Por que choram as mulheres

– Mãe, por que estás a chorar?
Como explicar-lhe que choro de alegria? As crianças raramente choram de alegria. Choram porque se magoam, porque estão frustradas mas quase nunca porque estão felizes. É de tal forma raro que só me lembro de tê-lo visto uma vez assim ao vivo. Foi no jardim de infância, uma menina de 5 anos que se emocionou ao cantar a música do Dia da Mãe. Chorava convulsivamente.
Já me habituei a chorar nas mais diversas situações: no final feliz de um filme – e os atores nem têm de ser muito convincentes – na festa de Natal da escola, com playbacks e coreografias mal amanhadas e até posso aceitar que o meu coração se derreta com as piruetas de uma patinadora no gelo. Agora, chorar porque uma criança pequenina é aplaudida efusivamente enquanto dá saltos atabalhoados no trampolim no sarau de ginástica? E a criança nem sequer era minha! Só tenho 40, o que acontecerá daqui a outros 40? Vou chorar a ver a Ovelha Choné? Da última vez que chorei ao ver o “The Voice'” entrei em pânico e fui fazer um teste de gravidez.
É verdade que a idade nos torna mais lamechas. Mas também é verdade que estamos rodeados de más notícias e é possível que eu, em legítima defesa, me tenha tornado algo indiferente ou mesmo insensível perante os atentados diários à nossa felicidade. E que tenha, pelo contrário, desenvolvido uma hipersensibilidade perante as cada vez mais raras manifestações de alegria. Comentava no outro dia com uma amiga que não me lembro da última vez que tenha sentido alegria genuína e em nada me considero uma pessoa triste. Alegria no sentido de última dia de aulas no liceu, aquela alegria ingénua capaz de celebrar os mais pequenas sucessos, capaz de celebrar a vitória numa batalha sem estar a pensar em ganhar a guerra. Não era preciso o nascimento de um filho para nos declararmos as pessoas mais felizes do universo, porque a seguir a isso só o Euromilhões. E é por isso que acaba por ser curioso como, à medida que envelhecemos, vamos sendo cada vez mais exigentes no que consideramos ser as nossas alegrias mas, ao mesmo tempo, mais sensíveis às pequenas conquistas dos outros. Ovelha Choné incluída.