Pais Expresso Vs. pais Google

Sábado de manhã, numa pastelaria cheia e barulhenta, dou por mim a concentrar-me no silêncio da mesa ao lado. Pai e filho calados, o pai com a cabeça enterrada no seu smartphone, o filho, soterrado numa espécie de negligência high tech. Não é a primeira vez que vejo crianças a apanharem grande secas, enquanto os pais lhes falam laconicamente entre cliques.

Sorte a minha ter crescido longe das novas tecnologias. Recordo com alguma nostalgia os tempos em que não andávamos com a cabine telefónica às costas. As sextas à noite em que ficávamos horas à espera de amigos que não tinham como nos avisar do atraso, mas que, em contrapartida, não desmarcavam encontros à última hora por SMS. As segundas de manhã, em que mal podíamos esperar por chegar ao liceu e contar efusivamente os acontecimentos do fim de semana, pois não tinhamos estado o domingo inteiro no chat. As manhãs de sábado, passadas alegremente ao lado dos nossos pais, ainda que eles estivessem com a cabeça enfiada no Expresso. O que me faz pensar novamente no pai da pastelaria, o que tinha a cabeça enfiada no telefone inteligente e a quem eu rapidamente enfiei umas orelhas de burro. Hoje não somos piores pais, somos é todos demasiados exigentes. Eu inclusivé.