Plodviv: um destino improvável

Fica na Bulgária e é calmo e sereno como Portugal era nos anos 1960. Vale um par de dias de visita, para descobrir o centro de uma cidade diferente, a sua gastronomia e cerveja e algumas boas surpresas vínicas.

Era difícil não o ter sido, no restaurante Feliz Abaixo da Colina, de Plodviv, na Bulgária. É esta a tradução que consegui encontrar para a designação, em búlgaro, Ресторант Щастливци под тепето, o pouso onde parámos para um lanchinho ajantarado na zona velha da segunda cidade da Bulgária, o palco do Concurso Mundial de Bruxelas 2016 de vinhos, onde estive presente como jurado. Bastou apenas uma salada bem-feita e decorada, um prato de língua guisada que me apetecia comer outra vez e umas tripas especiadas e irresistíveis, na companhia de um branco do Mar Negro, da casta Sauvignon Blanc, elegante e fresco, para nos sentirmos recuperados do esforço matinal da prova e do passeio dado na zona velha da cidade. Fica perto da Igreja de Santa Mãe de Deus, que vale bem uma espreitadela.

A chegada das tripas à mesa do Feliz Abaixo da Colina.

A chegada das tripas à mesa do Feliz Abaixo da Colina.

Cores alegres

Em Plodviv, uma das cidades mais antigas do planeta, habitada continuamente há mesmo muito tempo, ainda se sente um pouco do peso do regime totalitarista que governou anteriormente este país na arquitetura das casas, pouco mantidas, na enormidade das suas avenidas, para o pouco trânsito da cidade, na existência de passadeiras subterrâneas, por tudo o que é travessia pedonal de estradas. É, sobretudo, uma cidade calma, com muito espaço verde e, aparentemente, com poucas pessoas, apesar de os dados que recolhi indicarem que são mais de 300 mil.

Plodviv é a cidade dos gatos. Estão por todo o lado

Plodviv é a cidade dos gatos. Estão por todo o lado.

O grande atractivo de Plodviv é, sem dúvida, o seu centro. Um passeio a pé é essencial, nas suas ruas pedonais de fachadas de cores alegres, e na zona velha limítrofe, onde começou a urbanização desta cidade, há mais de 6000 mil anos. Nela é indispensável, entre outras, a visita à Casa Balabanov, não só pela sua arquitetura exterior, mas também por albergar diversas exposições, incluindo de pintura moderna búlgara. Outra das diversas mansões visitáveis é a Hindliyan, marcada pelos tons alfazema, e com desenhos decorativos exteriores e interiores. Como gosto de deixar pouca coisa por ver, dei também uma espreitadela a Igreja de S. Constantino e Helena, e não me arrependi. São imperdíveis os murais do seu alpendre, tal como os pormenores da decoração do seu interior, que convidam a permanecer por ali.

Entre os monumentos mais antigos, Plodviv orgulha-se do seu teatro romano, com seis mil lugares e ainda em uso após obras de restauro. No exterior, a esplanada sobranceira é bom local de paragem, para experimentar uma cerveja ou um sumo locais com vista sobre o monumento, a cidade e as montanhas que se vislumbram no horizonte.

 No Teatro Romano, uma criança chama fascinada o drone da equipa que captava imagens no local.

No Teatro Romano, uma criança chama o drone da equipa que captava imagens no local.

O centro fica bem perto. É uma rua pedonal longa, que se sobrepõe ao antigo estádio romano, visível apenas numa pequena parcela enterrada. Mesmo ao lado fica a Mesquita Dzhumaya, cuja entrada aparece tímida entre dois cafés, com esplanada cheia de gente no dia em que lá estive. Não hesitei em transpô-la, correspondi à saudação de quem saía, pois fui confundido com um crente, como habitual de cada vez que entro num templo, qualquer que seja a religião, e, também como sempre, fiquei um pouco de tempo por ali, a saborear a calma e a beleza de uma mesquita despojada, apenas ornamentada, no chão, com um enorme tapete para receber os crentes.

 O estádio romano, enterrado na zona pedonal da cidade, aflora à superfície perto da Mesquita Dzhumaya.

O estádio romano, enterrado na zona pedonal da cidade, aflora à superfície perto da Mesquita Dzhumaya.

Depois, e porque a sede apertava e tinha dois dos meus colegas portugueses à espera, foi hora de procurar uma sombra com uma casa de cerveja, porque era tempo para uma jola fresquinha.

Uma cerveja de fim de tarde, na companhia de aperitivos locais, para apaziguar os efeitos do calor.

Uma cerveja na companhia de aperitivos locais, para apaziguar os efeitos do calor.

Pequena, mas irresistível, Plodviv tem um outro encanto para quem vem do extremo da Europa, mesmo de junto ao Atlântico. Com algumas casas recuperadas, um pequeno museu etnográfico, uma casa museu, várias igrejas ortodoxas de rara beleza, e uma mesquita que convida à paz, vale um par de dias de visita, para descobrir os seus encantos, a gastronomia búlgara e os seus vinhos e cervejas.

Fotografias: José Miguel Dentinho