O Algarve da costa Oeste

Em terras do oeste algarvio sopra um vento que leva, para longe, o turismo de massas, para deixar a natureza ainda intacta para quem gosta dela. Sabe bem estar lá

Passear pela costa oeste do Algarve é uma viagem cheia de bons encontros no interior serrano ou no litoral escarpado, onde ficam algumas das mais belas praias de Portugal. Se não se tiver o automóvel mais apropriado, como eu, é andar mais devagar e não esmorecer, porque vale mesmo pena. E, com alguma sorte, há sempre a possibilidade de bons encontros diários com perceves, polvo, sargos e robalos, batata doce, bolo da dita e medronho de qualidade para terminar, nos restaurantes que se vão sucedendo pelo caminho.

A foz da ribeira de Aljezur na minha “praia do rio”

Águas calmas e tentadoras

É difícil imaginar o privilégio que sinto quando estou a passear naquilo que eu chamo a praia do rio, ao longo do percurso final da ribeira de Aljezur. São incontáveis as vezes que aproveitei a subida e descida das águas para as acompanhar, de óculos e respirador assestados e sem quase me mexer, o mais perto possível das rochas da sua margem esquerda, para poder observar os peixes que as povoam. São quase todos pequenos ou minúsculos e atraem-me, ainda hoje, como sempre, deixando-me com uma alegria infantil que compensa, e de que maneira, o frio tiritante com que saio das águas, 20 a 30 minutos depois.

Existem também as caminhadas na areia até à foz da ribeira, para estar por ali a observar o movimento da água e das pessoas. No último dia em que lá estive este ano, uns andavam pela areia da quase sempre ventosa praia das Amoreira para aulas de paddle nas águas calmas da ribeira, outros apenas observavam as coisas, como eu.

De vez em quando alguém que opta pela travessia para a margem mais difícil cruza o rio, o que nem sempre é fácil devido ao fundo ser pouco homogéneo  e dar origem a imersões menos ortodoxas e braçadas aflitas para salvar toalhas e outros haveres de serem levados pelo rio. Também me aconteceu, há tantos que quase não havia casas por ali e muito menos as escadas e passadiços de madeira que tornam qualquer caminhada em passeio suave e relaxante. Salvou-se tudo, incluindo a carteira que guardava o dinheiro de todos na travessia, resgatada à última na sua caminhada para o mar.

Uma das grandes vantagens de toda a costa leste a sul do Alentejo e do Algarve, pelo menos para mim, é o vento permanente, quase sempre uma nortada fria que atrai surfistas e afasta multidões. É, por isso, um bom local para quem, como eu gosta da natureza e de companhia q.b. na praia. Foi o que aconteceu nos dias em que lá estive.

Martilongo, a aldeia serrana do Museu do Medronho

Por terra do medronho

Num deles fui dar uma vista de olhos ao Museu do Medronho, em Martilongo, pequena urbe charmosa no meio da serra. O espaço é apenas constituído por uma pequena sala quadrada, equipada com aquilo que é necessário para fazer aguardente de medronho, mais um mostruário de garrafas de produtores locais e um equipamento de vídeo que nos permitiu ficar a saber um pouco mais sobre o medronheiro e a vida e arte dos produtores de medronho da região, que valeu a deslocação. Nesse dia já tinha acordado com vontade de ir até Vila do Bispo saborear as lulas recheadas que o Algarve entre Portimão e Sagres sabe fazer tão bem. Pelo menos quando temos a sorte de encontrar que ainda as cozinhe, como aconteceu nesse dia na Tasca do Careca. A companhia foram umas imperiais bem tiradas, batata frita e uma bela salada de tomate e cebola, cheia de sabor ao fruto.

À saída não consegui resistir ao apelo de Sagres, apenas a alguns quilómetros, e lá fui até ao ponto mais a sudoeste de Portugal, o cabo de S. Vicente, para uma visita ao farol para ver as vistas, já que fica a cerca de 60 metros acima do nível do mar. Construído por ordem de D. Maria II em 1846, ocupa o lugar de um antigo convento e tem um alcance de 59 km, segundo a Autoridade Marítima Nacional, o que não é de estranhar, dada a quantidade de navios que passam nas suas proximidades.

A luz do Farol do Cabo S. Vicente é uma das que chega mais longe do mundo: 59km.

A “minha” praia dos gambozinos

O cabo está na rota de migração de diversas aves entre a Europa e África, o que é referido em vários guias e no site da câmara, que aconselha o início de outubro aos amantes da observação de aves, em dias em que o vento sopra de oeste. Mas não era o mês certo nem a brisa soprava de feição, e a única coisa que se observava por ali era um monte de turistas, a maioria jovens espanhóis carregados para ali pelas várias camionetas estacionadas no exterior.

Já fui até Sagres algumas dezenas de vezes, a maioria em lazer. Mas nunca me cansa andar por ali.

Deixei a fortaleza de lado, porque já não se entra com o carro e passava das cinco da tarde, o que não deixaria tempo para uma visitita condigna, e fui até ao porto de pesca. Parei mais uma vez para olhar os tapetes de escolha de ostras no cais e as embarcações oscilando nas suas águas agitadas, e fui até à Praia do Martinhal, que foi sempre, para mim a Praia dos Gambozinos, porque foi assim que o meu pai a apresentou há mais de 50 anos. Ventosa como tudo, quase nunca tem ondas, o que torna as suas águas apropriadas para a prática de windsurf. Como sempre, estavam lá praticantes, a afastarem-se ou aproximarem-se da praia a velocidades tão vertiginosas, que dariam multas certas em qualquer estrada terrestre portuguesa.

Entrecôte ao Sal do Várzea, uma das etapas de um fim de dia petisqueiro.

Um final cheio de sabores à mesa

Olhei para as ilhas onde o meu pai e o meu padrinho faziam caça submarina, quase de forma religiosa todas as sextas-feiras à noite, para chegarem a Faro madrugada adentro, carregados de sargos e robalos e outras coisas que já não me lembro. Relembrei mentalmente a história do linguado que trouxe, comigo, porque decidiu pôr-se de baixo do meu pé quando andava a passear dentro de água e depois de tirar mais umas fotos àquela paisagem bela, pus-me de novo a caminho de Aljezur, a pensar no repasto. Nesse dia tínhamos escolhido o Várzea, que nos proporcionou a melhor refeição dos dias que andei por terras do oeste algarvio.

Havia um Prosseco na lista, selecionado pelo patrão italiano da casa, que foi a escolha para companhia de um repasto petisqueiro para três de Camarão frígido com salada picada de tomate, alho e manjericão, Tirinhas de atum fresco braseado com pickles da horta, Entrecôte ao sal com batata frita e Bochechas de porco com puré de aipo e batata doce. No final, um Tiramisú. Isto tudo na esplanada, ao final da tarde, com vista para a horta de onde dizem colher os “verdes” que usam na cozinha. Um final cheio de sabor de um belo dia, num lugar onde espero voltar.

Os perceves foram uma constante nos dias na costa oeste do Algarve

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