Um Barca Velha no Palácio de Monserrate

É difícil imaginar lugar mais apropriado para o lançamento do um vinho Barca Velha, um tinto único, distinto, com uma aura mítica resultante de uma imagem criada ao longo de 18 colheitas em 64 anos de existência, que o Palácio de Monserrate, na serra de Sintra.

Quando cheguei ao parque homónimo, luxuriante, como quase toda a Serra, mas distinto pelas espécies exóticas introduzidas quando da sua plantação, a partir de meados do século XiX, anoitecia enquanto se sentiam os últimos retoques da preparação do jantar, a cargo do chefe de cozinha Miguel Rocha Vieira, do restaurante da Fortaleza do Guincho. Cheguei um pouco mais cedo, numa hora em que o sol se preparava para pousar no Atlântico, mas ainda iluminava a beleza do local. E valeu a pena.

Belos e diferentes

O Palácio e Parque de Monserrate são belos e diferentes, um pela sua arquitectura, misturada, diferente, a lembrar palácios de sonho, e outro, o parque, pela exuberância do seu património vegetal e pela paz e sensação de mistério que transmite aos seus visitantes quando o percorrem.

Palácio de Monserrate

Palácio de Monserrate é uma das obras de espírito romântico-orientalista mais emblemáticas de Sintra

Construído em meados do século XIX por iniciativa de Francis Cook, visconde de Monserrate, o primeiro é uma das obras de espírito romântico-orientalista mais emblemáticas de Sintra. Em 1858, este abastado comerciante britânico contratou James Knowels Jr. para projectar o pavilhão que pretendia construir no local. O arquitecto teve de se cingir às estruturas sobreviventes de um primeiro edifício neogótico, mandado construir por um rico comerciante e contratador do monopólio do pau brasil no tempo do Marquês de Pombal, Gerard Devisme.

Ainda assim, o edifício concebido por Knowels é original e profundamente ecléctico. O Palácio de Monserrate é, ainda hoje, um exemplo particularmente rico das possibilidades cenográficas das casas de campo de Sintra. No seu exterior conjuga-se uma linguagem estética surpreendente, a oscilar entre sugestões góticas, indianas e mouriscas. No interior, a exuberância decorativa dos estuques e capitéis acentua o carácter oriental do pavilhão, principalmente na galeria e na sala de música.

Foi precisamente na sala de música que decorreu o repasto de apresentação do Barca Velha 2008, para uma galeria de convidados da comunicação social de Portugal, Angola e Brasil. Para além da estrela da noite, gostei, em particular, do branco Antónia Adelaide Ferreira Branco 2014, um vinho elegante, fresco e equilibrado, que deverá evoluir muito bem com o tempo. Entre os pratos, o Lavagante com cenouras estava muito bem conseguido e exaltava todos os sabores do marisco. Quando chegou à mesa lá fora era noite, e a escuridão cobrira a beleza da paisagem envolvente ao Palácio de Monserrate.

Aventura supreendente

No século XIX, Francis Cook, o seu proprietário da época, transformou-a num magnífico jardim exótico, planeado pelo arquitecto James Burt, que procurou recriar ambientes de várias partes do globo, num aproveitamento extraordinário das condições naturais e possibilidades cénicas da vegetação existente e das mais de 1000 plantas introduzidas. A paisagem assim construída, e a profusão das espécies sub-tropicais, levaram a que o Parque de Monserrate fosse considerado um dos mais notáveis jardins exóticos do mundo no período vitoriano, aquele que abrangeu o longo reinado de Vitória, monarca britânica do século XIX.

Logo a seguir à entrada no jardim, encontra-se o Arco de Vathek

Logo a seguir à entrada no jardim, encontra-se o Arco de Vathek.

Pormenor do Jardim do México

Pormenor do Jardim do México.

Percorrê-lo hoje é, sem dúvida, uma aventura surpreendente, desde a entrada ao ponto mais baixo, o florido Jardim do México, passando pela Araucária-de-Norfolk, a árvore mais alta do jardim, com mais de 50 metros. “A impressão dominante é a de um jardim encantado, onde se ocultam as coisas mais raras”, referia Walter Oates, um dos responsáveis pelo jardim em 1929. É algo semelhante ao que se sente no aroma deste Barca Velha de 2008.

A estrela da noite

No repasto, teve a boa companhia de um prato de veado a baixa temperatura, com marmelo e maçã, que só pecou por ter sido servido frio. Servido à melhor temperatura e no copo certo, não deixa dúvidas em relação à sua linhagem. Tem carácter, profundidade, lembra a personalidade dos vinhos do Douro, mas deixa ainda muito por revelar. Na boca confirmou-se que precisa de tempo para mostrar todo o seu carácter e que deverá viver ainda muitos anos. O principal actor da noite mostrou-se um vinho de cor violeta e aroma profundo e fresco, ainda muito fechado, com notas de frutos vermelhos e pretos maduros e compotas de frutos pretos, algum fruto seco e notas de madeira. Na boca ainda tem taninos evidentes, conjugados com uma boa acidez e um final muito longo marcado por notas de especiarias.

Luís Sottomayor

Luís Sottomayor

Barca Velha

Barca Velha

Na Casa Ferreirinha são seleccionados, para Barca Velha, apenas os lotes de grande qualidade de cada colheita. É assim desde 1952, ano da primeira vindima colocada no mercado. Como o tempo é a alma deste vinho, a equipa vai aguardando que cada uma atinja o seu auge, provando sempre para sentir a sua evolução. Se os níveis exigidos não se verificam, a colheita não dá para fazer vinho com esta marca, pois “o vinho tem de nascer, crescer e amadurecer como Barca Velha”, explica Luís Sottomayor, director de enologia da Ferreirinha. Acrescenta que o processo até ao lançamento de uma nova colheita é sempre misterioso, enquanto o vinho se vai estruturando, revelando e mostrando consistência ao longo do tempo. Eu, por mim, vou guardar o meu mais um par de anos, para me fazer companhia à mesa quando me tornar sexagenário.