dominamos. Os problemas mais evidentes têm que ver com a escassez de recursos e a sua pouca preparação.

Na prática, a MMP, enquanto manning agent para a indústria marítima internacional, enfrenta dois desafios principais, que estão do lado da oferta. Se por um lado Portugal não dispõe de marítimos suficientes para atender às solicitações do lado da procura da indústria, por outro, a pool de marítimos existente apresenta algum défice de qualificação e experiência profissional. Por este motivo, compreendemos que este sector necessita de uma longa fase de investimento, a começar pelas camadas mais jovens. Trazer conhecimento para as gerações mais novas das oportunidades do mar, tanto no mar como mais tarde em terra, é o objetivo primordial nesta fase para toda a equipa da MMP. Claro que isto significa um esforço a nível de recursos elevado e prolongado, porém, é um projeto que conta com uma equipa técnica fantástica, disposta a prolongar o período de investimento, com o intuito de um dia voltarmos a ter portugueses a deixar a marca na indústria marítima, dentro e fora do nosso país. Temos o sonho de transformar por completo a forma como Portugal encara o trabalho nesta área, por isso, puxar para cima o valor que a sociedade concede ao emprego neste sector é também um objetivo.

Em Portugal a percentagem de mulheres no setor marítimo é de cerca de 4,3% e o valor é severamente mais baixo quando falamos especificamente de atividades marítimas (tripulantes de navios por exemplo).

Enquanto responsável, estes são os desafios globais que identifico mas enquanto gestora há outros que têm a ver com o meu dia a dia mas que são comuns a todas as atividades de gestão, sendo que, obviamente, há sempre diferenças de estilo e de comando. Da minha parte há matérias essenciais que me mobilizam grande parte do tempo, como seja: incentivar a minha equipa – sem dúvida uma das áreas mais críticas do negócio mas absolutamente fundamentais – e, ao mesmo tempo, muito  exigente e desgastante; mobilizar recursos para dar corpo aos nossos objetivos ; promover a criatividade e a inovação, procurando talentos e entusiasmo, através dos estímulos certos;  escolher as prioridades no quadro do interesse dos acionistas, nunca podemos perder este foco;  definir as  estratégias de atuação de acordo com prioridades, procurando envolver as pessoas da instituição; e construir a network apropriada para o nosso negócio. Enfim, de tudo isto a gestão de pessoas e a promoção da criatividade e da inovação são sempre os mais difíceis de concretizar. Criar o sistema que incentive, de forma justa, quem acrescenta valor é sempre uma prioridade e nem sempre é eficaz. Não há nada mais desafiante que animar uma equipa em prol de objetivos.

Carla Olival fez o discurso de introdução da edição de 2020 da European Shipping Week, a principal conferência europeia dedicada ao sector do Transporte e Comércio Marítimo, que se realizou em Bruxelas.

Esta não é uma área que normalmente se associe ao género feminino. Qual a representatividade das mulheres neste setor em Portugal e em que áreas a sua presença é mais evidente?

Em Portugal a percentagem de mulheres no setor marítimo é de cerca de 4,3% e o valor é severamente mais baixo quando falamos especificamente de atividades marítimas (tripulantes de navios por exemplo). As áreas em que as mulheres têm mais representação são, maioritariamente, aquelas ligadas a funções administrativas, como por exemplo, gestoras, advogadas ou responsáveis de recursos especializadas no setor marítimo. Também se encontram algumas mulheres em funções ligadas à gestão de tripulação ou reserva de carga. A exceção e mais valia em Portugal são os portos, onde, embora com menor representação a nível geral, principalmente a nível operacional, temos a grande maioria dos portos nacionais cm mulheres ao comando, mulheres como presidentes dos seus conselhos de administração. Isto é fantástico e um tema alvo de discussão quando visito outros países e falo com pessoas da área.

O mundo do transporte de uma forma geral está em mudança. Precisamos de todas as “mãos no convés”, precisamos dos melhores; é claro que isto inclui mulheres. As mulheres aportam mais valias pela diversidade de formação e experiências que ostentam.

Portugal está muito afastado da realidade europeia no que respeita à diversidade de género na indústria marítima?

Infelizmente ainda não conseguimos ter dados que nos permitam responder com objetividade a esta pergunta. Esperamos que com o crescimento e consolidação da atividade da WISTA Portugal o consigamos fazer.

Qual o papel que as mulheres podem ter no futuro deste setor?

Exceto nas funções fisicamente mais exigentes, mulheres e homens podem realizar os mesmos trabalhos, da mesma forma. A única coisa que os diferencia é sua capacidade individual, não o género! Mesmo para as funções de maior exigência física, na maioria das vezes, na prática, as mulheres encontram maneiras diferentes dos homens para as conseguir realizar.

O papel das mulheres tem sido trazer uma nova abordagem e uma nova maneira de ver a atividade marítima. As mulheres foram deixadas de fora durante muitos anos e somente há algumas décadas têm entrado lenta e gradualmente neste setor. Apesar de já termos hoje mulheres em posições de destaque em muitas organizações – por exemplo, a diretora executiva da European Maritime Safety Agency (EMSA), órgão executivo da Comissão Europeia – ainda estamos muito no início do que pode ser feito e de ver resultados concretos desta tendência. Há contudo um esforço europeu na introdução de políticas que promovam a igualdade de género permitindo o afastamento de obstáculos que tradicionalmente criam barreiras ao emprego feminino nesta área. Portugal tem sido exemplar nesta matéria.

O mundo do transporte de uma forma geral está em mudança. O setor do transporte marítimo em particular precisa de se tornar mais sofisticado e, para isso, temos de encontrar soluções para atender a novas exigências da maneira mais eficiente e eficaz possível. Para alcançar esse nível de expectativa e ser sustentável, precisamos de todas as “mãos no convés”, precisamos dos melhores; é claro que isto inclui mulheres. As mulheres têm dado um contributo inestimável e aportam mais valias pela diversidade de formação e experiências que ostentam.

Estudos mostram que equipas diversificadas alcançam melhores resultados em comparação com equipes homogéneas. Um bom equilíbrio e combinação de pessoas mas também de géneros diferentes significa adicionar pontos de vista e formas de pensar distintas com mais criatividade e inovação. Se precisamos de abordagens diferentes, mas sobretudo mais robustas, não podemos continuar a fazer tudo como antes e é aqui que, numa indústria tipicamente masculina, “a subida das mulheres a bordo” pode fazer grande diferença.

A WISTA encoraja fortemente mulheres de todas as idades a juntarem-se não apenas ao setor marítimo em terra, mas também a ir para o mar, experimentar a vida a bordo, qualquer que seja sua paixão.

Quais os principais objetivos da WISTA Portugal?

Os principais objetivos da WISTA Portugal são promover o desenvolvimento sustentável do cluster marítimo português, nacional e internacionalmente, aumentando a rede profissional de mulheres nos níveis de tomada de decisão, reunir especialistas do setor e desenvolver relações entre elas para colaboração mútua através do conhecimento que promove e da inter-relação que proporciona.

A WISTA encoraja fortemente mulheres de todas as idades a juntarem-se não apenas ao setor marítimo em terra, mas também a ir para o mar, experimentar a vida a bordo, qualquer que seja sua paixão. Por exemplo: se o sonho de uma jovem é ser cabeleireira, porque não desempenhar essa profissão a bordo de um navio de cruzeiro? No fundo é uma espécie de “ovo de Colombo”: transportamos para bordo a realidade das atividades externas que podem interessar ao pequeno ecossistema de um navio e dessa forma podemos ajudar a criar novas oportunidades.

Além disso, a WISTA Portugal tenta partilhar conhecimento e visão sobre este setor diversificado com muitas oportunidades profissionais em todas as áreas, seja a nível da gestão de topo, gestão operacional ou áreas de suporte, promovendo também a interação e troca de experiências com outras entidades nacionais e internacionais ligadas ao setor marítimo.

O que diria a uma jovem sobre as oportunidades de carreira que este setor lhe pode oferecer?

O que temos sublinhado é que as jovens mulheres não devem aceitar que o estereótipo de género, associado a esse setor, condicione a sua carreira. A WISTA Portugal tem um compromisso inalienável com estas mulheres. Defender o talento e a capacidade de modo a assegurar igualdade de oportunidades. De resto, como em qualquer setor, o setor marítimo também deverá estar sempre atento ao talento, qualidade e resistência, por isso é importante não esquecer que a formação de qualidade é extremamente valiosa e necessária para quaisquer candidatas. As mulheres podem contar com o apoio e a rede que a WISTA Portugal fornece para entrar no setor marítimo e dar apoio adicional à sua carreira, tanto a nível nacional quanto internacional.

Não precisamos de quotas, o que as mulheres precisam é de oportunidades iguais. Os recrutadores devem escolher candidatos, independentemente do género, baseando as escolhas nas suas capacidades.

O que é preciso para aumentar o número de mulheres no sector do transporte marítimo?

Temos refletido muito sobre o tema e há um princípio que nos conduz: não precisamos de quotas, o que as mulheres precisam é de oportunidades iguais. Os recrutadores devem escolher candidatos, independentemente do género, baseando as suas escolhas nas capacidades dos candidatos. Esta abordagem é essencial para assegurarmos recursos competitivos. Mas para isso as mulheres têm de ter as mesmas oportunidades. É por isso que batalharemos sempre. Seremos um parceiro para a indústria ter acesso aos melhores recursos e hoje não temos dúvidas que mulheres bem formadas serão competitivas e alcançarão os objetivos.

Quando as mulheres escolhem seguir uma carreira, mesmo que seja tradicionalmente masculina, como a navegação marítima, ela não deve ser parada por paredes de vidro. Infelizmente, essas paredes de vidro ainda existem, seja na sociedade em geral condicionando a educação de muitas mulheres, mas também em processos de seleção e recrutamento ou até durante ao longo da sua vida profissional. Felizmente as gerações mais jovens já têm uma atitude diferente; elas não se conformam até atingirem os seus objetivos e são bastante mais ambiciosos. É esse, também, o nosso foco: contribuir para expandir uma mentalidade que não adicione obstáculos relacionados com o género.