A Suíça do absinto e dos chocolates

Solothurn, a cidade mais barroca da Suíça.

Foram três dias intensos, sempre com o comboio a ter papel preponderante nas nossas vidas, transportando-nos, ligando quase todos os pontos de visita à região dos Lagos de Jura, na Suíça. A primeira viagem foi a mais longa, entre Aigle e Solothurn, cidade suíça obcecada pelo número 11. Trata-se do 11º cantão da Confederação Helvética, criado em 1481 e dividido em 11 protectorados no século XVI. São algumas das razões que podem explicar a obstinação de uma cidade que abriga 11 igrejas, 11 capelas, 11 fontes, 11 torres e 11 museus e um conjunto arquitectónico surpreendente que vale mesmo a pena visitar.

Montras (quase) irresistíveis

Há mais coisas que ligam o número à cidade, mas seria fastidioso contá-las. Prefiro falar do seu bolo, que provámos na Suteria. Trata-se de um merengue de avelãs, com creme do mesmo, que vale a pena experimentar apesar do seu preço ser superior a quatro euros. As montras de bolos da pastelaria, cheias de cores e formas, são irresistíveis. Felizmente os preços são pouco convidativos aos bolsos portugueses e saí dali quase tão leve como entrei.

A montra do bolo de Solothurn na Suteria, em Biel.

Depois de uma volta calma pela cidade e margem do seu rio, tinha chegado a hora de voltarmos ao comboio em direcção a Biel, que fica a uma vintena de quilómetros. Um breve repasto retemperou-nos as forças, antes de embarcarmos para uma viagem de barco pelo lago homónimo até à ilha de St. Peterhinsel (Ilha de S. Pedro), aquela onde nos cruzámos com a memória do filósofo Jean-Jacques Rousseau e a casa que usou, por empréstimo, durante algum tempo.

A viagem de barco pelo Lago Biel levou-nos em direcção à Ilha de S. Pedro

Foram os textos que escreveu depois sobre a beleza do lugar que transformaram este espaço, onde alguns viticultores arrendatários exploravam, de forma modesta, as suas vinhas, num lugar de destino de viagens educacionais, primeiro, e de turismo até aos dias de hoje. O destino principal é o antigo mosteiro, agora um pequeno hotel para quem gosta de pernoita em casas com história, com uma esplanada, onde se pode beber um copo, e sala de jantar.

Durante o passeio pedestre na Ilha de S. Pedro havia sempre mais um motivo para fotografar

A visita à casa foi interessante, mas o passeio pedestre de ida e volta até lá soube ainda melhor. A estrada de terra batida tinha poucos sinais de passagem de veículos motorizados e estava ladeada de pastos com rebanhos de bovinos e caprinos, que pareciam ter ali sido postos para serem fotografados.

Nuvens de mosquitos e um branco retemperador

De volta ao ancoradouro, e depois de uma boa caminhada a pé, embarcámos de novo para um breve passeio até a Ligerz, na margem do lago coberta de vinhas e de antigas casas de lavoura de agricultores abastados, pelo menos pela sua dimensão. Muitas delas estão agora divididas em apartamentos, para aqueles que querem ter casa com vistas para a água e têm dinheiro para pagar por isso. As outras apenas são usadas pelas famílias proprietárias durante as vindimas e nos trabalhos com o vinho. Procurávamos uma delas, bem mais modesta, a da Keller am See, de Christian Dexl, pequeno produtor de vinhos da beira do lago, com apenas 2,5 hectares de vinha.

Uma parte das casas de lavoura de Ligerz, à beira do Lago Biel, está transformada em condomínios de apartamentos.

O percurso entre o cais e a adega, não mais de 1000 metros feitos à sua beira, primeiro entre o casario e depois por estreito caminho marginal, reservava-nos uma surpresa… pouco agradável: a presença constante de nuvens de mosquitos. Tivemos de fazer o trajecto de olhos baixos, eu com o chapéu-de-chuva sempre aberto à minha frente para diminuir o número de bichos que se chegava à minha face. Sempre com a mente no objectivo, cheguei lá com o sentimento de alívio de quem depara com um oásis no meio do deserto.

Melhor ainda me senti quando a face simpática do produtor abriu a porta da sua pequena adega, onde tudo estava pronto para nos receber: os copos certos, os vinhos à temperatura de serviço e uma panóplia saborosa de queijos e enchidos. Pão da terra, uma pasta fresca preparada pela mulher para o barrar e uma história bem contada contribuíram para tornar o ambiente ainda mais familiar e agradável. Entre os brancos que lá provei, ambos da colheita de 2018, salientou-se o da casta Chasselas, com aroma onde se salientavam as notas de flores brancas e de fruta branca e citrina, num vinho fresco e de aroma intenso. Na boca era equilibrado e harmonioso, envolvente e de final longo. Um belo vinho, de que foram produzidas 3 mil garrafas, com preço de venda ao público de 16 francos suíços (cerca de 14 euros). Era o mais barato da casa e um achado, de um produtor que coloca, no mercado, uma média de 18 mil garrafas por ano.

Encontro com o absinto

Pela tarde apanhámos, umas centenas de metros à frente, de novo o comboio para Biel, cidade sede de marcas mediáticas de relógios como a Rolex, Omega e Swatch. Após uma volta à zona velha e um repasto que meteu um belo bife, para matar saudades, e a cerveja do dia no restaurante St. Gervais, foi hora do descanso. O dia seguinte seria longo, e incluiria uma visita à Casa do Absinto de Môtier, urbe também conhecida pela bela cascata do rio Bied e pelo produtor de espumantes Mauler & Cie.

O absinto estará ligado para sempre ao período da Belle Époque e ao apogeu da Arte Nova. Era apreciado por escritores como Charles Baudelaire ou Ernest Hemingway e pintores como Toulouse-Lautrec, sobretudo pela presunção do seu caracter alucinogénio, que hoje se sabe ser inexistente. “Depois do primeiro copo de absinto, vemos as coisas como gostaríamos que fossem”, escreveu Oscar Wilde.

O serviço do Absinto em Môtiers.

Apesar das suas ligações místicas, o seu método de produção é bastante terreno. Criado pelo médico francês Pierre Ordinaireno final do século 19, como medicamento na região suíça de Val-de-Travers, o absinto é tradicionalmente produzido a partir da planta com o mesmo nome, do anis e do funcho. O conjunto é primeiro embebido em álcool. Depois a mistura é destilada, arrefecida e diluída. No final, há quem lhe misture outras ervas para lhe acentuar o característico tom verde, já que ninguém lhe tira o sabor marcado pelo anis. Colocado no fundo do copo, é-lhe adicionada água, depois de passar por açúcar numa espécie de colher usada especialmente para o serviço.

Não é, de certeza, a minha bebida preferida, mas a sua doçura e o toque anisado devem ter contribuído para muitos excessos dos seus apreciadores, que os justificaram com o seu inexistente carácter alucinogénio. De tal forma essa convicção cresceu, que o consumo da bebida esteve proibido durante quase 100 anos, até ao final do século passado.

A Casa do Absinto de Môtier fica na região de origem desta bebida, onde sua produção sobreviveu de forma clandestina. A visita abrange uma viagem à sua história, método de produção e inclui, é claro, a forma de servir e a prova. Mais interessante ainda foi terem-nos posto de mãos na massa a fazer um sabayon (sobremesa de origem italiana, leve e doce) com a bebida, que provámos, depois, durante o repasto que decorreu nas antigas Minas de Asfalto do Val-de-Travers.

Mmmm… Chocolate

Por estranho que pareça, comemos fiambre cozinhado em asfalto, um prato interessante e saboroso, aparentemente servido todos os dias 4 de Dezembro na empresa e recriado, a partir de 1991, pelo actual Café das Minas. Gostei da parceria com a cerveja de asfalto da casa, com o seu toque fumado facilmente reconhecível, sem ser agressivo, estrutura e também elegância. “Coisas com asfalto ficam bem com coisas com asfalto”, pensei naquele momento.

Pela tarde visitámos a Mauler & Cie, casa tradicional de espumantes do país, e a produtora de queijos Fromagerie des Franches Montagnes, onde se faz, entre outros, o Tête de Moine, cuja designação é mais antiga do que a data da fundação da Confederação Suíça (1291). A história e a sua forma de servir são interessantes, mas preferi o Gruyère AOP Réserve da casa, de sabor mais intenso.

A visita seguinte, ao museu interactivo da fábrica de chocolates Chez Camille Bosh, activa desde 1929, foi mais sugestiva. Levou-nos pela história desta empresa familiar, cujos destinos são actualmente conduzidos pela terceira geração da família e à sua capacidade de inovação e adaptação às mudanças que foram acontecendo no mundo. Também aos seus principais sucessos, as marcas Ragusa e Torino.

Uma das artesãs da Chez Camille Bloch mostra como se faz um dos chocolates da casa.

Os seus artesãos mostraram-nos como são feitos alguns dos chocolates e nós fomos provando tudo o que pudemos, para não deixar sabores escapar da memória, é claro. Na estação da terra, Courtelary, que fica apenas a 350 metros da fábrica, e um pouco mais pesados com os chocolates para a família, voltámos de novo ao comboio, desta vez em direcção ao aeroporto de Genebra, com destino a Lisboa. Nada como levar coisas doces para casa e deixar toda a gente contente.

Fotos: José Miguel Dentinho

Locais para comer e dormir

Restaurant St-Gervais
Morada: Rua Untergasse 21, 2502 Biel, Suíça
Tel.: 0041 32 322 48 22
Site www.stgervais.ch

Mine D’Asphalte
Morada: Site de La Presta, Travers/Val-de-Travers, Suíça
Tel.: 0041 32 864 90 64
Site: https://www.mines-asphalte.ch/

Fromagerie des Franches Montagnes
Morada: Rue de l’Avenir 2, Le Noirmont, Suíça
Tel.: 0041 32 952 19 00
Site: www.fdfm.ch

Art Déco Hotel Elite
Morada: Rua Bahnhof, 14, 2502 Biel, Suíça
Tel.: 0041 32 328 77 77
Site: www.elite-biel.com

Hôtel Athmos
Morada: Avenue Léopold-Robert 45, La Chaux-de-Fonds, Suíça
Tel.: 0041 32 910 22 22
Site: www.athmoshotel.ch