Os filhos dos mortos

 – Mãe por que é que há crianças na Terra dos Mortos?
Ao princípio não estava a perceber a pergunta, ela não estaria a perceber o filme (Coco)?
Depois é que me caiu a moeda (para não dizer um molhada delas). Finalmente respondi:
– Então porque morreram em crianças?! -, disse baixinho e muito depressa, com esperança que ela não percebesse o alcance das minhas palavras.
Só naquela altura tive noção da vida protegida que leva a minha filha, muito por culpa minha e do contexto favorável que a rodeia. Que sorte, penso, por ainda viver na bolha de ingenuidade que a idade vai rebentando aos poucos. O que mais senti com a vida adulta, mais para os lados dos 40, foi começar a ver a realidade como ela é, nua e crua. Como se, de repente, me tivessem tirado os filtros do Instagram e as fotos fossem partilhadas na sua versão original, sem programa de proteção especial para as borbulhas dos adolescentes ou para as rugas das mulheres de 50 anos…
É duro, mas se, por um lado, é bom despertarmos tarde para a realidade, por outro, corremos o risco de não termos tempo para fazer as necessárias adaptações. Será, então, que devo dizer à minha filha de sete anos que milhares de crianças morrem todos os dias, em barcos de refugiados, com fome ou no meio de guerras por esse mundo fora? Devo dizer que o terrorismo e os cataclismos naturais não poupam as crianças? Devo dizer que não é certo que os seus pais cheguem a velhinhos? É quando ouço a sua resposta à questão das crianças na Terra dos Mortos.
– Prefiro pensar que os mortos tiveram filhos.
Também eu. Gosto deste filtro. É o Slumber, não é?