Xian: guerreiros e o reino das mulheres

Em Xian, a antiga capital da China onde hordas de turistas se deslocam para ver os guerreiros de terracota, descobri um local pouco conhecido, mas que se revelou uma preciosidade: o museu Banpo. Em 1953 nesta aldeia a leste de Xian, no vale do rio Amarelo, encontraram-se os vestígios de uma comunidade neolítica, que viveu na região entre 4800 e 4300 a.C. Há cerca de 6 mil anos, esta sociedade decorava os seus utensílios domésticos com padrões artísticos geométricos, que revelam o domínio de algumas concepções matemáticas, e cozinhava a vapor. Acredita-se que era um clã matriarcal, embora estudiosos digam que essa teoria resulta do paradigma maoísta de arqueologia.
Uma comunidade matriarcal subsiste na China moderna: o “Reino das Mulheres”, um pequeno território no sudoeste da China, nas margens do lago Lugo, na província Yunnan, onde habita o povo Mosuo, descendente de uma tribo de nómadas tibetanos. Esta sociedade que habita numa região remota próxima da fronteira com o Tibete é considerada como a origem o mito “Shangri La”, a terra idílica retratada no utópico romance de James Hilton, Horizonte Perdido. Os antropólogos dizem que como os homens não têm aqui qualquer poder, não têm propriedade e desempenham papéis sexuais subservientes, não têm nada por que lutar. E daqui resulta talvez a mais harmoniosa das sociedades (a harmonia é uma palavra muito querida na cultura chinesa). Na língua dos Mosuo (o povo não tem escrita), não existe sequer a palavra “guerra”.
As mulheres adoptam o apelido da mãe e são as “chefes de família”. São as mulheres que herdam as terras, tomam as decisões importantes e controlam o seu dinheiro. Raramente casam. Têm aquilo que se chama o walking mariage: a mulher convida um homem a visitá-la com um discreto toque na palma da mão. O homem deve chegar de noite e partir antes do sol nascer e qualquer filho que nasça fica com a mãe, sendo educado pelos irmãos da progenitora. Na sua língua desconhece-se uma palavra que designe “pai”.
Texto e foto: Isabel Canha