Praias de Faro e Armona: Mais próximo do paraíso

Tempos de calma na Barrinha, Praia de Faro.

Não há nada como a praia mar na barra da Ilha da Armona: as águas calmas, paradas entre marés, aqui e ali sulcadas pelas embarcações que saem e entram na Ria, Formosa de seu nome, a Ilha da Culatra do outro lado, e o resto do horizonte, sempre variado. Isso sente-se na forma de estar das pessoas que passam em passeio pela beira de água, nas que se banham nela, só porque é mesmo irresistível, e nas que apenas se sentam a apreciar, como faço por vezes.

Mas não é só na maré cheia que a zona da barra da Armona é melhor que muitas outras. Basta ver a quantidade de gente que percorre as areias que surgem à medida que a maré vaza, mergulhando nas águas límpidas das lagoas que se vão formando, apanhando, como podem, conquilhas e berbigões. Há zonas mais favoráveis que outras, segredos de quem é de lá para uma apanha mais eficiente. Mas são isso, “segredos”. Não são transmissíveis, para evitar a avidez daqueles que não gostam de deixar pedra sobre pedra.

Tosta irresistível pela manhã

Os meus dias de Ilha da Armona começam, inevitavelmente, com uma tosta mista num dos cafés do mercado de Olhão, na companhia de um sumo de laranja algarvia bem-apessoado, e de um café para acordar. A verdade é que não há melhor tosta mista do que a das casas onde vou habitualmente nas Praças de Olhão e Portimão, principalmente pelos sabores e aromas irresistíveis e inimitáveis do pão, ligeiramente barrado, por fora, com manteiga, onde se aconchegam molemente o queijo e o fiambre. É impossível deixar de repetir.

O ritual do pequeno almoço de tosta mista e sumo de laranja para aguentar o esforço da caminhada.

Enquanto espero a encomenda, vou sempre ao mercado do peixe, nem que seja para manter o olhar treinado. No verão nunca falta sardinha, carapau de todos os tamanhos, safias, douradas e sargos, pescada, robalo, salmonete, chaputa, raia, cação, atum e muitos outros peixes e mariscos. Por isso, vou sempre lá abastecer-me, o melhor que consigo, antes de voltar para Lisboa. A frescura, os sabores e aromas e a relação qualidade/preço valem sempre o investimento. Mas voltemos à nossa história.

Uma das bancas de camarão do mercado do peixe, em Olhão.

Depois de apreciado como merece, devagar, olhando o fluxo e refluxo de gente que passa pelo meio dos mercados, é hora de ir à praça da fruta e legumes, seja para escolher meia dúzia de figos, cujo sabor doce fica ainda melhor depois de lavados na água do mar, um par de cachos de uvas, alguns pêssegos, que sabem ainda melhor saboreados com água límpida da barra até à cintura.

Depois, ala que é hora de ir para a fila comprar bilhetes (de ida e volta) para o barco da carreira para a ilha. Ordeiramente, mas um pouco ao molho, a fila entra calmamente para o barco, à medida que os bilhetes vão sendo guardados pela tripulação, que vem a terra para isso. E não há pressa porque há sempre lugar para todos, e o passeio pela água é curto, cerca de 10 minutos.

Como sempre, deixo-me ficar, com a família e amigos, para último à chegada, para evitar o banho de multidão. Depois coloco os pés ao caminho, num passeio, sempre calmo, até à barra, de pelo menos meia hora, já que são mais de dois quilómetros até lá. Depois é usufruir ao máximo até ao sol começar a tostar demais a pele, sinal que é hora de voltar, até porque há sempre a possibilidade de voltar no dia seguinte.

É assim que gosto da imperial, fresca, com bolha fina e um dedo de espuma.

Na volta são raras as vezes que como fora, quase sempre na Churrasqueira da Penha da minha irmã Madalena, porque não resisto aos sabores do seu frango na grelha e das batatas fritas, que desparecem da travessa como se se transformassem em fantasmas num ápice. Por ali e em quase todos os sítios onde vou, tenho quase sempre a companhia de cerveja (imperial ou fino, como lhe queira chamar), a minha bebida preferida a seguir à praia, na companhia, sempre estimada, de um pires de tremoços, numa esplanada qualquer. É geralmente uma pilsner, com um dedo de espuma por cima, para a bolha fina se manter devagar e ir alegrando o gosto em cada passagem pela boca. É isso que também faço na Nau Catrineta, quando termino outro dos meus passeios pelas ilhas barreira da Ria Formosa, até à Praia da Barrinha, também para me sentir mais perto do paraíso.

Água fria e límpida

Na verdade, isso só acontece fora do fim de semana, quando não está lá tudo o que tem embarcação da cidade de Faro. Fora isso, valem sempre a pena os banhos na água fria e límpida, principalmente na enchente, que temperam e retemperam o corpo do efeito do sol. É esse também o efeito em mim da imperial da Nau Catrineta, sempre bem tirada, a que acrescento, muitas vezes, mais uma tosta mista, só porque vale a pena.

Sardinha bem assada, salada montanheira e um copo de rosé, um momento feliz.

 

Dia de almoço de berbigão, apanhado de véspera, à moda da Culatra. Uma tentação!

O vinho, de que levo sempre provisão suficiente para toda a jornada de férias a sul, vai sendo bebido em casa, sobretudo na companhia da família e amigos, principalmente com a parceria de peixes e mariscos, apanhados e pescados por, e com amigos, ou comprados na praça do peixe de Olhão, onde nunca me canso de ir. São coisas simples, mas inesquecíveis de sabor, como camarões de Quarteira fritos e sardinha assada, por exemplo na companhia de espumante rosé super ou grande reserva da região de Lisboa, ou berbigão à moda da Culatra e peixe da ria frito, retirado das mesmas das águas, na companhia de vinho Alvarinho de Monção e Melgaço. Muitos destes e de outros momentos são usufruídos ao ar livre, com bons amigos de sempre. É nestas pausas que reconheço que a vida privilegia, sempre, quem a sabe sentir e saborear.

Fotos: José Miguel Dentinho