Quantas vezes já vos partiram o coração?

A expressão “coração partido” está desde sempre associada a um desgosto amoroso. O que nos leva a dizer que alguém nos partiu o coração resume-se a uma quebra das expectativas que tínhamos relativamente a uma pessoa e à nossa relação com ela. Muitas vezes, partem-nos o coração quando nos desiludem, quando nos mostram uma faceta inesperada, quando nos apercebemos que não somos a primeira escolha e não somos importantes. Não contamos.

É intenso o sentimento porque também eram elevados os desejos, as esperanças e os sonhos criados à volta desse relacionamento.

Apesar de sempre associado a relações amorosas, a “síndrome do coração partido” existe mesmo na saúde e é também conhecida como miocardiopatia de takotsubo ou miocardiopatia de stresse. É uma doença do músculo cardíaco que pode surgir de forma súbita e após uma situação emocional ou fisicamente intensa.

Normalmente é isso mesmo que sentimos, quando a desilusão se abate sobre nós, um aperto no peito, a falta de ar e as lágrimas a saltarem dos olhos, como uma chaleira sob pressão que tem de libertar o vapor de água.

E eu acredito que também nos podem partir o coração no nosso trabalho.

Há uns anos, uma amiga contava-me uma desilusão profunda que tinha tido a nível profissional. No meio do desabafo, ela, que é extremamente contida, começa a inspirar e a expirar e a chorar. A dada altura pergunta “não sei o que tenho”.  E eu disse-lhe: “partiram-te o coração”. E ela confirmou que era isso mesmo.

A sensação que se tem é a mesma de uma desilusão afetiva. Se demos tudo por um projeto, se gostamos do que fazemos, dos colegas, se criamos expetactivas sobre a carreira, no fundo se dedicamos aquelas horas todas do dia pela entidade, é natural que também sintamos uma grande decepção, angústia, tristeza profunda se, um dia, nos sentirmos preteridos, colocados de parte ou quando nos retiram da frente aquilo pelo qual viemos a apostar e trabalhar. E que achamos que merecemos.

A coisa boa é que um coração partido tem cura. Na medicina, a síndrome cura-se com algum suporte ao músculo cardíaco, que dizem poder demorar 1 a 4 semanas a voltar ao normal. Na vida, há logo uma coisa positiva a tirar do acontecimento: somos obrigados a assumir a realidade. Já não vivemos nas nossas expectativas, provavelmente fantasiosas, e sabemos o que o outro espera e vê em nós. Depois, com essa informação, podemos tomar decisões sobre o nosso futuro. Aprendemos, tiramos lições, guardamos sinais, criamos defesas.

Como na área médica e na área amorosa, um coração partido a nível profissional demora a voltar ao sítio. Se é que volta. É preciso suporte e apoio. É preciso voltar a ganhar confiança. E, acima de tudo, é preciso tempo e distância do momento de angústia. Dar tempo para o músculo voltar ao lugar.

A certeza de que todos já passamos por isso também ajuda. Por que todos já tivemos o nosso coração em pedaços por causa do trabalho. Quem diz que não ou mente, ou nunca amou a sua profissão ou, pior de tudo, não o tem. Ao coração.

Parceiros Premium
Parceiros