Tourada de agosto

– Tens noção de que estás a comer frango bebé, não tens?

Os comentários de Matilde já não me comovem, por esta altura já sou um touro em pontas. Continuo a mordiscar a cartilagem da asa com o mesmo ar desafiador com que a arrastei para a meca do frango da Guia, já na viagem de regresso para Lisboa.

Chega!

Foram sete dias a gel antibacteriano, que a Matilde armazena desde última pandemia da gripe A (juntamente com o Tamiflu fora do prazo), a evitar o buffet do pequeno almoço, por a comida estar facilmente exposta aos perdigotos dos outros veraneantes, e a contornar as caipirinhas servidas em copos de plástico, suspeitos de conterem doses elevadas de ftalatos. Eu devia ter percebido os sinais quando, antes da viagem, fomos ao supermercado e fui, para o meu bem, aconselhada a abandonar as batatas fritas. (‘Let It Go, Let It Go’, na minha cabeça o refrão da música favorita da minha filha).

– Sabes que isso não é batata, não é nada, não sabes?

Primeiro ainda lhe dei um desconto, estava a passar uma fase difícil, as primeiras férias sem os miúdos depois do divórcio. À medida que os dias foram passando, as suas atitudes tornaram-se mais radicais. Começou a fazer com as pessoas o que fazia com os alimentos, colocando no mesmo cesto as que tinham os “ingredientes” certos e deixando na prateleira todas as outras. Quando chegámos ao fim das férias, o saco amigo do ambiente estava cheio de flocos de aveia integral bio, café sustentável, pessoas com mais de dois gatos, clientes do Celeiro e mulheres com fatos de banho de cortiça. E eu ficara para trás com o grupo dos forcados (simpáticos, apesar das bermudas e do gosto por pegas), as pessoas que comem caracóis e carapaus bebés, com as madalenas cheias de açúcar e o leite de vaca contaminado com antibióticos.

A gota de água (e cuidado com o desperdício) foi quando lhe disse que estava com dificuldades em adormecer, talvez não me estivesse a dar bem com as sementes de linhaça.

– E vê lá se contas forcados em vez de carneiros porque vais cansar os bichinhos.

3525 contei eu. Com muito alho e alecrim. Méééé….