Portugal: o domínio secular das pequenas e micro empresas

Num estudo sobre ligação entre administradores de empresas em Portugal nos últimos 100 anos mostra que a rede é pouco densa e coesa. Aliás, a grande maioria dos administradores estava numa única empresa.

Esta análise de longa duração ao network empresarial em Portugal mostra “um extraordinário fraco nível de densidade e de coesão, muito menor do que outros países” escreve-se no artigo “Business Coalitions and Segmentation- Dynamics of the Portuguese Corporate Network” de Álvaro Ferreira da Silva e Pedro Neves. Segundo os autores esta fraca densidade de ligações parece resultar mais de um capitalismo débil do que sinal de uma economia de mercado em que o enfraquecimento de ligações empresariais resultem de uma forte regulação e de um mercado de capitais desenvolvido. Como concluem, “baixos níveis de densidade em Portugal são uma característica de longo prazo. Esta não pode ser atribuída ao domínio estrutural de instituições vocacionadas para o mercado que são típicas das economias de mercado liberais. No caso português, a baixa densidade estrutural têm mais a ver com um sistema de negócios dominado por pequenas e micro empresas”.

Esta baixa integração e coesão estrutural parece derivar da dimensão e nível de desenvolvimento da economia portuguesa que, desde o início do século XX, tem mantido uma estrutura empresarial baseada num grande número de pequenas e micro empresas e um reduzido grupo de grandes empresas, o que parece não favorecer as ligações empresariais. Nesta estrutura empresarial não há empresas de dimensão suficiente para criar ligações que permitam forjar alianças, ligações ou parcerias e ter acesso a recursos, fluxos de informação, negócios, ganhos reputacionais. A maior empresa industrial portuguesa em 1913 ficava em 88.º no ranking das maiores empresas inglesas e em 42.º das francesas. Em 2010 Portugal não tinha nenhuma empresa na Fortune Global 500.

 

Das empresas coloniais aos serviços

A grande maioria dos administradores estava numa única empresa. Segundo o estudo, “a densidade nunca ultrapassa 2,6% ao longo do período, bem abaixo do nível exibido por outros países durante a maior parte do XX século”. Referem Álvaro Ferreira da Silva e Pedro Neves que a proporção de empresas que tinha pelo menos uma ligação “foi de apenas 68% em 1925, sendo em termos globais de cerca de 60%, enquanto em outros países os níveis estão acima de 90%”.

A rede empresarial atingiu a sua máxima integração nos anos 20 do século, registando em 1925 o pico em vários indicadores que demonstram uma rede densa com várias empresas e núcleos a partilharem administradores. Nesta época predominavam as empresas coloniais que se articulavam com a banca e a indústria transformadora como os tabacos e sete empresas conseguiam deter cerca de 35% dos laços e ligações.

As nacionalizações em 1975 dissolveram estas relações empresariais, que ressurgiram a partir do fim dos anos 1980 com as reprivatizações. Esta reemergência apresentou níveis de coesão e de interligação semelhante aos anos 1920. Em 2010, os grupos empresariais não tinham a importância que tinham tido durante o período corporativista, nomeadamente a partir de dos anos 1950. Hoje as constelações de interesses baseiam-se nos bancos, media, serviços, energia e telecomunicações, enquanto no passado a lógica federativa passava pelas utilities em 1957, os petróleos em 1973, e as empresas coloniais no primeiro terço do século XX.

 

Predomínio das empresas familiares

A distribuição das empresas não financeiras mais importantes mudou ao logo do século de forma significativa. As empresas coloniais pontificaram no início do século XX, chegando a representar 30% das empresas não financeiras, mas o seu número foi decaindo até desaparecer completamente com a descolonização em 1975. A indústria manteve a sua importância com cerca de 45% das empresas atingindo o pico em 1983 com 53%. No entanto houve uma maior rotação em termos de predomínio dos ramos industriais com os têxteis a serem dominantes depois de 1913 mas a tornar-se mais diversificada a partir da década de 1950. A produção industrial declinou nas últimas duas décadas acentuando a terceirização da economia com o aumento de empresas imobiliárias e de construção, comerciais e de telecomunicações e tecnologia.

As empresas familiares dominaram quase sempre as maiores empresas e o mercado de capitais teve sempre um impacto reduzido no financiamento das empresas. As empresas cotadas em bolsa nunca ultrapassaram os 50% da lista das grandes empresas e mesmo estas eram geralmente controladas por família.

A presença do Estado nas empresas deu-se sobretudo na década de 1930 mas a sua presença era insignificante. Por volta de 1957, o Estado controlava 10% das 125 maiores empresas, tendo aumentado para cerca de 15% em 1973, com as particioações na energia (electricidade e petróleos), transporte e química. Com as nacionalizações em 1975 o Estado passou a dominar 57% das maiores empresas, tendo diminuído depois, devido à política de privatizações) e, em 2010, estava apenas em 15% das 125 empresas.

 

Ler mais

Álvaro Ferreira da Silva e Pedro Neves, “Business Coalitions and Segmentation: Dynamics of the Portuguese Corporate Network (1910-2010)” in G. Westerhuis and T. David, Power and Corporate Networks in Historical and Comparative Perspective. London Routledge

http://www.amazon.com/The-Power-Corporate-Networks-International/dp/0415729742