Menina Engenheira

Tenho clientes no Mundo todo. Da América do Sul, passando pela China, percorrendo toda a Europa, cruzando os oceanos até aos Estados Unidos, somando alguns países no Norte de África. Até já tentei fechar negócio nas Maldivas, o que teria sido fabuloso, pois “obrigar-me-ia” a lá ir. Mas o meu Cliente Português será sempre o meu cliente do coração.

O meu Cliente Português representa todas as empresas que me viram crescer, aqui na minha pátria. Há 20 anos, era eu uma catraia, recebeu-me na sua fábrica, sem perceber muito bem o que fazia uma miúda de fato e saltos altos numa indústria maioritariamente masculina, de indústria pesada, sem glamour, com cheiro característico, e pouca notoriedade. Lembro-me de um cliente em especial que me tratava por “Menina Engenheira” e eu não o contrariava. Mas, um dia, casei-me e ele disse-me “agora já posso tratá-la por senhora Engenheira”. E eu percebi o “Menina” e toda a ternura que a palavra trazia.

O meu Cliente Português é o que me acompanhou estes anos e nunca se esqueceu de mim. Viu-me ter filhos, criar a minha empresa, viajar Mundo fora.  O que me perguntava sempre que me telefonava “então, e anda por onde agora?”, pedindo para lhe contar novidades dos meus negócios quando eles iam-se desviando por novos caminhos.

A mim acontece-me ter uns dias maus, com atrasos em respostas de empresas lá de fora, andar desmotivada e zangada e a sentir-me esquecida. Depois, envio e-mails a apresentar uns produtos novos aos clientes de sempre, ao meu Cliente Português, aquele que me conhece desde “menina”, desde que começamos a trabalhar há mais de duas décadas. Cliente que já não visito há uns meses, por força da pandemia. E o Cliente diz: “se calhar não usamos isso, mas venha cá”. E vai-se, e é-se recebida como “olha A engenheira “. Ali, a gente já é “A engenheira Inês”, não há mais nenhuma. Já não é menina nem senhora.

A rececionista sai de trás da janela ou da secretaria para perguntar pelos miúdos e chama a colega dos pagamentos para me vir ver. O Cliente recebe-nos, vê o que se tem, arranja forma de encaixar, chama a produção para confirmar. Leva-nos a ver a máquina nova que comprou. Mostra fotos das obras da casa nova que está a construir e pelo meio passa pelos netos. Desabafa de problemas da empresa. Que nós sabemos que não se conta a muito mais gente. É amizade. É ternura. É gentileza. São anos de olhos nos olhos, a sermos nós próprios, a trabalhar a confiança.

Fui evoluindo e ele, o meu Cliente, também. Hoje tem nome no Mundo. É cada vez mais inovador, faz capas de revista, lidera mercados e resiste. Adapta-se, move-se e investe. Somos amigos, confiamos um no outro e orgulhamo-nos dos feitos de cada um.

20 anos de profissão, quase 8 de negócio meu, e é no meu país que eu me apercebo que estarei sempre em casa. Que terei sempre uma casa. Que será sempre a minha casa. Desde Menina, a minha casa, o meu Cliente.

Parceiros Premium
Parceiros