Pega ladrão

– Mãe, aquela senhora é polícia ou ladrão?
Não foi fácil explicar aos meus filhos que a senhora estava a correr atrás da sua saúde. Para eles, o conceito “saudável” é demasiado abstrato, normalmente associado ao momento da sopa ou àquele em que lhes é negada mais uma fatia de bolo de chocolate. As crianças correm quando jogam à bola, quando o corredor lá de casa está demasiado escuro ou quando há um adversário e uma meta. Tentei falar-lhes da importância de ter objetivos na vida ou de nos superarmos constantemente, de estarmos bem fisicamente e psicologicamente, mas só perceberam vagamente a ideia quando lhes expliquei que o mais provável era aquela senhora estar a correr para comer a segunda fatia de bolo de chocolate (omiti o conceito de fugir às calorias).
Quando chegou o fim de semana, não consegui convencê-los a vir comigo andar no paredão. Limitaram-se a dizer que não se sentiam especialmente gulosos naquele dia. Peguei no iPod e lá fui eu atrás da minha paz interior, objetivo que evitei exteriorizar ao pé das crianças. Todos corriam, reparei que nem sempre pelos mais doces motivos: jovens à procura de “cabedal”, velhos atrás da juventude, filhos a seguir os pais e quase que jurava que vi cães a escapar ao PAN, o Jerónimo a esquivar-se ao Costa e sindicalistas a perseguir o PAF… e PUF! lá se foi a minha paz interior, atropelada no que parecia uma amarga autoestrada em hora de ponta. A voz zen de Jack Johnson começava a irritar-me, eu a andar cada vez mais depressa – eu que nem gosto de chocolate -, não sei se a fugir se a perseguir, e o Gabriel O Pensador agora a cantar: “Pega, pega! Pega, pega ladrão!”
Mais uma fatia de bolo?