Mothergeist

– Mãe, tu nunca brincas comigo!

Ela sabe que não é verdade, mas que é a forma mais rápida de conseguir que eu feche o livro que leio nem há cinco minutos. A maior parte das vezes eu cedo. Afinal, tenho chegado tarde do trabalho. E o Nenuco há dias sem tomar banho, quase estrangulado pela camisola que eu não ajudei a despir. O meu único neto a olhar-me fixamente sem pestanejar – e eu já a imaginar o puto a revirar os olhos e a vingar-se durante a noite. Quando estou muito cansada, gosto especialmente da parte da brincadeira em que fazemos uma caminha no chão, para nós e para os bebés. Mas a noite é sol de pouca dura e não tarda estamos novamente a pé. A rotina faz de conta consegue ser bem mais dura que a rotina real. Os bebés choram, nós damos leitinho, mudamos a fralda, vamos fazer um piquenique (bolonhesa outra vez?), as crianças choram, damos leitinho, mudamos a fralda, voltamos para casa, damos banho, jantamos (bolonhesa) e vamos para a cama. Nas primeiras vezes, ainda tentei mandar a rotina às urtigas mas a minha filha ficou muito escandalizada por eu não dar comida nem banho aos bonecos durante dias a fio e deu-me logo uma lista de  responsabilidades pela qual eu me deveria reger enquanto avó.

Cansada de 10 dias “zipados” em meia hora de brincadeira e enjoada de 20 refeições de bolonhesa, já na cama, e de novo com o meu livro aberto na página 5, volto a ouvir uma voz, desta vez muito mais grave. Alguém a sentir-se negligenciado, para além do puto careca de olhos plásticos revirados.

– Querida, tu nunca brincas comigo….