A narrativa da narrativa

Hoje, no jornal Valor Econômico (P. 1), Raymundo Costa, de Brasília, escreveu o seguinte:

“… O ex-presidente estaria assim construindo a ‘narrativa’ para a sucessão”, em sua matéria intitulada “Lula reage às investigações pensando na eleição de 2018”.

Até que, enfim, um jornalista utiliza o termo “narrativa” corretamente em contexto como o acima citado, ou seja, entre devidas aspas.

O pessoal do cinema nos fez saber mais sobre “narrativa” quando descrevia o modo de contar estórias. Roteiristas, diretores e produtores fazem seus melhores esforços justamente para “produzir uma narrativa”.

Lembremos, também, de quando ouvíamos narradores de futebol. Eles estariam, ali, narrando os fatos, “ao vivo”. Mas basta ouvir a “narrativa” radiofônica de uma – real – modorrenta partida de futebol, para constatar que a narração não corresponde aos fatos. Inventa-se, colore-se. E muito.

Refletindo sobre isto é que avaliamos o quão perigoso pode ser adotar-se o termo “narrativa” como o jornalismo nosso de cada dia tem feito. Parece que se quer reduzir a história – aquela feita de fatos – a mera… narrativa. (Talvez de Deus). Ou narrativas. Diferentes. Será que Cabral descobriu o Brasil… ou já havíamos sido “descobertos” antes? Será que o Brasil foi achado… porque era “procurado”? O Brazil reconhece o Brasil?

E isso tudo começa nos bancos escolares. A tal da “narrativa” entrou para ficar nas falas dos professores de jornalismo. Um deles chega a obrigar seus orientandos a incluir “revisão de literatura” sobre… narrativa… em suas dissertações na área de… Relações Públicas! (Ninguém me contou, fiz partes das bancas examinadoras – ou seja -, pude constatar que a “leitura obrigatória” nenhuma relação possuía com os temas. Era só autorreferência mesmo). Para estes próceres da narrativa, “estamos todos à procura de uma para nossa vidas”. Freud explica.

A mania atual se soma a outra, ou a sucede, não sei – o tal do storytelling. Então, ficamos combinados assim: sentamo-nos na redação para contar estórias – mesmo que elas modifiquem um pouquinho os fatos… e os atores… e as circunstâncias… Nada daquilo a que se referia Gay Talese – referência do new journalism – para quem, nas reportagens longas, aprofundadas, é que se reuniriam as condições de verificação de tantos enfoques que seria permitido contar a história como ela é. E não como gostaríamos – nós ou nossos patrões – que fosse.

Mas, adverte, Talese, “jornalismo é gastar sola de sapato, cansar os olhos e os ouvidos de tanto verificar, observar, levantar”. E escrever e reescrever.

Fica claro que a “narrativa” proposta por Talese nada tem a ver com o jornalismo diário – de hard news – quando a falta de tempo, de boa vontade, de competência, de fontes fidedignas e de ética permitem – aí sim – a narrativa pobre, canhestra, mentirosa, omissa e parcial com que, infelizmente, nos deparamos hoje, no jornalismo brasileiro. Há exceções, mas – poquíssimas – confirmam a regra.

E.T.: Jason Blair é um nome “que ficou famoso” por inventar “narrativas” que seu jornal – o The New York Times – publicava como se… notícias fossem. “Só” 90% de suas matérias em anos.

Mais sobre Blair no blogue do autor: Manoel Marcondes Neto.