A nova Rota da Seda

Em Março de 2016, quando iniciei a colaboração com a Executiva, escrevi sobre a descoberta da China para o valor das marcas, num artigo intitulado Huawei on the Roads. Antecipava por essa altura o protagonismo que algumas marcas chinesas iriam ter num futuro próximo.

Vem este artigo a propósito dos recentes receios por parte dos EUA e da Google à penetração da Huawei no mercado norte-americano, alegadamente porque “podem comprometer a segurança nacional”. Nos meus artigos não cabem apreciações políticas, mas do ponto de vista meramente estratégico e competitivo, esse receio justifica-se plenamente.

Quem diria que os EUA, país onde prolifera o incentivo à concorrência e competitividade, agem de forma proteccionista pela primeira vez em muitos anos, ao perceber o potencial das marcas orientais, como já o havia feito com as marcas japonesas na década de 80?

E, na verdade, o tema está a ganhar proporções noutras áreas geográficas, uma vez que operadores no Japão e Reino Unido estão a suspender relações com a marca chinesa, com as respectivas consequências para todos os seus clientes com tecnologia 5G.

Entretanto, abriu-se um novo período de tréguas por 3 meses, no qual a Huawei aproveita para anunciar o seu próprio sistema operativo (Hong Meng OS) que deverá conhecer a luz do dia até ao fim de 2019, caso seja proibida de recorrer ao software da Google e Microsoft.

Vejamos o que está a acontecer do ponto de vista competitivo. Depois da Samsung, a Huawei é a empresa que mais smartphones vende a nível mundial, superando a Apple. E apesar desta área de negócio representar praticamente metade da facturação da empresa, esta actua em múltiplas áreas, tais como: soluções de big data, cloud computing, segurança e inteligência artificial, para uma variedade de indústrias. Em parceria com operadoras em cada país, vai apostando fortemente na tecnologia 5G à escala mundial e almeja atingir a liderança a nível global.

O curioso é que a Huawei, tal como tantas outras grandes marcas do passado, construiu a sua missão e valores assentes numa lógica de “Customers First”, com relevância para a experiência contínua e aprofundada na relação com clientes, percebendo as suas necessidades e apostando em todos os desafios que daí advêm. A Huawei mede a sua performance pelo valor que é capaz de criar nos seus clientes, tornando-o um indicador de excelência do seu desempenho.

Assim, a sua performance ao nível do valor da marca, não podia ser mais evidente. A Huawei entra pela primeira no ranking das top 100 em 2014, com um brand value de 4,3 mil milhões de dólares, cresceu 14% face a 2018 e tem a expectativa de dobrar esse resultado no final de 2019.

Num artigo que escrevi para a revista Exame, no final de 2012, intitulado Orient Brand Oriented, dava conta de que a Huawei havia descoberto o valor da marca e estava apostada em fazer da mesma um caso sério e questionava se o mundo ocidental conseguiria continuar a resistir a tão grande ofensiva. Apelava nesse artigo a que conseguíssemos pronunciar correctamente a marca “ua uei”, porque muito haveríamos de falar sobre ela.

Hoje já sabemos! Creio que amanhã não haverá quem a desconheça.