The Marvellous Mrs. Maisel e a ode ao feminismo

Como viajo muito, uso parte do meu tempo nos hotéis e nos voos para ver séries. Comecei a ver The Marvellous Mrs Maisel (na Amazon Prime), logo quando apareceu, porque o meu cunhado me enviou uma mensagem a dizer para eu não falhar: “Fez-me lembrar de ti!”. Uns dias depois, ligou-me um dos meus melhores amigos a referir o mesmo programa: “Inês! Tens de ver a Mrs Maisel! Vê!”

Ora, com tanta gente tão próxima a chamar a atenção, claro que comecei a seguir a série.

Não vou fazer spoilers (pelo menos tentar), mas posso contar o primeiro episódio. Passa-se no final dos anos 1950, em Nova Iorque, numa família judia tradicional. A Midge é a mulher que espera que o marido adormeça para se desmaquilhar e acorda meia hora mais cedo para se pentear e se maquilhar novamente. Troca de roupa duas vezes ao dia, tem sempre o cabelo impecavelmente arranjado, não prescinde das luvas nem do chapéu. É a pessoa que leva pratos típicos da sua religião para o bar de standup onde o marido tenta ter piada (só assim ele consegue ir a palco, com o suborno dos dotes culinários da mulher), fugindo à profissão que herdou do pai, onde não é feliz. Até que a Midge descobre que o marido a trai com a secretária. E, nessa noite onde percebe que a vida como a conhece – mãe, mulher dependente do marido, dois filhos pequenos – deixou de existir, apanha uma grande bebedeira e salta para o palco do bar onde o marido tentava ser alguma coisa. Numa atuação dura, crua, cheia de palavrões, mas cheia de humor, apercebe-se que pode fazer daquilo vida. E a Susie, a mulher que está sentada no bar, também. Torna-se agente dela e tudo começa aí.

Ao longo de todos os episódios encontramos referências constantes à igualdade de género. A luta de duas mulheres que sabem bem o mundo onde estão e tentam, de todas as formas, ser aquilo que querem ser: uma comediante, a outra agente de artistas. Ajudando-se e torcendo uma pela outra, zangando-se, separando-se, mas sempre ligadas e melhores amigas.

Existem momentos completamente geniais, como a cena no tribunal onde a Midge quer partilhar a guarda dos filhos com o ex-marido, o que o juiz acha uma coisa inacreditável. Ela explica que vai ter de passar uns tempos a viajar e o juiz interroga com quem ficam as crianças (“Com os avós?”). Midge responde: “elas têm pai. Ficam com o pai”.

Ou o momento em que é aumentada e começa a ganhar tanto como os seus colegas homens (é, quase sempre, a única mulher entre homens) e fica genuinamente espantada, comentando com ironia: “Isto é muito sério. Se o mundo sabe, todas a mulheres vão querer ganhar o mesmo que os homens para o mesmo trabalho. A civilização vai colapsar.”

Numa conversa com outra mulher inteligente, que a elogia pelo seu trabalho, a Midge tenta desvalorizar e chama a atenção para a ajuda dos colegas. Ao que a outra lhe contesta: “Não. Não. Fica com o crédito, sendo teu ou não. É o que os homens fazem.”

Toda a série tem pequenos momentos destes. Geniais. Preciosos. Quase omissos. Quase ofuscados por diálogos inteligentes, rápidos, que me obrigaram a pôr legendas para não perder uma palavra.

Não vou contar o fim, por razões óbvias, mas deixo-vos as frases de uma das atuações dela, já num dos episódios finais:

I want a big life. I want to experience everything. I want to break every single rule there is. They say ambition is an unattractive tray in a woman. Maybe. But you know what is really unattractive? Waiting around for something to happen. Staring out of the window thinking that life we should be living is out there somewhere but not being willing to open the door and go get it. Even if someone tells you “You can’t”. Being a coward is only cute in The Wizard of Oz.

Umas vezes mais, outras vezes menos, mas a verdade é que todas temos um bocado da Midge dentro de nós.

A maravilhosa Mrs. Maisel. A mostrar que se pode vestir roupa bonita, até trocar de vestido duas ou três vezes ao dia, ter o cabelo arranjado e andar maquilhada, e ser uma mulher independente, ambiciosa, capaz e competente, com sentido de humor.

A não ter tudo, mas a querer ser muita coisa.

E a sair de detrás da janela, abrir a porta para o mundo e trabalhar para isso.

Inês Brandão é fundadora e Global Business Manager da Frenpolymer. Leia mais artigos de Inês Brandão.

Publicado a 15 Junho 2023

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