Lua vermelha de janeiro

Há uns anos recebi um grupo de chineses em Portugal. Como as reuniões passaram pelo Sul, tivemos de ficar em Lisboa e eu aproveitei para os levar a alguns locais típicos. Eu sou do Porto, uma nortenha convicta, mas adoro a nossa capital e tenho pena de não ter mais razões para lá ir.

O grupo de trabalho asiático tinha várias hierarquias, incluindo um vice presidente. A maioria falava inglês, mas este não, e toda a conversa tinha de ser traduzida. A cultura profissional chinesa é interessantíssima. Fiquei fascinada com o respeito e a consideração pelas chefias e a delicadeza com que fui tratada nesses dias. Desde me abrirem as portas do carro, servirem alimentos especiais em buffets, o ritual do chá, de facto há uma magia criada pela hierarquia oriental que se perdeu no Ocidente, para o melhor e para o pior. Aprende-se muito em trabalho, mas eu acredito que também se ganha muito em períodos lúdicos. Talvez mais.

Então, na volta por Lisboa, decidi levá-los a ver o pôr do sol no Castelo de São Jorge. Ficaram surpreendidos com a vista e completamente rendidos ao sol a esconder-se por trás do Tejo, pela Ponte 25 de Abril. Estiveram literalmente uns largos minutos a filmar a estrela do dia a trazer a noite. Quando regressámos ao carro, tivemos de voltar pelo lado oposto e no Miradouro das Portas do Sol, a Lua, já erguida, vestia uma cor vermelha forte. Era uma noite fabulosa de Janeiro. Foi o êxtase. A cor encarnada na China é sinónimo de sucesso. E só repetiam em como tínhamos sido abençoados. Claro que tudo isto entre traduções, de mandarim para Ingles, inglês para mandarim.

Tinha marcado jantar numa casa de fados e seguimos para lá. No local, a mesa reservada já estava recheada e pedimos vinho. Os asiáticos gostam de festins e mesas cheias. É um prazer comer com eles. São francamente agradecidos e provam tudo. Não há cerimónias e gostos complicados. Aprendi que pezinhos de coentrada são uma especialidade também na China e que as espetadas que misturem carne e camarão são seguramente uma opção vencedora.

Quando começaram os fados, foi a comoção. Não é preciso traduzir o sentimento que a música transmite. Percebi o sucesso destas canções no Oriente, porque estavam todos muito emocionados. Filmaram, pediram mais. Respeitaram o silêncio. Não comeram nem beberam sempre que alguma música tocava. Por entre o gemer e o chorar da guitarra portuguesa vi algumas lágrimas nos olhos rasgados. Eu gosto deste tipo de convívio, e fazê-lo com pessoas que respeitam e compreendem as tradições é muito mais agradável e fácil. Os orientais nisso são uma companhia cortês e educada.

No dia seguinte, fomos a Cascais antes de os deixar. Quando nos despedimos, o vice presidente veio ter comigo, pegou-me nas mãos e disse “Obrigada”. E depois fez um pequeno resumo em inglês dos momentos da visita. O restante grupo batia palmas e festejava a ligação profunda que naquele momento se estabelecia.

Foi dos bons momentos da minha vida profissional e pessoal a ela associada. Ganhar a confiança e quebrar barreiras. Criar memórias. Todos buscamos o nosso propósito. Tão difícil de encontrar. O meu passa, seguramente, por deixar uma marca, uma lembrança a quem se cruza comigo. Ser recordada por deixar um bom momento ou sentimento. Uma frase dita ou escrita.

Espero que aquele “obrigada” seja tão inesquecível para eles como foi para mim. E a memória da lua vermelha de janeiro, que foi de facto um prenúncio de momentos felizes.

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