Um dia de apetites reconfortados no Luso e Bairrada

Há refeições que nos dão verdadeiro prazer. Porque a comida é bem feita. Porque o serviço é atencioso e eficaz. Porque o vinho é servido à temperatura e acompanha bem o seu parceiro de comida.

Vinho não falta no Rei dos Leitões, de Licínia e Paulo, facto constatado na oferta variada e ampla constante na lista deste restaurante. Fiquei sobretudo satisfeito com a grande panóplia de espumantes à escolha, eu que sou apaixonado pelos ditos. De entre eles escolhi um Sidónio de Sousa Rosé, sobretudo porque nunca o tinha experimentado, mas também porque considerei que um rosé satisfaria as necessidades de companhia da posta de uma corvina de 20 quilos, apanhada, segundo Licínia, a proprietária, no dia anterior nos mares dos Açores, e do leitão assado, que não me canso de repetir sempre que demando a Bairrada. Antes veio uma sapateira recheada, fresca e apetitosa e uma surpresa de camarão corcunda, com que o chefe de cozinha, Carlos Fernandes, decidiu mimar quem estava na mesa. Tudo muito satisfatório e agradável neste oásis de boa comida da região.

Um recanto privado no Rei dos Leitões.

Usufruida devagar, em boa companhia vínica, a costela de leitão assado à moda da Bairrada é, para mim, um manjar dos deuses.

Transportados no tempo

O dia tinha começado pelo Luso, com paragem no café do Casino Luso, reaberto há uns meses. Quem entra nesta zona do edifício, cuja construção data de 1876, sente-se de alguma forma transportado no tempo, pelo bar característico, pelos painéis de madeira, pela iluminação natural do interior através das suas janelas. Também sente algum conforto, talvez pela decoração criada com muito empenho do casal que desenhou e fez cadeiras, mesas, sofás e móveis da sala do Rosa Biscoito. É, sobretudo, um ambiente familiar aquele que Sílvia Silvestre e Diogo Ribeiro criaram para receber os seus clientes, num espaço reaberto após 12 anos de inatividade.

Os petiscos do Rosa Biscoito.

Além da oferta característica de café e dos produtos gourmet, os dois criaram, para quem fica, uma série aliciante de tapas, com base em ideias que foram recolhendo nas suas muitas viagens pelo mundo e em Portugal. Queijo de cabra caramelizado sobre cama de rúcula, folhados de leitão com bolinhas de batata frita, cogumelos recheados com queijo e bacon e broa com sardinha picante e pimentos são algumas das sugestões de uma casa onde sabe bem estar. Acompanhei-os com um branco de encruzado Sobral de Santar, fresco e com a estrutura certa para aquela petisqueira.

A Mata do Bussaco

A verdade é que o Casino do Luso nunca foi local de jogo. Desde a sua construção, este belo exemplar de Arte Nova, de 1886, tem sido um espaço de cultura e animação dos termalistas. No limiar do século XX, muitos iam de férias a Luso, durante mais de um mês, e era preciso quebrar a monotonia do dia-a-dia nas termas. Hoje neste espaço visitável existe um pequeno museu dedicado à Água de Luso. As termas e o Grande Hotel de Luso estão também representados com uma mostra variada do seu património histórico e cultural.

Depois de uma breve visita, demandámos a Mata do Bussaco. É o cenário perfeito para um passeio a pé, num percurso envolto pela beleza extraordinária de um bosque de 105 hectares, onde se encontram cerca de 250 espécies de plantas exóticas e indígenas, trazidas ao longo dos tempos pelos frades Carmelitas Descalços, que se estabeleceram no Mosteiro de Santa Cruz no século 17. A mistura de espécies não tem paralelo noutros parques europeus e torna, este espaço, um verdadeiro templo botânico. É fácil encontrar, na Mata Nacional do Buçaco, uma sequóia da América do Norte, um chorão japonês, um embondeiro africano. Há também árvores oriundas do Brasil, México ou Himalaias. Infelizmente o nevoeiro e o tempo belicoso não nos deixaram usufruir do espaço condignamente, desta vez, e a visita foi rápida, com apenas algumas paragens para fotos.

Descuido arranjado

Fomos mais bem recebidos pelo tempo na Mata das Termas da Curia, onde gosto sempre de passear quando vou à região, pelo ar de descuido arranjado que têm os seus reservatórios de água e passeios entre arvoredo envolventes, que deixam vislumbrar, de vez em quando o belo edifício das termas e do hotel que as serve, onde pernoitamos.

A Fonte Fria da Mata do Bussaco.

O final de tarde foi ocupado com a visita ao Museu Aliança Underground, marcada atempadamente, é claro, para um mergulho entre os seus objectos de arte coleccionados por Joe Berardo, garrafas e pipas, que vale sempre a pena fazer. Aberto o apetite, demandámos, então, o Rei dos Leitões.

A ala da colecção de rochas no Museu Aliança Underground.

No dia seguinte, e antes do objectivo principal de paragem antes de voltar à capital, o Museu da Vista Alegre, onde passámos algumas horas a aprender um pouco da história de uma das empresas mais antigas de Portugal em actividade, e a olhar, demoradamente, a colecção exposta de peças, fomos até à Casa do Vinho da Bairrada, para um vislumbre de novidades, uma pequena prova e compra de espumantes, como não podia deixar de ser!