Mergulhos e caminhadas na ilha de S. Miguel

É difícil de imaginar sensação tão boa como a que tive quando mergulhei, com óculos e tubo, no cais do Ilhéu de Vila Franca do Campo, em S. Miguel. Depois de algumas horas à tona de água, no seu cone vulcânico, e de são convívio com uma miríade variada de peixes naquele aquário ao ar livre, sem muita vontade de sair, lá estávamos todos à espera, em cima do cais, que a embarcação voltasse para nos levar.

Um mergulho inesquecível a dois no Ilhéu de Vila Franca.

 

 

A última ida à água

Claro que não fui o primeiro a ir de novo à água, pois esses foram os meus sobrinhos Tiago e Ricardo, o meu filho Jorge e outros jovens que estavam por ali. Também eles sentiam vontade de dar um último mergulho naquele aquário paradisíaco natural que é o ilhéu. Eu, só pensei uma vez se iria, ou não, molhar-me de novo. Mas não resisti.

Ainda bem que o fiz, porque ser recebido por um cardume de sargos grandes, 10, 15, 20 exemplares talvez, com aquele ar de quem está a fazer uma passeata a seguir ao almoço, provocou-me uma sensação extraordinária de satisfação, mais perceptível para quem é um ex-caçador submarino, como eu. E como nenhum se foi embora, por lá fiquei algum tempo, prolongando aquele momento dificilmente repetível, pelo menos para mim.

Este foi só um dos dias bons que tive naquele pedaço de paraíso, que alguém colocou no meio do oceano atlântico para nos deslumbrar e fazer-nos sentir em paz.

A verdade é que há, em toda a ilha, recantos de beleza ímpar, e coisas para fazer, difíceis (ou impossíveis) de encontrar noutro lado. Foi essa a sensação que tive quando fui palmilhando o Trilho do Sanguinho em direcção ao Salto do Prego, cascata que cai para uma pequena lagoa de água fria e profunda, um par de quilómetros, ou mais, para o interior.

No caminho, de subidas e descidas, mas sempre ascendente de ida, com degraus pequenos e enormes, tive de parar várias vezes para recuperar o folego. O esforço de carregar a mochila, onde levava a toalha e os óculos de mergulho, mais a máquina fotográfica, juntavam-se ao efeito do repasto, ainda que ligeiro, tomado momentos antes, para me obrigar a um sobre esforço, naquele ambiente quente e húmido, a lembrar uma floresta tropical. Mas valeu a pena.

Algures no Trilho, antes da queda de água.

O Salto do Prego, onde as águas geladas retemperam as forças dos caminhantes no trilho do Sanguinho.

Fria e límpida

Claro que estive imerso em água gelada e límpida o máximo que pude. Também me encostei à parede rochosa por onde caía a cascata, e verifiquei que os pingos de água eram bem mais quentes do que a lagoa. Mergulhei ainda, e convivi com o único habitante aparente daquele espaço, uma truta que se mantinha quase imóvel por baixo das águas da cascata, onde quase se deixava tocar. Ainda pensei em ficar ali para sempre, deixando que um par de guelras me surgissem. Mas o meu sangue citadino começou a fazer-se sentir e puxou-me de novo para a realidade e necessidade de voltar ao carro, que estava à nossa espera no Faial da Terra, bem mais abaixo em direcção ao oceano.

Na volta, como na ida, voltámos a passar pelos pequenos bandos de galinhas da Índia, que bicavam o chão do trilho indiferentes aos muitos caminhantes com que nos cruzámos, nesse dia, naquelas paragens. Fomos parando, aqui e ali, pelo trilho de volta, olhando o vale onde tínhamos caminhado durante a manhã, distante algumas centenas de metros abaixo, até chegarmos à Aldeia do Sanguinho, urbe sobranceira, meio abandonada, que vigia o ribeiro até ao Faial da Terra e o oceano, ao fundo, mas também nome de planta endémica daquela terra. Um pouco mais de três horas depois e de 4,5 km feitos, mais coisas menos coisa, chegámos ao sítio de partida. Meio litro de água bebida, mais meia hora de descanso e fiquei pronto para continuar a vaguear pela ilha, agora de carro, é claro.

Aldeia do Sanguinho, lugar onde só se consegue ir a pé, ou de jipe.

É verdade que fizemos quase tudo o que se pode fazer em oito dias quando se vai a S. Miguel. Desci à Gruta do Carvão, apesar de ser ligeiramente claustrofóbico, e aguentei estoicamente a explicação que foi sendo dada e as divagações, da jovem guia, sobre os desequilíbrios de tratamento do governo regional, na ilha, entre os cidadãos pagantes de impostos e aqueles que não gostam de trabalhar, “que recebem dinheiro do Estado, e ainda reclamam”. Ou seja, uma história igual a tantas outras por estas e outras terras.Também subi, a pé, a todas as lagoas Empadadas, percurso imperdível que vale a pena usufruir devagar.

Uma das Lagoas Empadadas

A beleza da Lagoa das Sete Cidades sente-se em qualquer ponto de vista.

Hamburger na Vista do Rei

O hotel esventrado da Vista do Rei é hoje atracção turistica.

Olhei para a Lagoa das Sete Cidades da Vista do Rei e de outros lados, andei pelo interior daquele que foi, um dia, faustoso hotel, percorri o lobby, os seus quartos e suites esventrados, em busca de todas as vistas. Nesse dia, quando ainda era cedo, mas a fome já era intensa, descobrimos o Komaki Burger, carrinha de street food que costuma estar, segundo pesquisa posterior, em Ponta Delgada.

Escolhi cerveja bem fresquinha e um dos melhores hambúrgueres que comi na vida, grande, bem temperado e apaladado, com bacon e Queijo da Ilha. Só faltou um banco e uma qualquer mesa tosca, virada para uma das vistas, para me sentir aquele repouso dos bons momentos da vida. É verdade que tive outros bons encontros com a carne, já que aproveitei os dias para visitar restaurantes onde já tinha ido, e descobrir mais alguns. Mas talvez pelo sítio, onde se tem uma das melhores vistas das Sete Cidades, e pelo insólito de comer o hambúrguer assim naquele lugar improvável, feito por uma jovem bem apessoado, que deve gostar tanto de comer como eu, senti-me, naquele instante, muito bem com a vida, pronto para mais descobertas na ilha.

Fotos: Jorge, Madalena, Isabel, Cristina e José Miguel Dentinho