Sexta-feira Santa?

– Mãe, a avó disse-me que uns senhores puseram uma bomba num aeroporto e pessoas morreram, mas não é verdade pois não?
Pela primeira vez desejo que fosse uma daquelas questões embaraçosas sobre sexo, ou, já que é sexta feira santa, outra pergunta da praxe: “Mãe, se o Jesus era tanto bonzinho, tão bonzinho, por que é que o deixaram morrer pregado a uma cruz?”
Li num artigo sobre os atentados de Paris, que devíamos contar as coisas às crianças à medida que vão perguntando e que reunir a família para falar sobre terrorismo a miúdos de quatro anos não era boa ideia pois ainda não têm as ferramentas emocionais para compreender. Daí ter ficado sem saber o que dizer perante a pergunta da minha filha. Como lhe explicar que há pessoas dispostas a morrer e a matar inocentes, em nome de uma guerra que dizem ser santa? Estamos a falar de uma criança que não quer ir à América por causa dos tornados, contras os quais ainda podemos fazer alguma coisa para nos defender. Poderíamos falar sobre educar para a segurança mas que segurança? As crianças do metro de Bruxelas íam para a escola seguindo as regras de segurança de sempre ditadas pelos pais. Não falaram com estranhos, atravessaram a estrada na passadeira e as mais pequenas deram a mão a um adulto, que nada pôde fazer para as defender.
Educar para a segurança, neste caso, pode significar educar para o medo e educar para o medo é normalmente um atentado à tolerância. No outro dia ouvi, em conversa, uma rapariga na casa dos 20 que dizia que sempre que via um muçulmano com “ar suspeito” no comboio se afastava, mesmo que isso significasse sair da carruagem. A seguir vieram mais duas frases na quais manifestou algum tipo de reticências em relação a chineses, indianos…
Sim, nesta sexta feira santa relembremos o calvário de Jesus, mas, por momentos, esqueçamos o nosso.
– Olha o coelhinho da Páscoa, ali, ali!
Foi o que respondi à minha filha. Com uma pedagogia altamente duvidosa mas com resultados à prova de bala.