A Suíça dos Alpes e dos vinhos

É difícil descrever um lugar assim, apesar de estar repetidamente retratado em muitas caixas de chocolates e em contos idílicos passados nas montanhas. Era isso que sentia de cada vez que olhava a paisagem em Leysin, lugar de pernoita dos membros do júri do Concurso Mundial Bruxelas, que decorreu este ano na pequena cidade de Aigle (com a participação, mais uma vez, de cerca de 1000 vinhos portugueses), uns quilómetros depois de uma das pontas do Lago Leman.

Um entardecer solarengo recebeu-nos em Leysin.

O comboio trepador numa das três estações de Leysin.

Comboio trepador

Situada a 1300 metros de altitude, mais coisa menos coisa, Leysin é acessível, a partir de Aigle, por estrada ou através de um pequeno comboio trepador, que viaja através da floresta com vista permanente para o vale e para a montanha. Trata-se de uma urbe com cerca de 3 mil habitantes, muitos deles portugueses, onde chalets de madeira alternam com outras casas e temperam uma paisagem matizada de verdes, que termina sempre, olhe para onde se olhe, com uma vista de montanhas coberta de neve. Pelo menos enquanto lá estive.

Contagiado pelo que ia vendo, não conseguia deixar de trautear diariamente o excerto que me lembrava da canção da série infantil sobre a órfã Heidi, inspirada no livro escritora suíça Johanna Spyri. Era um acto estranho e irreflectido, até porque vi poucos episódios da série. Mas o que podia fazer?!

Leysin era, como já disse, o local onde íamos essencialmente dormir. Mas reservava-nos quase sempre uma surpresa, de um amanhecer coberto de branco, de um período de queda de neve mais intensa, alternado com a queda de flocos semelhantes a algodão, como aqueles que apenas aparecem em livros e nos filmes romanceados, alternados com períodos de céu descoberto, ou quase.

Depois de um final de tarde quente e luminoso, chegou o Natal imaginado a Leysin.

Jardins de vinhas

Foi num dos finais de dia desse período que fomos ao restaurante Le Leysin, para um repasto que incluiu foie gras e magret de pato, foundue bourginone com carne de cavalo (uma surpresa agradável) e vaca, um inevitável tiramisu e outros doces de inspiração italiana, a língua comum a todos os empregados de mesa do restaurante. Tudo bem, irrepreensível e bem feito, com saliência para o fondue e o tiramisu, este um dos melhores que já provei. Para companhia das entradas, um Blanc Fumée da cooperativa suíça Artisans Vigneron d’Ollon, que fica perto de Aigle, vinho de lote ligeiramente doce, com toque fumado e de madeira. Para o fondue, o tinto italiano Rivus 2014, da casa Pfitscher e da casta Lagrein fresco, elegante, complexo e profundo de aromas, com saliência para as as notas de violetas e frutos do bosque, que parecia criado para ser o parceiro ideal da comida.

Um dos jardins de vinhas de Aigle.

Foi um final de dia retemperador, após uma tarde de visita ao Castelo d’Aigle e de deambulação entre os jardins de vinhas que ocupam muitos dos recantos da cidade, limitadas por muros de pedra e ocupando a paisagem montanha acima, até à floresta, em patamares e socalcos a fazer lembrar a região do Douro. A principal diferença, à vista, era o porte bem mais baixo das plantas. Mais uma surpresa para quem só conhecia a Suíça dos bancos onde os ricos escondem o dinheiro, e a dos queijos, chocolates, relógios, postais ilustrados e férias de neve, como eu.

Uma das vielas da zona antiga de Aigle

Viagens de comboio

Uma das coisas que mais contribuiu para me fazer sentir que estava na Suíça não foram as montanhas, nem a presença quase constante dos lagos, do verde por todo o lado. Foi o silêncio que se sentia nas viagens de comboio, a sua frequência e regularidade e, melhor ainda, a pontualidade. Aquilo que me apeteceu mesmo foi fazer um copy/paste da rede suíça de comboios, para substituir toda a oferta que anda por cá. Menos os preços, claro está. São tão fiáveis que a nossa guia, Mirjam (Miriam), se dá ao luxo de não ter automóvel! Para quê? Quando precisa de um usa um dos muitos de partilha, que estão sempre à mão em Zurique, a cidade onde habita, ou nas outras.

Os passes normais e turísticos não são baratos para a maioria dos bolsos nacionais, mas é um conforto e uma possibilidade de poupar muito dinheiro. Permite aos viajantes conhecerem o país de ponta a ponta de comboio, autocarro e barco, em 3, 4, 8 ou 15 dias consecutivos, até porque é válido também em 90 zonas urbanas do país. Também dá entrada gratuita em 500 museus suíços, inclui algumas excursões de montanha e dá descontos.

Já no que toca a um incauto turista, como eu, pode escolher o local de pernoita, por ser mais barato ou aprazível, ir dar uma volta nesta ou naquela cidade, uma passeata através de um lago ou numa zona de montanha mais ou menos atractiva, e voltar num período confortável de tempo. Os comboios suíços são frequentes, costumam passar nos horários marcados e podem ser interligados com uns com os outros, autocarros e barcos – há uma aplicação que permite saber e interligar os horários dos transportes e até marcar o embarque. Só não há mesmo é lugares marcados, que eu tenha verificado, nem é preciso. Algumas informações podem ser recolhidas no site do turismo suíço, que também propõe o aluguer de bicicletas e carsharing.

Findos os três dias de prova do CMB, que decorreu todas as manhãs na Pista de União Internacional de Ciclismo, com visitas, à tarde, à região e a diversos produtores de vinho suíços, era chegada a hora de descobrir um pouco mais do que a Suíça tem para oferecer, na companhia de mais de uma dezena de colegas de diversos países do sul da Europa, da Roménia a Portugal. E como? De comboio, claro.

Sabayon de absinto

É uma viagem que será feita no próximo texto, à descoberta de uma ilha onde o irreverente e, diz-se, pouco conveniente, filósofo suíço Jean-Jacques Rosseau viveu um tempo até ser expulso. Também dos aromas e sabores do absinto, e da maneira de fazer um sabayon com a bebida, num passeio que mete, entre outros, uma viagem de barco e um passeio pedestre de meia hora, na margem de um lago, de olhos baixos e semicerrados para atravessar nuvens densas de mosquitos, esforço recompensado pela visita a um pequeno produtor com um par de grandes vinhos brancos e a capacidade de receber dos amigos de longa data. Há mais, mas fica para a próxima história.

A não perder em Leysin e Aigle

Le Leysin

O restaurante fica num chalet rústico do século XVIII. Comida inspirada na cozinha francesa, saborosa e bem cozinhada, uma boa carta de vinhos e pessoal simpático. PVP da nossa refeição: 50 euros.

Morada: Rue du Village 8, Leysin, Suíça
Tél.: +41 24 494 23 15
E-mail: info©leleysin.ch

La Fromagerie

Espaço rústico, agradável e acolhedor. A casa produz queijos e tem uma oferta de tradicionais pratos suíços com o produto, como raclettes e fondues. Também tem uma oferta variada de pratos de carne e tábuas de queijos e enchidos para partilhar com vinhos suíços ou cerveja. Serviço muito demorado. PVP da nossa refeição: 42 euros.

Morada: Rue du Village 4, Leysin, Suíça
Tel.: +41 24 494 22 05
E-mail: froma@bluewin.ch

Castelo de Aigle

Para além de um par de pequenas ruelas na zona mais antiga, pouco mais há para ver na cidade do que o seu castelo, já que os caminhos apontam todos para a zona de Leysin, considerada uma das zonas mais bonitas da Suíça, com acesso a várias pistas de esqui através de telecabine, na zona do Pico de Berneuse que tem, no verão, uma vista espectacular sobre a povoação e toda a sua envolvente.

Morada: Place du Château 1, 1860 Aigle, Suíça
Tel.: +41 24 466 21 30
Site: https://chateauaigle.ch/