The Post e o ser mulher no mundo dos negócios em 1971

O filme The Post é muito mais do que o registo de um momento crucial da História em que um meio de comunicação social arriscou tudo em defesa da verdade, da liberdade de imprensa e da democracia. É também o registo de como uma mulher à frente de uma empresa era tratada no início dos anos 1970, nos Estados Unidos. Katherine Graham (Meryl Streep), a primeira mulher a dirigir uma grande jornal nos Estados Unidos, não só tem de lidar com as inseguranças de quem assume a direção de uma empresa aos 45 anos, depois de uma vida dedicada à educação dos filhos e ao papel de esposa perfeita, ou seja, sem qualquer experiência do mundo dos negócios, como essa realidade lhe é constantemente lembrada pela maioria dos homens que a rodeiam e que procuram dizer-lhe que decisões deve tomar em vez de simplesmente se limitarem a dar a sua opinião. Ben Bradlee (Tom Hanks), o seu editor executivo, e Fritz Beebe, chairman do Washington Post, são os únicos homens que a tratam de igual para igual.

Mesmo para mim, que nasci em 1965, parece mentira como esta era uma realidade em tempos em que eu já era nascida. Confesso que não me apercebi destas questões de género até chegar ao mundo das empresas. A minha mãe sempre trabalhou, os assuntos sempre foram discutidos e decididos em casa pela minha mãe e pelo meu pai – talvez até mais pela minha mãe, que dentro da sua prudência sempre foi mais de arriscar do que o meu pai -, nunca ninguém me disse que eu não podia fazer isto ou aquilo por ser rapariga e, mesmo com os meus avós, pessoas “mais antigas” e do campo, o único traço que me distinguia dos meus primos era o tratamento por “menina”, mas que era uma coisa que tinha mais a ver com o facto de eu viver na cidade e os meus primos no campo, do que com o facto de eu usar saias e eles calças.

Hoje, ao ver a fragilidade daquela mulher em 1971, tão bem interpretada por Meryl Streep, não pude deixar de admirar a sua tremenda coragem. Ao contrário de mim, ela não fora educada para ser o que quisesse, mas sim para ser uma ótima mãe e uma boa esposa, de tal maneira que quando o pai decidiu retirar-se da gestão do Washington Post e nomeou o genro para seu sucessor, ela ficou encantada com a decisão. Nunca passara pela cabeça de Kay Graham ocupar um lugar para onde a morte precoce do marido (Phil Graham) acabaria por a empurrar. Por isso, dificilmente poderia sentir-se preparada para tomar uma decisão tão dificil como a que enfrentou – pôr em risco o negócio que herdara do pai e do marido, que representava o futuro dos três filhos e de todos os que trabalhavam no Washigton Post, para apoiar a decisão do seu editor executivo em publicar os Papéis do Pentágono, que provavam que vários presidentes tinham mentido sobre o envolvimento norte-americano na guerra do Vietname. Mas com as suas inseguranças e medos, Kay fez aquilo que todas as mulheres que conheço com sucesso na carreira fazem: preparou-se melhor do que qualquer homem, escutou todos à sua volta – especialmente aqueles que lhe diziam a verdade e não necessariamente o que gostaria de ouvir – e quando chegou a hora decidiu sozinha. Parece simples, mas não é. Porém, este é o segredo das mulheres que conseguem chegar ao topo, mesmo daquelas que como Kay Graham nunca desejaram lá chegar.

Texto: Maria Serina