Procura-se mulher com disponibilidade imediata

Estar disponível. Foi este o conselho que Maria Cândida Rocha e Silva deixou a todas as mulheres presentes na conferência que assinalou o Dia da Mulher Empreendedora, por ocasião da Semana Global do Empreendorismo. A presidente do Banco Carregosa dizia que quando estivéssemos a trabalhar o fizéssemos a 100%, sem estar a pensar no filho doente ou no jantar.

Amuei. Teria noção do que nos estava a pedir?

Aquelas palavras não mais me largaram, colaram-se a mim como a alga que envolve o arroz no sushi e foram mastigando a barreira do preconceito que tantas vezes temos em relação às mulheres de sucesso. O tipo de preconceito que retira mérito às mulheres e o deposita nas circunstâncias – se construiu um império é porque nasceu num berço de ouro ou se tem disponibilidade total no trabalho é porque tem um batalhão de empregados em casa.

Desarmados todos os alarmes de uma barreira de segurança que nos protege de tantas verdades inconvenientes como esta, consegui ouvir as palavras de Maria Cândida. A empreendedora não nos estava a dizer que trabalhemos 20 horas por dia. Até podem ser apenas cinco minutos, mas que nesse tempo tenhamos uma disponibilidade total, física e mentalmente.

É aqui que uma das grandes vantagens femininas nos atraiçoa. Estamos tão habituadas a fazer/pensar tantas coisas ao mesmo tempo que perdemos a capacidade de fazer/pensar apenas uma quando é preciso. De estar no momento. Um desafio tão simples, mas extremamente difícil de pôr em prática. Não só no trabalho, mas também em casa, com os nossos filhos. Tantas vezes que gostava de estar ali, simplesmente a brincar com eles. De corpo e alma, sem pensar em Paris, neste blogue ou na avaliação de desempenho. Pensarei em Maria Cândida da próxima vez que estiver numa reunião profissional ou a construir uma casinha de Lego. Melhor ainda, não pensarei em coisa alguma.