O poder das “soccer moms”

No tempo das redes sociais, há movimentos que podem destruir um negócio num ápice. São situações que se reconhecem e se conseguem definir no tempo e no espaço, a partir de posts, comentários, notícias e estudos. Há, no entanto, ondas e embalos que se vão criando como um barulho de fundo e que, quando nos apercebemos, já atingiu, não um negócio, mas todo um setor, como uma maré cheia, e os cobrem da cabeça aos pés. Vimos isso a acontecer com as embalagens plásticas de uso único, pegando num exemplo mais recente, mas há um caso muito curioso e que partiu de um grupo que, parecendo que não, tem um peso na sociedade que não deve ser negligenciado — as “soccermoms”.

De há 20 anos a esta parte que por todo o mundo são construídos anualmente dezenas de milhares de campos de futebol sintéticos. São campos de futebol, ou multidesporto, com relva sintética e granulado proveniente do reciclado de pneu de fim de uso. Foram criadas fábricas de reciclagem de pneus por todos os países desenvolvidos, leis foram definidas para a recolha deste desperdício, de modo que o tratamento e criação de valor do produto reciclado ajudasse na sustentabilidade duma fonte de poluição. Antes, os pneus eram colocados em aterro, solução bastante prejudicial para o ambiente.

Assim, o uso do granulado reciclado passou a ser aplicado nos campos de desporto sintéticos, permitindo, também, que fosse possível a prática de desporto durante mais meses no ano, uma vez que exigem menos manutenção, sofrem menos com as intempéries e são muito mais resistentes à prática intensiva de desporto, apenas como alguns exemplos.

Mas, há coisa de meia dúzia de anos, as mães que assistiam aos treinos de futebol dos filhos começaram a incomodar-se com o granulado que vinha agarrado à sapatilha e lhes sujava a casa e até entupia (diziam) as máquinas de lavar. Em dias de mais calor, o aroma a borracha fazia-se sentir, e, embora para mim sendo um cheiro que me agrada, para a maioria das pessoas representa um produto sintético negro e pouco apelativo visualmente. Assustaram-se.

Principalmente nos países do centro e do norte da Europa começaram a aparecer programas de televisão a questionar a segurança deste produto e, com isto, toda a indústria de reciclagem de pneus teve de provar que não havia problema na sua aplicação e utilização. Criaram-se grupos de trabalho, normas, testes, laboratórios para fazer os testes. Leis europeias foram definidas, algumas ainda estão a ser debatidas. E, paralelamente, começaram a surgir materiais concorrentes orgânicos, ou com características técnicas mais ao encontro do que a sociedade passou a exigir. O sector adaptou-se com novos tipos de tapetes de relva sintética, novos materiais de enchimento, novas soluções.

A verdade é que, passados anos de ensaios, testes, normas, e controlos regulares das produções, nunca ficou provada a perigosidade para a saúde do uso do granulado de pneus de fim de vida. Mas algumas cidades baniram o seu uso e modificaram os seus campos sintéticos.

Os actuais recicladores tiveram de criar equipas para manter os controlos das especificações dentro dos novos parâmetros legais, que continuam em avaliação e sob apertada atenção. Na dúvida, algumas empresas começaram a usar algumas “mães” nos seus vídeos institucionais para promover o seu produto. Uma versão do “se não as vences…”.

Numa visão mais abrangente, o problema que foi levantado e que levou a um rigor técnico maior permitiu em aumento da confiança no uso deste produto. As perguntas foram feitas e podem ser respondidas com factos e resultados científicos. Os custos foram enormes e mantêm-se como difíceis de passar para o consumidor final, mas continuam a ter as mesmas aplicações e o problema foi ultrapassado com provas e estudos mais do que confirmados.

Entretanto, pergunto-me o que se fariam aos milhões e milhões de pneus de fim de vida que todos os anos são colocados para reciclagem caso este grupo de “soccermoms” tivesse conseguido levar a sua melhor a nível global. Se a indústria não tivesse conseguido responder ao problema em tempo útil, que balanço estaríamos a fazer neste momento, que inovações teriam de ter sido criadas, que impacto teria a nossa saúde e o ambiente? Como seria o futuro?

E quantos exemplos mais podemos encontrar na sociedade da força de um grupo restrito de pessoas que leva uma convicção para a discussão na opinião pública?

Nada nem ninguém deve ser subestimado, e cada vez mais ter gente nas empresas a estudar estes movimentos torna-se crucial para a sua sobrevivência, a médio e longo prazo. Por entre os conceitos que hoje se repetem de igualdade, sustentabilidade, diversidade, provavelmente seria importante procurar ferramentas de acompanhamento das opiniões sociais. Existe já quem utilize a inteligência artificial, mas penso que seria interessante criar uma área nas empresas ligada à sociologia, com estudo de comportamentos, de influências e ondas de opinião, antes que estas se tornem num tsunami.

 

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