Um cemitério sem campas

Retratos da vida no campo de extermínio, contados pela nossa guia.

Retratos da vida no campo de extermínio, contados pela nossa guia.

A visita ao Museu Auschwitz-Birkenau é uma viagem a uma parcela da história das atrocidades do homem contra o homem, que é preciso não esquecer. O lugar lembra-me também que a paz também existe e existirá para sempre.

É difícil de contar esta história, a de uma aula que foi uma visita de seis horas ao antigo complexo de extermínio nazi e hoje Museu de Auschwitz-Birkenau, nas proximidades de Cracóvia, Polónia. A guia, uma senhora polaca,  falou sempre em voz calma, até quando expressava as emoções do horror em relação aos episódios que se passaram no início dos anos 1940 naquele lugar. Apesar da voz transmitida pelos auscultadores do campo de Auschwitz, por vezes não se escutava o que dizia, devido ao forte vento que abafava a transmissão do som. Por isso, mantínhamos-nos todos perto – um grupo de jovens de diversas nacionalidades, quase todos com a aparência de estarem pelos 20 e tal anos, mais os dois quinquagenários portugueses envolvidos -, durante seis horas para uma viagem à história e histórias dos eventos que se passaram naquelas casas de horrores há mais de setenta anos.

 

O arame farpado não esconde que ali se está num campo de concentração.

Sem as torres de vigia e o arame farpado, o campo de Auschwitz lembra um lugar pacato num sítio qualquer.

Retrato de mulheres, homens e crianças pacificamente à espera daquilo que seria um banho, extenuadas após uma viagem interminável em vagões de mercadorias.

Homens, mulheres e crianças pacificamente à espera daquilo que seria um banho, extenuadas após uma viagem interminável em vagões de mercadorias.

Plano de segregação e exterminação

Mesmo não conhecendo em pormenor a História da Segunda Guerra Mundial e as atrocidades que se cometeram, em nome da ideologia, pelo Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou Partido Nazi, poucos desconhecerão que este, liderado por Adolf Hitler, decidiu expandir o território alemão a terras polacas e outras, para arranjar espaço para aquela que consideravam a raça superior, a raça ariana. Em simultâneo, orquestrou um plano de segregação e exterminação de grupos populacionais que considerava não merecer ocupar a face da terra, incluindo judeus, testemunhas de jeová, deficientes, negros, ciganos, homossexuais e, como é evidente, adversários políticos.

O campo nos subúrbios de Oswiecim (Auschwitz, para os alemães), que se tornou em todo o mundo num símbolo do terror e do genocídio, era inicialmente um quartel polaco, que foi adaptado a prisão pelos alemães em 1940. A cidade tinha sido anexada pelo exército alemão, principalmente por se situar num importante nó ferroviário da região. Segundo a nossa guia, estava tudo integrado nos planos nazis, que tinham começado a criar zonas de concentração em guetos como os de Varsóvia, Cracóvia e outros, para os judeus, convencendo-os, e aos observadores mundiais, que os iriam transferir depois para lugares melhores. O objectivo, segundo a guia, foi sempre a exterminação. Mas era preciso segui-lo com bom planeamento, dada a magnitude do projecto e a vigilância internacional sobre tudo o que estava relacionado com o expansionismo nazi.

A prisão em massa de polacos foi a razão dada para o estabelecimento de Auschwitz, pois as estruturas existentes já não comportavam tanta gente. Inicialmente, Auschwitz era mais um campo de concentração e trabalho, dos muitos que os nazis tinham criado desde o início dos anos 1930. Aos olhos do mundo continuou a ter este papel, mesmo após se ter tornado, no início de 1942 no maior campo de morte do mundo, onde morreram, em conjunto com Birkenau (um dos seus campos satélite, construído a um par de quilómetros), mais de 1,1 milhões de pessoas.

Canto de paz e memória

A visita que me levou, nesse dia, ao maior cemitério do mundo, onde não há nenhuma campa, era necessária para mim, pois é muito diferente ler, ver ou ouvir histórias sentado em casa, de estar naquele local que é hoje um canto de paz e memória.

Olhando para as casas de Auschwitz, andando nos seus arruamentos de terra cheios de visitantes, dificilmente podemos sentir que estamos no mesmo local onde foram cometidas tantas atrocidades. A constância do arame farpado, das trincheiras individuais no chão, onde soldados armados vigiavam os prisioneiros, ajudam a lembrar o que se passou ali. Mas foi através das histórias da História, contadas pela nossa guia, das fotos a preto e branco mostrando a chegada das pessoas, com os seus haveres tirados por um militar nazi, e dos retratos que ornamentam as paredes interiores de um dos edifícios que fui impregnando aquilo que pode fazer a maldade e frieza dos homens que não são humanos.

Sobre uma das fotos, que mostrava um oficial nazi de polegar e indicador no ar, o chefe dos chefes do campo, a guia explicou que ele o virava para um lado para o outro, decidindo o destino de quem chegava. Ou era exterminado, o que aconteceu a cerca de 80% das pessoas que chegavam, a maioria dos idosos, mulheres e crianças, que não tinham boa compleição física, ou ia para os campos de trabalho, onde sobrevivia, em média, um ou dois meses, devido à má nutrição, doença ou exaustão, devido às condições em que viviam, que são sobejamente conhecidas. Não as vou descrever aqui, porque não é este o espaço nem lugar para isso.

Em passo de marcha

Na minha visita tive direito a ver uma das casas (prédios) que estava tal como no dia em que o campo tinha sido libertado, um privilégio destinado aos que fazem a visita de estudo, apenas dado a três grupos por dia, segundo a guia. Ali pude sentir, um pouco mais profundamente, o dia-a-dia das 1000 pessoas que lá sobreviviam, num espaço talvez para dez vezes menos, dormindo umas em cima das outras, tratando da higiene pessoal ao mesmo tempo que os outros e em tempo nenhum, comendo o que não serve para seres vivos.

Mas uma das coisas que mais me impressionou foi a obrigação de os prisioneiros saírem e entrarem para o interior dos campos em passo de marcha, após 11 horas de trabalho muito duro, muitas vezes carregando os corpos daqueles que tinham morrido durante o dia. Faziam-no ao som de marchas, interpretadas pelas orquestras entretanto criadas para o efeito  e para acompanhar as execuções, por exemplo. No momento em que nos contava este pormenor, junto à primeira câmara de gás criada em Auschwitz, a única que se pode visitar pois todas as outras foram destruídas pelos nazis à última hora, não hesitou em mostrar-nos a marcha criada pelo maestro da orquestra do campo, também ele um prisioneiro. “Vejam como é uma composição alegre e empolgante. Como é que é possível alguém que estava cá, e vivia isto todos os dias, fazer uma música como esta para os prisioneiros em sofrimento entrarem no campo a marchar?”, dizia, incrédula, tal como nós.

Mais tarde, já em Birkenau, o maior campo satélite de Auschwitz, mostrou-nos o lugar onde dormia a única sobrevivente viva da Orquestra Feminina, criada em Junho de 1943 por uma professora de música polaca, Zofia Czajkowska, por ordem das SS. As integrantes eram jovens prisioneiras, a maioria delas judias, cuja participação na orquestra as poupou de serem enviadas para as câmaras de gás ou os trabalhos forçados até a morte. Com o tempo, Czajkowska foi substituída no comando da orquestra por Alma Rosé, sobrinha do compositor austríaco Gustav Mahler que, antes de ser aprisionada em Auschwitz, era maestrina em Viena. A orquestra, que tinha poucos membros e apenas instrumentos de corda, segundo a nossa guia, tocava também nos portões do campo quando os grupos de prisioneiros saíam para trabalhar e voltavam. Durante os últimos momentos do holocausto, era também obrigada a tocar para acalmar os espíritos dos condenados. A música preservava a ilusão de que os prisioneiros seriam transportados para uma nova vida.

Campo de Birkenau, concebido para mais de 100 mil prisioneiros, onde morreu a maioria dos 1,1 exterminados no complexo.

Campo de Birkenau, concebido para mais de 100 mil prisioneiros, onde morreu a maioria dos 1,1 exterminados no complexo.

Para sempre

Foi com esta história que terminou a visita ao Museu de Auschwitz-Birkenau, e à história de um período terrível e vergonhoso da humanidade. Dela não consigo esquecer o enorme depósito de cabelos de mulheres, cortados à entrada dos campos para serem transformados em tecidos. E o dos utensílios, a maioria de cozinha, que os judeus transportavam porque os convenciam que iam para outro sítio, para uma nova vida longe dos guetos onde tinham sido enclausurados. Mas a memória que nunca mais vou olvidar é a visual, que alcancei do andar superior da torre de entrada do campo de Birkenau, e que está na foto acima. A de um espaço verde, com uma linha de comboio no meio, um vagão ao fundo, algumas barracas de madeira, árvores ao fundo e muita gente viva, alguns dos muitos milhares de visitantes diários deste museu. Dali senti que o maior cemitério do mundo, onde há cinzas de um milhão de pessoas, tem de existir para sempre para não nos esquecermos. Pelo menos aqueles que somos humanos.