Lições de Hollywood para empreendedoras

Hollywood parece ter despertado para a realidade e encontrou um novo filão no empreendedorismo feminino. Apesar da muita tinta que tem corrido a propósito da escassez de mulheres em papéis de protagonista, da sua fraquíssima representatividade na realização e do gap que continua a existir entre os seus salários e os dos atores, as mulheres são as protagonistas em dois filmes destaques.

Gostei muito do filme O estagiário. Por várias razões, a primeira por mostrar ao mundo que um bom profissional tem sempre muito para ensinar, mesmo aos 70 anos. As empresas não valorizam a experiência destas pessoas, mas mesmo aquelas que têm dificuldades em lidar com as novas tecnologias (acho que já não faz sentido chamar-lhes novas…) têm conhecimento de sobra para pôr ao serviço até das chamadas startups. Porque há coisas que não mudam e a personagem interpretada por Robert de Niro mostra isso muito bem. E a sua experiência não se revela apenas fundamental nos métodos de trabalho e de encarar os negócios, mas também nas lições de vida que dá aos que o rodeiam.

Jules ensina Ben a entrar no mundo virtual, mas é ele que lhe mostra como sobreviver no mundo real.

Ben pode não dominar o mundo virtual, mas dá lições sobre a vida real a Jules.

Mas deixando Robert de Niro de lado, a personagem interpretada por Anne Hathaway mostra bem de que fibra é feita uma empreendedora. Ela vive o negócio 24 horas por dia, envolve-se em todas as suas fases – desde o embrulho das peças à resolução das reclamações e dos pedidos especiais das clientes – e perde o sono só de pensar em colocar outra pessoa a gerir a sua startup. Na verdade, não há outra forma de transformar uma ideia num negócio de sucesso.

É verdade que na vida real, 99% das empreendedoras não têm um marido que tenha abdicado da carreira para cuidar da família como o de Anne Hathaway no filme, mas aqui talvez caiba às mulheres exigirem mais dos seus parceiros e deixarem de se pôr em segundo plano. Se ambicionam ser bem sucedidas na carreira ou nos negócios as mulheres devem começar por usar as suas competências de líderes dentro de casa, apostando mais na delegação e na responsabilização dos parceiros.

Joy aprende que é fundamental rodear-se de pessoas comprometidas com o negócio.

Joy aprende que é fundamental rodear-se de pessoas comprometidas com o negócio.

Jennifer Lawrence em Joy não tem a vida “fácil” de Anne Hathaway em O estagiário, mas graças à sua resiliência consegue transformar-se de uma working woman numa business woman e também deixa algumas boas lições a quem sonha com o empreendedorismo: ninguém vende tão bem a ideia como o próprio empreendedor e desistir não é opção. Baseado numa história real, a personagem de Jennifer deteta uma oportunidade no mercado a partir de uma necessidade que ela própria sente e não descansa enquanto não cria o produto e o tenta pôr ao alcance de outras mulheres. Porém, só alcança o sucesso quando consegue ser ela própria a vendê-lo, depois de desafiar as regras de uma máquina de vendas altamente eficiente. Mais uma vez, há coisas que não mudam: o entusiasmo e a credibilidade com que fala do seu produto conseguem bater as melhores técnicas de vendas em televisão. Outra lição deste filme é a importância das pessoas de que um empreendedor se deve rodear. A equipa tem de estar comprometida com a ideia e acreditar nela tanto quanto o empreendedor. Muitas vezes essas pessoas são aquelas que estão mais próximas e em quem mais confia – em Joy são a melhor amiga e o ex-marido. Podem ser pessoas que não percebam muito do negócio mas que são cruciais para ajudar a enfrentar as maiores contrariedades, alertar para coisas básicas que nem sempre quem está completamente envolvido no negócio consegue ver e, sobretudo, para não a deixar desistir.

Dois filmes que recomendo a quem está a pensar lançar-se como empreendedora, pois alertam para alguns aspetos fundamentais de que depende o sucesso do negócio, e que vão além de uma boa ideia e de um bom business plan.

Texto: Maria Serina