Nem tudo o que vem à rede é fixe

Eram 9 da manhã e o post já tinha mais de uma centena de likes. A Ritinha fazia anos naquele dia e o Manel fazia-lhe uma declaração de amor diante de uma multidão virtual. O Manel deitado ao lado da Ritinha a teclar furiosamente frases românticas no seu telefone. A Ritinha, a seu lado, a fazer like e a comentar com um coração encarnado e pulsante, sem nunca dar um smile real ao seu Manel, ainda que partilhassem a mesma cama.

Toda a gente sabe que na internet dizemos o que provavelmente não diríamos aos outros cara a cara, muito menos numa sala cheia de ‘amigos’. Somos todos os dias apanhados numa espécie de rede de arrasto, numa caldeirada de comentários e nem todos eles amorosos. O Facebook tornou-se um depósito de malícia e frustração. Um exemplo recente: a propósito da saída de Vanda Miranda das manhãs da Comercial e da sua substituição, parece que temporária, por Joana Azevedo, uma ouvinte lamentava a escolha e dizia que ela era a “pior locutora” daquela rádio. É triste pensar que se usam tantos filtros para fotos e nenhum para comentários. Que se tenha tanto cuidado com a imagem e nenhum com as palavras.

Meses depois do seu aniversário, Ritinha acabou o namoro na mesma ‘sala’ onde haviam feito a festa, entre amigos. Manel respondeu com outro post, não tão fofinho como o anterior –  insultuoso até –  mas que lhe valeu ainda mais likes. As palavras foram sujas e, desta vez, nem a foto da Ritinha na praia teve direito a filtro.