A motociclista que tinha medo de andar de mota e acabou a guiar um camião

Elisabete Jacinto apaixonou-se pelo todo-o-terreno na primeira prova que fez

Acompanho com interesse todas as provas de Elisabete Jacinto, desde que em 2000 a entrevistei e me deslumbrei com as suas aventuras no deserto. Numa altura em que o camião da sua equipa foi, finalmente, foi resgatado das dunas do Erg Chegaga, onde já estava há dois dias e duas noites, não posso deixar de me recordar das aventuras que contou para o livro As Mulheres Normais têm qualquer coisa de Excepcional (Bertrand). Eis um excerto dessa biografia, que creio ilustra bem as dificuldades porque a desportista passa, e a sua capacidade de persistir e  de se superar.

“Mal nasce o Sol, as motas são as primeiras a partir. A alvorada é às quatro ou cinco, já que muitas vezes há que fazer a ligação (secção da etapa, não cronometrada) por alcatrão até ao local de partida. As etapas têm normalmente entre 400 e 600 quilómetros, mas podem atingir 1000 quilómetros em dunas, buracos e armadilhas ocultas. Se tudo, mas mesmo tudo, correr muito bem, Elisabete Jacinto chega à meta às cinco e meia ou seis horas da tarde. Mas se tiver algum acidente de percurso durante a etapa, pode só avistar o acampamento às três ou quatro da madrugada. No dia seguinte são mais 6, 7, 8, ou 10 horas em cima da mota, fazendo figas para não cair porque, se for ao chão, fica à mercê das ajudas de quem passar: sozinha não tem força para colocar a mota de novo em pé. Enquanto acelera pelas dunas, entregue à sua sorte e à sua perícia, frente ao imenso deserto, os pensamentos negativos podem assaltar a sua mente, enfraquecendo a sua força de vontade e desfalcando a sua determinação. “Estarei no caminho correcto? E se me perco? E se caio e me magoo? Se a mota se avaria é o fim deste sonho. E o dinheiro que perderei em vão…”. A dureza física da prova não se compara à exigência de robustez psicológica que é testada no cenário inóspito de África.

Elisabete, 45 anos, conta-me a história da sua primeira participação no mítico rali Paris-Dakar, em 1998, na sala do seu apartamento em Benfica, virado para a Segunda Circular e o Estádio da Luz, num final de tarde de Junho de 2009, de muito calor. Pousamos os refrescantes copos de água numa mesa baixa, onde repousam muitas rosas do deserto (pequenas formações de minerais e areia similares a rosas), fósseis e um frasco com areia de cor avermelhada. Os olhos detêm-se num pano pintado com motivos e cores africanos exposto na parede. Frente à televisão, está estacionada uma bicicleta de fazer exercício. “Nunca parei um minutinho para pensar: e se eu não terminar? Era sempre: o que é que eu preciso de fazer para terminar? Naquele primeiro Dakar fui correr com uma mota que pesava mais de 200 quilos. Se eu tivesse dois palmos de testa, quando caí na primeira etapa e percebi que não conseguia levantar a mota do chão, o mais razoável seria dizer ‘não tenho futuro nenhum numa modalidade em que estou sempre a cair e não consigo levantar a mota’. Mas para mim o que era evidente é que precisava de ter alguém para me ajudar.”

Elisabete fez as maiores loucuras, reconhece-o hoje, para ir à frente, o que, perdoe-se a redundância, significava ter alguém atrás… que a ajudasse a levantar a mota. “Nesse primeiro Dakar a mota ia muito mal preparada, tive imensos problemas mecânicos. E, por isso, em várias etapas fui a última a partir. Lembro-me de entrar em situações de grande perigo, no meio do pó, sem ver nada, a acelerar, para passar mais um.” Foi assim que conseguiu manter-se sete dias em prova, mais tempo do que teoricamente seria viável.

Graças às corridas, Elisabete fez uma descoberta fascinante acerca de si própria: “Somos capazes de ir até onde queremos ir.” E explica: “Considero-me uma mulher normal, sem nenhum dote especial que me distinga das outras, nem mesmo ao nível da condução. A única coisa que me fez distinguir das outras pessoas foi o facto de eu me agarrar muito a um sonho, a uma meta, e de lutar muito por ela. Na luta por essa conquista, fui evoluindo, ia-me tornando uma pessoa melhor e isso dava-me uma sensação muito boa. Olhar para trás e ver que consegui fazer aquilo que nunca imaginei conseguir – foi isso que me fez mover estes anos todos.”

Neste desporto Elisabete Jacinto tem arriscado a sua integridade física, o seu tempo, o seu esforço e o seu dinheiro. A sua história tem uma moral que importa retirar. É um caso sério de entrega total a um sonho, de persistência mesmo nas situações mais difíceis, de superação das suas capacidades como desportista. É a história de uma mulher comum que vence os seus medos e, com isso, fica mais forte para enfrentar os próximos que se lhe apresentem. É, ainda, uma história de paixão pelo desporto motorizado e pelo homem que lhe apresentou estas máquinas: o homem com quem vivia desde que terminaram a Universidade, com 21 anos, e com quem casou em finais de 1997, quando, com inúmeras tarefas pela frente e pouco tempo para as realizar, o casal percebeu que teria direito a quinze dias de férias: uma lua-de-mel para… ultimar os preparativos para o primeiro Dakar de Elisabete.

Paixão acelerada

Elisabete Jacinto era professora de Geografia na Escola Secundária Pedro de Santarém, na Estrada de Benfica, em Lisboa. O interesse pelas motas surgiu já tardiamente. Aos 23 anos, ela e Jorge Gil, que é há 13 anos o seu marido e treinador, interessaram-se por uma revista de motas que viram num quiosque e decidiram que tirariam a carta de motociclos. Daí a pouco tempo compravam uma Cagiva Elefantre 125, para andar na cidade. Inscreveram-se no Clube Todo-o-Terreno e participaram em passeios como a “Ronda dos Castelos”. “Íamos para o campo com os amigos, fazer passeios. A última coisa que eu queria na minha vida era ficar para trás e que um dia o Jorge dissesse que eu não os conseguia acompanhar.” Os rapazes desciam umas grandes ribanceiras e, lá em baixo, instigavam: “então, não vens?”. Elisabete até sentia dores de barriga, mas algo a impelia a descer. “No fundo foi o amor que me moveu.”

Nestas saídas de amadores houve um momento determinante, que marcou o começo da melhoria contínua de Elisabete. Jorge e um amigo começaram a picar-se e a andar a alta velocidade. Elisabete ia atrás, seguindo os rastos por eles deixados. Até que se deparou com um cruzamento e não sabia para onde se virar. “Fiquei tristíssima, desmoralizada, a pensar: agora não tenho hipótese nenhuma, já não tenho ritmo para andar com ele.” Jorge percebeu a sua aflição e prometeu: “vou ajudar-te a fazer progressos”.

Qualquer pequeno avanço lhe dava uma enorme satisfação e daí até à primeira competição foi um salto. Foi em 1992 no Grândola 300. Elisabete duvidava da sua capacidade de aguentar uma prova de 300 quilómetros, mas perante a insistência dos rapazes hesitava: “se eles acreditam tanto, será que eu sou capaz? E decidiu: o Jorge vai, eu também vou!”

Elisabete foi. Caiu, levantou-se, sujou-se, andou pelos terrenos aos saltos até que a mota caiu num rio. Como levava uma tala num dedo, as luvas eram enormes enão teve a destreza necessária para levantar a máquina com a velocidade que a situação exigia. A água entrou para o motor e a mota deu o seu último suspiro. Ali morria a primeira prova de Elisabete e paradoxalmente nascia o seu futuro de desportista. “Isto aconteceu ao quilómetro 270. Eu que achava que não fazia nem 70! A pessoa mais contente da corrida não era quem tinha ganho. Era eu!”, conta entusiasmada. Foi o momento em que Elisabete utilizou uma expressão que deixa escapar muitas vezes, com imensa graça: “Eureka! É isto mesmo que eu quero! Fui capaz! Agora quero fazer mais.” A adrenalina proporcionada pelas corridas confundia-se com as borboletas na barriga que sentem os apaixonados. As corridas não lhe saiam da cabeça. A paixão tornava-se uma obsessão. “Como é que vou fazer para andar de mota, para arranjar físico, como é que vou arranjar dinheiro, como é que vou treinar a técnica?”.

Elisabete vivia do seu ordenado de professora do ensino secundário, que não esticava para sustentar um desporto tão caro. O casal começou a solicitar patrocínios a empresas, mas os obstáculos encontrados eram muitos. “Lembro-me de haver dinheiro para pneus, para gasolina, para correntes, para cremalheiras, e de haver dois meses em que precisávamos de ir ao supermercado e não havia dinheiro; e ainda faltavam duas semanas para receber o ordenado. Passei pela situação de ter de pedir emprestado aos amigos para ir às compras no dia-a-dia.”

As duas primeiras corridas, em 1992, foram feitas juntos, cada qual com a sua mota Suzuki DR 350. Como não tinham dinheiro para prosseguirem ambos com um desporto tão dispendioso, Jorge optou por ceder o lugar à mulher e colocou-se na segunda linha. Se noutras áreas são as mulheres quem normalmente sacrificam a sua vida profissional em benefício da carreira do marido, Jorge considerou que, por ser mulher, com a raridade da situação, Elisabete mais facilmente atrairia os tão necessários patrocínios. Na retaguarda tem sido team manager, treinador, mecânico, assistente, responsável pela logística, massagista, relações públicas e conselheiro. “É ele que resolve os problemas difíceis”, elogia Elisabete. O marido foi sempre o seu grande impulsionador. Não fossem os seus incentivos e ela teria parado. “Se não fosse o Jorge, teria feito uma corrida ou duas e não teria ido mais longe. Centramos a vida em torno disto. Quando eu vou abaixo, fraquejo, é ele que puxa; noutras alturas é ele que diz que está cansado, que isto só traz problemas, e sou eu que puxo. E lá vamos os dois por aí fora”.

De início, as suas ambições desportivas eram apenas conseguir manter-se em prova, terminar as corridas. Depois a fasquia foi subindo gradualmente. De 1993 a 1998 foi durante seis anos consecutivos a vencedora do Troféu de Senhoras do Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno. Chegou uma altura em que parecia que nada mais havia para conquistar, que tudo deveria acabar e, afinal, tudo iria começar de novo, com a fasquia colocada ao mais alto nível.

“Um dia estava a lavar a louça – as actividades domésticas são bons momentos para reflectir – e a pensar que estava na altura de deixar a competição, porque queria ter filhos. E senti muita pena de sair sem ter experimentado fazer uma prova em África. E imaginei-me em cima de um grande motão, pelo deserto fora, toda equipada. Aquela imagem era tão real e soube-me tão bem que eu pensei: ‘Eureka, é isto mesmo que eu gosto.’” Quando, em Janeiro de 1997, as televisões exibiram reportagens do rali Dakar-Dakar, Elisabete não descolava do ecrã. “Eu sou capaz de fazer aquilo, eu sou capaz de andar com uma mota grande e pesada, de passar por aqueles sítios difíceis. Foi como se tivesse crescido uns palmos em altura e a ideia ganhou raízes. A partir daquele momento nunca mais aquele pensamento me deixou: eu vou fazer o Dakar!” Meu dito, meu feito.

Viagem africana

No dia 1 de Janeiro de 1998, depois de realizadas as verificações técnicas e administrativas, Elisabete estava na Place d’Armes, em Versalhes, na linha de partida. Fazia um frio de rachar nessa madrugada, mas sentia-se a morrer de calor, a fervilhar de emoções. O primeiro controlo foi junto à torre Eiffel, em Paris, com uma multidão a ver passar os pilotos; aí já Elisabete sentia o ar gélido a cortar-lhe o corpo. Seriam 18 dias de prova, apenas um de descanso, em cima de uma Suzuki DR 650cc, a mota mais pesada em prova, para fazer 10593 quilómetros percorrendo França, Espanha, Marrocos, Mauritânia, Mali e, se tudo corresse bem, festejar em Dakar, a capital do Senegal.

A piloto sentira que não podia deixar a competição todo-o-terreno sem fazer a mítica prova que celebrava o seu 20.º aniversário. Tudo começara em 1977, quando Thierry Sabine se perdera com a sua mota no deserto líbio, durante o rali Abidjan-Nice. Depois de três dias de buscas, estas foram dadas por encerradas sem sucesso. Por mero acaso, o piloto foi salvo in extremis de ser engolido pelas areias, ao ser avistado por um helicóptero. Apesar das dificuldades que viveu, de regresso a França, fascinado com as paisagens que observara, decidiu partilhar com outros a sua descoberta, fundando um rali que partisse da Europa, passasse pela Argélia e terminasse em Dakar. O seu lema mostrou-se acertado: “Um desafio para os que partem; um sonho para os que ficam”. O projecto de Sabine tornou-se realidade no dia 26 de Dezembro de 1978, quando 182 veículos se concentraram na praça do Trocadero, no centro de Paris, para um périplo de 10 mil quilómetros. A competição era e é aberta a todos os que se inscrevem, mesmo sem currículo desportivo, e rapidamente captou a atenção geral, seduzindo o público. Em 1983, durante a passagem do Ténéré (ténéré é a palavra tuaregue para deserto), uma forte tempestade de areia resultou em 40 concorrentes perdidos no deserto durante vários dias, como baratas tontas, até conseguirem retomar o percurso. A lenda do Dakar tomava forma. Mais que uma simples corrida de velocidade, o rali exige técnica de condução, capacidades de navegação fora da pista e resistência física e psicológica, uma combinação invulgar de capacidades que só os pilotos muito bons exibem e que querem por testar e medir nesta prova. Não é por acaso que nesse ano em que Elisabete se estreou, dos 349 veículos que partiram, apenas 104, ou seja menos de 30% deles, chegaram ao final.

No rali de 1986 Thierry Sabine, o cantor francês Daniel Balavoine, a jornalista Nathaly Odent, o piloto de helicóptero François Xavier-Bagnoud e o técnico de rádio Jean-Paul Le Fur morreram num desastre de helicóptero. As cinzas de Thierry Sabine foram lançadas ao vento, no deserto. O seu pai, Gilbert, assumiu o comando da organização da prova, prosseguindo o sonho do filho, que hoje está nas mãos da Amaury Sport Organisation, empresa do grupo editorial francês EPA (Philippe Amaury Publications), que detém publicações como l’Equipe, France Football, Vélo Magazine, Le Parisien e Aujourd’hui en France. Criada em Setembro de 1992, a empresa promove o organiza eventos desportivos como a Tour de France, a Maratona de Paris ou o Open de França.

 

Antes de partir para o Dakar, Elisabete pretendia ganhar experiência em terreno africano. Como não conseguiu patrocínios, pediu dinheiro emprestado a uma amiga para fazer o rali da Tunísia, onde a sua primeira insegurança, a navegação, ficou superada. “Com os subsídios de férias e umas economias conseguimos pagar-lhe”.

A aventura africana de Elisabete Jacinto começou com a actividade de angariação de patrocínios, um dos principais desafios que tinha de superar. Ouvia muitos “não”, que a poderiam levar ao desânimo e à desistência. O dinheiro envolvido na participação num rali desta envergadura daria para “comprar um apartamento em Lisboa”, assegura. Só para ter uma ideia, para correr no rali de 2010, a inscrição de um camião como o de Elisabete custa 5100 euros, a que se soma 10 mil euros por cada membro da equipa. O camião de assistência paga 4300 euros e o seu condutor 8500 euros. Só as inscrições dos veículos e da equipa ficariam em custam 67 mil euros. Depois há que suportar os custos das viagens de avião e as estadas em hotéis, os vistos, a preparação do veículo e as peças sobressalentes, o equipamento, o transporte de material e o combustível (só o das provas especiais está incluído). A isto acrescem despesas em telefones e em uso do satélite para envio de fotografias (para o gabinete de comunicação fornecer os meios de comunicação social, porque é isso que dará retorno ao patrocinador). Todo este dinheiro é canalizado para um investimento de alto risco como é o perigoso, e por isso mítico, rali Dakar. “Hoje consigo cobrir as despesas com os meus patrocínios”, congratula-se Elisabete (que este ano optou por correr o Africa Eco Race, cujas inscrições são ligeiramente mais baratas). Tem razões para se sentir orgulhosa, pois esta foi uma conquista da sua carreira desportiva.

Naquela altura bateu à porta da Suzuki pedindo uma mota emprestada que pudesse preparar para correr o Dakar. À Porta da Ravessa pediu dinheiro para pagar as inscrições no rali. Que sim, foi a resposta. “Saí de lá eufórica: vou fazer o Dakar!” Jorge tentava moderar o optimismo pouco esclarecido de Elisabete; sabia que aqueles apoios representavam uma pequeníssima parcela das despesas que uma prova dessa magnitude envolve. Mas Elisabete achava que já tinha o principal, o resto seria mais fácil de conseguir.

A última tranche de inscrições pagava-se a 30 de Novembro. Quinze dias antes, Jorge perguntou pelos patrocínios que Elisabete garantira que arranjaria, mas que afinal não conseguira angariar. Sentia-se a morrer na praia. Ou perdia tudo aquilo que tinha investido, sem qualquer retorno, ou arriscava ainda mais. Optou por esta última hipótese. “Só se pedirmos um empréstimo ao banco”, sugeriu mais depressa que o pensou. Foram três mil contos (15 mil euros), que pagou em quatro anos.

 

Neste rali Paris-Granada-Dakar, de 1998, em que dava os primeiros passos em solo africano, a inexperiência e a má preparação da mota fizeram com que lhe surgissem muitos problemas mecânicos. Houve etapas em que Elisabete chegou na madrugada seguinte ao acampamento. “Tinha sempre a sorte ou o azar de cada vez que surgia um problema aparecer um operador de câmara. Na altura achava que era milagre, mas não, era a filosofia do Dakar: aqueles desgraçados que andam a arrastar os pés e a cair de cansaço é que fazem a imagem da dureza do rali. E eu estava sempre a passar na televisão em Portugal”, conta.

Eis exemplos do tipo e da sucessão de desventuras por que passou. Numa ocasião, colocou-se na fila de abastecimento para motas, num camião que a organização desloca para o o meio do deserto, quando a avisam de que tinha uma enorme racha no depósito suplementar. Elisabete viu a vida a andar para trás, mas, ao contrário do que ditariam todas as ideias preconcebidas sobre as mulheres, armou-se em mecânica. Tirou o depósito de alumínio, tapou a fenda com solda fria (pasta de soldadura), voltou a colocar o depósito, atestou e seguiu. Com isto, perdera muito tempo e era das últimas na caravana. Mas estava de novo a caminho naquela etapa, que era a da passagem da fronteira de Marrocos para a Mauritânia. A professora de Geografia sabia bem que agora é que viriam as dunas a sério.

Sentiu o volante a abanar e percebeuque era um parafuso lasso. Tirou as ferramentas, apertou e prosseguiu. Subiu duas dunas e deu uma valente queda. Era das últimas motas, pois os carros já estavam a passar. “Parecia uma barata tonta à volta da mota, sem a conseguir por de pé. Fiz tanta força que fiquei com o volante na mão. Desesperei e tive vontade de morrer naquele momento.” Mas ressuscitou num segundo. A todos os carros que via, ia pedir ajuda. Até que houve um que, depois de se ter desatascado, a ajudou. Com a mota em pé e a cabeça mais recomposta, descobriu que sobre uma pequena parte da rosca recaía a imensa responsabilidade de fixar o volante e que com a vibração esta cedera. Elisabete levava um parafuso sem-fim e uma serra e improvisou quatro parafusos que tentava colocar. “O deserto faz de nós pessoas brilhantes, damos a volta a todas as situações.” O que é o mesmo que dizer que a necessidade aguça o engenho.

O sol começava a pôr-se. “Entretanto aparece um operador de câmara: ‘diz lá o que é te aconteceu?’. Elisabete deu-lhe a entrevista e de seguida pediu-lhe ajuda. A noite aproximava-se, as transmissões têm de ser feitas a tempo de irem para o ar nos noticiários, pelo que tinha de ir entregar as imagens no acampamento, mas que ficasse descansada pois diria à organização a sua localização, para que a viessem ajudar. Elisabete regressou ao trabalho e não pensou mais no assunto até que surgiu à sua frente o carro-vassoura, a quem o operador de câmara dera as coordenadas da sua localização. Quem coloca a mota em cima do camião está a desistir.

“As pessoas que vão no carro-vassoura – um médico, um mecânico e um condutor – têm uma dimensão humana enorme. Havia um mecânico, que nunca mais esquecerei. Ajudou-me a por o último parafuso e dizia: ‘Elisabete, se calhar, é melhor vires connosco, tu estás cansadíssima, não estás em condições de passar estas dunas de noite’”, conta. A piloto não lhe dava ouvidos. Vestiu-se, colocou o capacete e preparava-se para partir, sempre sob o olhar atento dos ocupantes do carro-vassoura. Carregou no botão para colocar a mota a trabalhar, e o motor não arrancou. Aquela sucessão de azares parecia-lhe uma maldição pior que uma praga de gafanhotos no deserto. “Eu não estava a acreditar! Tinha-se aberto o depósito e tinha arranjado; tinha saído o volante e tinha arranjado; e agora o motor de arranque não funcionava! Não era possível, estava a funcionar bem até ali!”.

Elisabete não sabia consertar uma avaria eléctrica e o mecânico do carro-vassoura, muito calmamente, fê-la ver que a reparação tanto poderia demorar 20 minutos como três horas. O carro-vassoura tinha de partir, pois outros motards aguardavam a sua ajuda. Só ficaria se assinasse um termo de responsabilidade, insistem. Enquanto o mecânico explicava tudo isto, Elisabete reflectia no que significaria atravessar as dunas de noite, sem ninguém para a ajudar quando caísse, o que na prática resultaria no accionamento da balise, sistema de rastreamento via satélite que integra o equipamento e, quando os pilotos se perdem ou em situações de emergência médica, acciona um pedido de socorro. Um helicóptero desloca-se para acudir as pessoas, mas deixa os veículos para trás. Elisabete não podia deixar a mota a apodrecer no deserto. Tinha de a devolver no final ou vendê-la e pagá-la. Tinha também uma dívida de 3 mil contos a um banco. Ao sétimo dia do seu primeiro Dakar, Elisabete teve um ataque de razoabilidade e desistiu.

“Não tinha condições objectivas para continuar a prova. Apesar disso senti que assinei o meu próprio atestado de óbito. Vim para casa com um sentimento de derrota enorme. Foi a única vez na vida em que me queria esconder. Achava que tinha defraudado toda a gente, ao não terminar o Dakar, hipótese que nunca tinha equacionado.” Pior ainda do que sentir que fracassara era pensar que teria de deixar até as corridas de fim-de-semana, porque todo o dinheiro disponível seria para pagar a divida. “Não há nenhum patrocinador que me vá dar dinheiro depois disto, estou absolutamente condenada”, pensava. O seu mundo estava a desmoronar-se.

“Nós vamos na direcção onde queremos ir. E eu queria tudo menos deixar de andar de mota e de fazer corridas”, reflecte, invocando as leituras que tem feito na área da psicologia. “Tive anos de loucura a fazer contactos com empresas, a falar com imensas pessoas, a enviar currículos, e é um não e três não e quatro nãos e 20 nãos e 50 nãos. Tive um momento em que pensei que tinha de parar porque a minha cabeça começava a ficar frágil. Havia situações em que as telefonistas nem passavam a chamada ao director de marketing quando dizia qual o assunto. A pessoa sente-se completamente indesejada. E, afinal, as coisas acabaram por vir ao meu encontro.” No momento certo, abre-se a porta certa. Quando está prestes a atingir o desespero por já não aguentar mais frustração, subitamente tudo se resolve com facilidade.

Um acaso colocou-a de novo em África. Elisabete regressara ao ensino. Numa festa de Carnaval que organizara com os alunos a escola recebeu a visita de um jornalista que a entrevistou sobre o curso nocturno. Este tinha um amigo que apoiara uma equipa de carros no Dakar, mas saiu-lhe tão caro que desistira da ideia. “Vou-lhe falar de si”, prometeu. E cumpriu. Poucos dias Elisabete tinha dinheiro para fazer outro Dakar e, como se não fosse suficientemente bom, ainda uma ou duas provas mais pequenas, para se preparar. O patrocínio dos Laboratórios Medinfar foi inicialmente pensado só para um ano, mas dura até hoje. ”

Excerto de As Mulheres Normais Têm Qualquer Coisa de Excepcional, de Isabel Canha