Não matem a mãe!

Vou eu no carro, num fim de dia como outro qualquer (é desta que instalo um daqueles vidros à prova de bala a meio, como nos táxis americanos). Ironicamente, encontro-me disponível para ouvir as piadas infantis do adulto Ricardo Araújo Pereira e com tolerância zero para os meus filhos que, no banco de trás, insistem em comportarem-se como autênticas crianças. Estão a discutir (what else?) e o despique chega-me num emaranhado de sons quase imperceptível (lembra-se da professora do Charlie Brown a falar?) Devem estar a discutir sobre quem é o primeiro a tomar banho ou ela está novamente a cantar o “Despacito'” e ele está novamente a afinar. Até que ouço “não, a casa vai ficar para mim”, sequência de palavras que não encaixa na mixórdia de temáticas habitual. Sendo que os meus filhos ainda não têm casa própria, depreendo que estão a falar da nossa casa – posso acabar já com a conversa e dizer que a casa, a bem da verdade, é do banco e daí partir para as profecias de desgraça de Medina Carreira. A teoria da minha filha é simples: ela sempre disse que ia morar na nossa casa para sempre pelo que tem mais direito ao imóvel do que o irmão, que concordou em comprar residência ali perto. Na ausência do tal vidro dos táxis, é aqui que atiro o corpo às balas.

– Não sei se repararam, mas a mãe está aqui e, aparentemente, viva, pelo que é um bocadinho cedo para estarem a disputar a casa de família. Até porque ainda sou bastante nova, não acham?
O carro enche-se de um silêncio provocador. O que aconteceu aos meus filhos, que até há pouco tempo diziam que eu ia viver para sempre, que era linda e maravilhosa? O que aconteceu aos meus bebés, ou melhor, às minhas “pessoas carecas e desdentadas que não respeitam nada nem ninguém”, para as quais Ricardo Araújo Pereira me alertou na sua crónica “Pérfida Infantil: um alerta para jovens pais ingénuos”. Apesar de, ao que parece, eu não ser tão jovem assim. Rebenta a bolha!