A Sicília dos vulcões e da água fria

Aconteceu-me uma coisa rara nesta viagem. Depois de 12 dias de Sicília, onde me dediquei sobretudo a Palermo e à zona sul da ilha, não queria vir embora. Senti que precisava mais tempo.

Senti-me mais vivo no meio daquele trânsito caótico, cujas regras não são as do código da estrada, mas as que foram construídas nos hábitos sicilianos. Também na forma como as pessoas se relacionam entre si e connosco, como se fossemos mais um do seu dia a dia. E na sua comida de conforto, raramente inesperada e quase sempre saborosa.

Em todas as paisagens, no seu interior seco e escarpado e no seu litoral verde, onde as vinhas se misturam com oliveiras e pomares de citrinos e de romãs, entre outros, e os campos de estufa espraiam-se a perder de vista, havia sempre mais um pormenor em destaque. Havia os motivos programados, como o Vale dos Templos, perto Agrigento, a alcantilada Escada dos Turcos, falésia junto ao mar, o chocolate granuloso e irresistível de Módica, a bela cidade de Ragusa e a casa e a comida do Comissário Montalbano, série policial passada na Sicília, criada com base nos livros de Andrea Camilleri. Mas foi sobretudo depois, na zona leste da ilha, que mais me senti em casa, num lugar que vale a pena visitar e viver.

A Casa do Comissário Montalbano, uma casa de hóspedes transformada em atracção turística.

O mercado do peixe de Catânia

A região da Catânia e Messina, onde ficámos para os nossos últimos dias na Sicília, não poderia ser mais apelativa. Ali ao lado, omnipresente, estava o Etna, magnífico nos seus quase 4 mil metros de altitude, pronto para receber mais um par de turistas atraídos pelo seu resplendor.

Um pouco mais longe estava a mediatizada Taormina, cidade empoleirada num penedo sobre o Mediterrânico, visitada por muitos milhares de turistas durante todo o ano, muitos deles oriundos dos navios de cruzeiro que aportam em Messina, para lá darem um pulo e ao grande vulcão. Claro que fomos a ambos os locais, mas o primeiro passo na região, dado a um sábado, foi o mercado de rua de peixe e marisco de Catânia.

O mercado do peixe de Catânia, onde tudo se passa no meio da rua

É uma paragem imperdível. Andar no meio daquelas bancas colocadas de forma desordenada, escutar os pregões dos vendedores e olhar a variedade de peixe à venda fez-me sentir que estava mais próximo da “minha” praça de Olhão, em Portugal, com a mesma vida, mas muito mais caótica.

Ainda dei mais uma volta pela cidade, para olhar a sua catedral, o teatro romano, a universidade secular, mas nada disto foi melhor do que estar naquele sítio, onde tudo parecia mais humano. Depois, não resisti a algumas ostras com Chardonnay, na esplanada acolhedora de rua do Razmataz, abrigada por árvore frondosa, antes de voltar ao carro para rumar ao hotel, em Lachea, a seis quilómetros dali.

Nessa tarde, e depois de muito procurarmos, conseguimos chegar à Garganta de Alcântara, onde nos banhámos nas águas frequentadas por Vénus. Eram quentinhas, na altura em que esta andava por aí, porque Vulcano (Deus do fogo romano), o namorado, gostava de mimar a menina. Para nós, eram tão frias que faziam doer os ossos.

A subida ao vulcão da Ilha de Vulcano não foi fácil, mas valeu a pena.

 

A Garganta de Alcântara, ribeira gelada de águas límpidas entre margens alcantiladas.

Depois de descermos, de elevador, alguns andares até à margem do rio pedregoso de águas frias, pusemos lá os pés, e fomos, curso de água acima, o mais longe que pudemos, dado que tínhamos deixado os fatos de banho no carro.

Numa pequena cascata, duas jovens turistas tiravam fotos para o troço de rio seguinte, algo que tentei fazer também, equilibrando-me na parede abrupta da margem com pouco sucesso. Sem inveja, devido à temperatura das águas, certamente a rondar os 10ºC, vi-as tomarem banho com alegria, e assisti à passagem do grupo que fazia rafting individual no percurso entre a nascente daquelas águas e não sei onde, porque pouco tempo estiveram por ali. Mas o que mais me deliciou foi mesmo o enquadramento do Rio Alcântara entre as paredes abruptas que o delimitavam, cavadas ao longo de milhões de anos.

Indiferentes aos resmungos do Etna, turistas a passear no cone vulcânico da última grande erupção.

A subida ao Etna

O dia da visita ao maciço vulcânico do Etna, que inclui, para além do cone principal, o mais alto do mundo em actividade, mais umas centenas de outros, foi uma jornada cheia de emoções.

Depois de pagos os 65 euros na bilheteira e do embarque na cabine teleférica, lá fomos, montanha acima, para o poiso seguinte, a 2500 metros, de onde camiões preparados para o transporte de passageiros nos levaram até aos 3000 m, onde se podia ir nesse dia.

Fica no lado sul e é a base de um dos cones vulcânicos que estiveram activos em 2001, durante a última grande erupção do Etna, em que a lava devastou tudo o que era instalações turísticas por ali abaixo. Só sobrou, segundo o guia de montanha que nos acompanhou, um pilar do teleférico.

Não fomos mais longe, porque o Etna tinha começado a dar o ar de sua graça em Julho deste ano, e ainda não se tinha cansado. As explosões eram uma constante, tal como as emissões de gases sulfurosos, que se faziam sentir, também ali, centenas de metros abaixo, com uma pestilência que, felizmente, era varrida do nosso ambiente pelos ventos constantes que por ali sopravam.

Enquanto dávamos a volta ao topo daquele cone vulcânico, não parámos de tirar fotos para guardar mais uma recordação daquele lugar tão diferente do nosso planeta, que ainda por cima dava mais um resmungo, de vez em quando, para tornar a visita ainda mais emocionante. Três horas depois de termos partido estávamos de volta ao lugar de onde tínhamos saído, na Funivia dell’ Etna, ainda emocionados pelo tempo bem passado.

Paragem forçada

Um breve repasto depois, e eis-nos de novo de carro a caminho do Valle del Bove, campo de lava em forma de ferradura com alguns quilómetros de extensão, enclausurado pelas paredes da  Serra delle Concazze. Só que não chegámos a lá ir.

O nosso carro, um veículo alugado, decidiu terminar a sua marcha quase a 1 km do Valle del Bove, e não andou mais dali para a frente.

O sítio era magnífico, com uma paisagem fantástica que convidava à contemplação. Mas a perspetiva de ficarmos naquele lugar ermo, tão longe do conforto do nosso quarto do hotel, só nos levou a querer sair dali o mais depressa possível. Foi difícil, devido à pouca eficiência dos serviços de socorro da empresa de aluguer de automóveis mas, passadas seis horas, estávamos de volta ao nosso hotel, depois de termos ido buscar um outro carro ao aeroporto de Catânia. Horas para atender, para virem buscar o carro, para chegar o táxi, para nos darem outro veículo e pessoas sem preparação para responder (1 hora para a telefonista perceber que estava na Sicília, apesar de ter sido a primeira coisa que disse). Na hora do repasto tínhamos mais uns cabelos brancos e menos meio dia de férias. Felizmente tivemos mais um par de dias na ilha para recuperar.

A praia e a Isola Bella, vistas de Taormina, convidam à descida.

O magnífico Teatro Antigo

Gostei de Taormina, cidade empoleirada, num grande penhasco, com uma bela vista de mar.  Está mais bem arranjada e limpa que a média das outras urbes sicilianas que visitei, as suas casas têm uma arquitetura interessante e o seu Teatro Grego Romano é um dos mais belos monumentos que visitei, também pelas suas vistas. Mas está pejada de turistas, de lojas de todos os tipos, incluindo algumas das cadeias que vemos por aqui em centros comerciais, e o preço das coisas é muito mais elevado do que noutros lados.

Teatro Grego de Taormina

A melhor parte foi mesmo a descida de cerca de 2 km pelas escadas que nos levaram à praia e à Isola Bella, que deve ser muito bonita durante o tempo frio. Mas nesse dia estava coberta pelos restaurantes, enquanto os turistas tentavam espojar-se pelas pedras remanescentes. Ali não vi grão de areia, e os meus pés sofreram mais uma vez com isso. Felizmente havia teleférico para a subida, o que ajudou à melhoria da minha disposição.

Costuma dizer-se que se reserva o melhor para o fim. Na verdade, a ida à Ilha de Vulcano, no arquipélago das Ilhas Eólias, constituiu certamente uma das melhores jornadas dos dias que estive na Sicília.

Incluiu uma viagem de ida e volta desde o nosso ameno hotel por autoestrada, um belo passeio de barco, uma jornada ascendente e descendente ao vulcão local e uma banhoca numa piscina lamacenta e borbulhenta, para retemperar as forças.

A história de um estacionamento

Comecemos pela autoestrada. É verdade que tem duas faixas para cada lado, entre a terra que nos acolheu, Lachea, e o porto de Milazzo, onde fomos embarcar. Mas mais parecia que alguém tinha andado a passar a charrua no piso, antes de passarmos por lá. Ou então sou eu que não me sinto confortável com o carro aos saltos, e lá fui andando a uma média de 100 km/h, que deu para fazer o percurso em cerca de 1h30, o que não foi nada mau.

Claro que, de vez em quando, sentia que estava parado quando via passar os automóveis dos locais saltitando alegre e vertiginosamente pela estrada fora.

O passo estranho seguinte foi, não a viagem de embarcação, bem confortável e rápida, mas sim a forma de encontrar lugar para pôr o carro a recato na cidade costeira de Milazzo, de onde saem muitas carreiras de passageiros para as ilhas e Nápoles. Para além de não haver lugares livres na rua, todos os parques visíveis eram reservados. Foi só quando perguntei a um porteiro do recinto portuário, onde podia estacionar o automóvel, que soube como se faziam as coisas por ali. Ele olhou para mim e respondeu-me: “Naquela garagem, ou noutra qualquer dessas”.

No letreiro de todas dizia que eram empresas de aluguer de automóvel, mas não estava na altura de armar-me em esquisito. Perante o meu ar interrogador, voltou-se na direcção da mulher que estava à porta, e disse para ela parar o trânsito, que tinha ali um cliente. Era só uma estrada principal, com duas faixas, mas como estava na Sicília acreditei que ia conseguir, o que aconteceu.

Fiz a manobra e coloquei o carro lá dentro entre os outros, porque aquilo já estava para o apertado. Feito o negócio, dez euros até às 22, a hora de fecho, porque depois iriam embora, e lá fomos de Mercedes (uma oferta da casa) até ao terminal, embarcar para terras da ilha de Vulcano. Mais uma hora de espera, aproveitada para uma pequena volta pelo bairro e uma grande sandes no Stuzzikosa, casa especialista nas ditas que só menciono porque era mesmo boa, e embarcámos no hydrofoil. Após uma viagem calma e sem história chegámos ao nosso destino.

O cone vulcânico lá estava, omnipresente nos seus 500 metros acima do nível médio das águas do mar. Saia de terra no final de uma pequena baía de águas calmas, que banhavam o casario do porto e a praia. Mesmo no cimo, mais pequenos que formigas, viam-se vultos dos humanos que o tinham subido pela madrugada. Era uma medida inteligente, como pude constatar depois, quando chegou a minha vez de o fazer. Eram quase 12h.

Cá de baixo, olhei para o “bicho” um pouco apreensivo. Mas lá fui calcorrear até ao ponto mais alto, para a última aventura vulcânica das férias. Segundo o Google, eram apenas 3,1 km, que levariam cerca de 40 minutos a percorrer. Para mim foi uma hora para ascender ao topo, com muitas paragens para arfar com serenidade. Valeu a pena, pelas vistas das outras ilhas e do cone vulcânico, e pelo bem que soube o repouso após a jornada ascendente.

A descida foi rápida, talvez pela vontade de beber uma cervejinha fresca a olhar para o mar. Foram duas Messinas, que souberam a oásis no deserto, na companhia de polvo cozido com coentros numa das casas de comer locais, que tive de temperar com sal, pimenta e azeite para lhe dar sabor.

Reconfortado, fui ao banho de lama quente, borbulhenta e sulfurosa, outra atração local, e a um último mergulho no mar, antes do embarque de volta. A única coisa que tinha a certeza era que queria lá voltar.