Da Bolsa à metalomecânica: as empreendedoras que encerraram o ciclo WE Talk

Juliana Oliveira é um caso sério de sucesso num setor onde quase não existem mulheres e num “negócio nada sexy”. Rita Gonzalez abriu a sua consultora financeira depois de uma carreira na Banca e percebeu que era bem mais feliz. Dois testemunhos inspiradores que fecharam este ciclo de palestras sobre empreendedorismo feminino.

Juliana Oliveira, fundadora e CEO da Olimec, e Rita Gonzalez, fundadora da RG Consulting, na 6ª sessão WE Talk by WomenWinWin.

Uma jovem empreendedora do setor da metalomecânica e uma executiva da banca que se decidiu por um voo profissional a solo na consultoria financeira foram as protagonistas da 6ª sessão WE Talk by WomenWinWin. A última palestra deste ciclo dedicado ao empreendedorismo feminino arrancou com os agradecimentos que Maria José Amich, fundadora e presidente da WomenWinWin, estendeu à equipa de produção e às empresas que têm vindo a associar-se a este evento, apoiando a causa do empreendedorismo feminino. “É com muita alegria que fechamos estes WE Talk com duas mulheres que empreendem em áreas que não têm muita presença feminina. Convosco temos elevado o debate do empreendedorismo feminino com grandes ideias.”

A economista “serralheira de coração”

Natural da Maia, Juliana Oliveira, 31 anos, é “economista de formação, mas serralheira no coração”, como diz para descrever a sua paixão por empreender numa área tradicionalmente masculina como a metalomecânica, que já era o ofício do avô, Joaquim. Licenciada em Economia pela Universidade Católica e com um mestrado em gestão pela mesma instituição, onde também chegou a dar aulas entre 2009 e 2010, trabalhou 3 anos em auditoria numa das “big 4” da consultoria, a KPMG. Ninguém diria hoje que, ainda nos tempos da faculdade, lhe “diagnosticaram como fraqueza uma grande aversão ao risco”, numa avaliação de aptidões. “É totalmente contraditório que, neste momento, esteja aqui a falar de criar empresas e ter 30 famílias para alimentar todos os meses.”

A empresa fundada pelo avô estava numa situação difícil e, com o pai doente, Juliana decidiu arregaçar as mangas. “Não me permitia, com 24 anos, ver a minha casa ir abaixo sem fazer nada.” Por isso, deixou o “salário confortável” que tinha na KPMG e trabalhou durante os primeiros seis meses sem receber qualquer salário, a  ‘lamber papel’, como diz. A empresa familiar acabaria por abrir falência, mas, apoiada pela experiência do ofício do avô, Juliana fundou a Olimec, em 2016, sendo a sua atual CEO. “Ele é a minha grande inspiração, é por isso que continuo o trabalho dele. Ainda tenho comigo funcionários que começaram a trabalhar com ele”.

A empresa tem sede no Porto e dedica-se à reparação e manutenção integral de camiões do lixo. “Não é um negócio sexy”, diz, mas em menos de três anos de vida já trabalham com 95% do setor de recolha e tratamento de resíduos, em Portugal e é a única empresa privada deste ramo com duas oficinas próprias, a norte e a sul do país (em Palmela). A sua “muito invejada” carteira de clientes inclui empresas privadas que trabalham em gestão de resíduos e grande parte dos municípios do país, incluindo Lisboa e Porto. Já dispõem de carrinhas de assistência técnica que se deslocam pelo país, vendendo também camiões e peças para eles, “uma estratégia de integração vertical do negócio”, como

Porquê lixo? Pragmática, Juliana responde: “Porque lixo há sempre. Além disso, tem esta particularidade de corroer o melhor aço de todos, chegando a avariar camiões. Eles precisam de uma manutenção obrigatória e regular, que dá multas se não for feita.”

“Sou a primeira pintar os contentores, a trepar para uma grua ou a pôr-me debaixo de um camião. Se for preciso varro a oficina, da mesma forma como tenho reuniões com administradores e responsáveis da Câmara”, Juliana Oliveira, CEO da Olimec.

Gerir pessoas é um dos seu maiores desafios de gestão, confessa, mas simultaneamente um dos segredos do sucesso da sua empresa. “Contratamos mão de obra técnica muito rara, hoje em dia — serralheiros, mecânicos e eletricistas — mas altamente motivada. Tratamos estes profissionais com o mesmo respeito com que tratamos os nossos clientes, um engenheiro ou um administrador. As pessoas têm de estar connosco; sozinhos não fazemos nada.”

Outra das suas máximas é liderar pelo exemplo. “Sou a primeira pintar os contentores, a trepar para uma grua ou a pôr-me debaixo de um camião. Se for preciso varro a oficina, da mesma forma como tenho reuniões com administradores e responsáveis da Câmara. Não sou melhor que ninguém. Nasci neste ambiente, para mim isto é muito melhor do que o mundo das gravatas.”

A persistência é a arma de eleição de um empreendedor, diz. “Como diz o escritor Paulo Coelho, é preciso saber cair sete vezes para levantar-se e cair a oitava. Às vezes perguntam-me se não tive medo. Tive… e então? Para trás era o penhasco; só tinha a opção de andar para a frente. Já cheguei a não ter dinheiro para pagar salários no dia a seguir. Mas disse para mim que não era aquilo que me ia deitar abaixo e que ia conseguir.” No dia seguinte estava no banco, com uma amiga de família a entrar como business angel para apoiar o seu negócio. “Convenci-a porque ela me conhecia e sabia a força que eu teria naquele projeto. Mas não convenci o banco, que só me mandou metade do dinheiro que pedimos, quando já não precisávamos dele.” Outro parceiro que ajudou a Olimec foi um empresário que lhes equipou a oficina e a quem só pagaram um ano depois. Disse-lhes que os iria ajudar porque também já tinha sido ajudado. ”

Os resultados dão-lhe razão: o investimento feito na Olimec Porto foi pago ao fim de ano de vida e o da delegação de Palmela ficou pago no ano em que foi criada. “É muito importante manter sempre o foco no cliente e vender o que é vendável.” No final da sessão, Juliana Oliveira falou-nos ainda sobre a importância da partilha da sua experiência. “Já houve gente que abriu empresas depois de uma conversa comigo! Sinto que tenho esse poder de lhes dar força. Quero criar um legado com os meus valores; se puderem servir para ajudar alguém, ótimo!”

Empreender a solo e ser mais feliz

Foi apenas há ano e meio que Rita Gonzalez criou a RG Consulting, a sua consultora financeira a pensar em empresas cotadas em Bolsa, auxiliando-as no seu posicionamento estratégico no mercado de capitais. Com uma carreira construída na Banca, onde “adorou trabalhar e aprendeu quase tudo o que sabe”, Rita decidiu criar a sua própria empresa depois de sair do banco onde trabalhava, quando este passou por um processo de reestruturação. Aproveitando a alteração de uma lei europeia que regula estes mercados, identificou a sua oportunidade de negócio, conquistando clientes que já conheciam a qualidade do seu trabalho. “Não tenho muitos serviços; tenho poucos, mas focados. No início, as coisas correram espetacularmente bem, de uma forma que nem eu esperava. Pensei que, dali para a frente, o caminho seria em linha reta, que me bastaria trabalhar e entregar resultados. Mas percebi que nem sempre é assim”, partilha. “Ia para uma reunião, sentia que as coisas tinham corrido muito bem, mas depois não se concretizava. É muito importante percebermos o tempo que as coisas demoram a acontecer, por isso é preciso ter paciência e ser resiliente.”

Mais tarde, durante a sessão de perguntas e resposta aberta ao público, acrescentaria: “O segredo é trabalhar sempre, dar o nosso melhor sempre, quer estejamos mais ou menos motivadas. Antigamente, eu aparecia nas reuniões com clientes já com o valor de uma marca por trás; hoje sou eu que tenho de a construir. Há que começar do zero, não há outra hipótese.” O valor da sua marca pessoal já começa a dar frutos, garante; o interesse pelo seu trabalho já não vem apenas do mercado nacional, mas também de Espanha, Reino Unido ou até mesmo Estados Unidos.

“Aquilo que gostamos de fazer, normalmente, é algo que também sabemos fazer bem. Desta forma, ficamos também mais atentas às oportunidades de negócio que nos vão aparecendo”, Rita Gonzalez, fundadora da RG Consulting.

Empreendendo a solo, Rita precisou de reajustar também a parte operacional do seu trabalho. “Hoje faço de tudo. Antes pedia à minha secretária para me organizar as viagens; hoje sou eu que faço isso. Antes tinha uma equipa com quem trabalhava. Hoje, se precisar de recursos, recorro à minha parceria [com a Pheonix, empresa britânica a operar neste setor] ou então subcontrato. Antes tinha um local fixo de trabalho; hoje faço conference calls do meu carro, se estiver na rua, entre reuniões.” Mãe de três crianças, a sua nova faceta empreendedora também lhe permite uma maior conciliação entre a família e o trabalho, diz.

Rita Gonzalez acredita que há uma relação direta entre o sucesso e o que nos traz felicidade. “Aquilo que gostamos de fazer, normalmente, é algo que também sabemos fazer bem — com formação e trabalho, claro— e as duas coisas juntas costumam dar bons resultados. Desta forma, ficamos também mais atentas às oportunidades de negócio que nos vão aparecendo. Hoje, quando dou o meu melhor, sinto uma felicidade enorme. Dou valor a coisas mais pequenas, tenho muito mais momentos de prazer do que antes, mais calma e mais energia. Afeta-me positivamente a mim e às pessoas à minha volta.”