Jornada dominical à cúpula da Basílica de S. Pedro

A vista é magnífica do alto da cúpula da Basílica de S. Pedro. Mesmo num espaço quase sobrelotado, como estava naquele domingo de agosto, vale a pena subir até lá e observar, de forma atenta, a paisagem que se alarga a partir do Vaticano.

Tínhamos ido à Praça de S. Pedro naquele dia, no meio de uma semana de férias na capital italiana, na esperança de assistir a uma missa papal, o que aconteceu. Afinal é sempre bom sentir a presença de um homem bom que tenta mudar um mundo de guerras – económicas, políticas, bélicas e outras -, mesmo sem perceber metade do seu discurso, em italiano. Tal como eu e a minha família, muitos milhares de pessoas, de muitas origens, pararam naquele período breve para escutar as suas palavras, ditas de uma janela distante, onde quase se via apenas uma silhueta, distinta pelo perfil inconfundível do seu rosto.

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Feiras aguardam a missa, ao abrigo do sol.

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Multidão acumulada na Praça de S. Pedro, à espera do Papa Francisco.

 

551 Degraus

Como não é necessário olhar para ouvir, quando o Prelado desejava a todos um bom domingo e um bom almoço, já estávamos a caminho da zona de revista de bagagem para evitarmos a longa fila habitual, que se formou logo com o fim da missa. O objectivo era o cimo da cúpula da Basílica de S. Pedro, 551 degraus depois do piso térreo, o que não se previa, nem foi pêra doce.

Adquiridos os bilhetes para entrar e para a subida, de elevador, da primeira parte, para poupar as pernas e o suor da subida das primeiras centenas de degraus, chegámos depois ao interior da cúpula, onde observámos o espectáculo memorável e imperdível da multidão que enchia a igreja naquela hora do terço.

Mas o objectivo era subir. Faltavam “apenas” 320 degraus e os primeiros foram galgados. Na galeria estreita e claustrofóbica, o calor batia vigorosamente. As janelas pareciam ter sido postas como oásis no meio do deserto do Sahara, ou seja, demasiado distantes umas das outras, pelo menos para mim. Finalmente e depois do que me pareceu uma eternidade, consegui sentar-me no parapeito de uma delas, num lugar cedido por um par de senhoras sul-americanas que olharam para mim, companheiro da mesma jornada, com ar simultaneamente condescendente e cúmplice. Passado algum tempo a ver a gente passar, voltei de novo ao caminho. Daí a pouco a estreita galeria começou a inclinar-se para a direita, acompanhando a curvatura da basílica, dificultando ainda mais a subida. Felizmente tinha fim, noutra zona de escadas, muito mais largas, que convidavam a continuar. Vários lances depois, com muitas dezenas de degraus galgados e algumas pessoas deixadas, sentadas, a arfar nas zonas onde a galeria se alargava, e cheguei finalmente ao topo. Enquanto tentava encontrar o meu espaço na multidão, considerei que teria sido mais inteligente ir ali noutra época do ano, menos quente, e que seria boa ideia haver ali uma fonte de água fresca.

 

No cimo da cúpula

O dia estava límpido, claro, e deixava avistar a cidade eterna até a horizontes distantes. Rapidamente esqueci a jornada que me levara ali e concentrei-me na paisagem. Deixei-me ficar, entre as inúmeras pessoas, olhando as vistas dos Jardins e dos edifícios do Vaticano, da cidade de Roma que se espalhava pelo horizonte. Olhei mais atentamente a Praça de S. Pedro, que se prolongava pela Via (rua) della Conciliazione em direcção ao rio e ao castelo de Santo Ângelo. Tínhamos estado por lá nessa manhã e já sabia que tinha sido a prisão dos inimigos dos papas e refúgio quando estes corriam perigo. Ainda hoje, do alto das suas muralhas se pode observar o passadiço muralhado que liga o Vaticano a esta fortaleza, que também merece visita. À frente começa a zona velha de Roma, com inúmeros recantos, sempre cheios de gente, que vale a pena percorrer.

Uma das memórias que mais me marcaram nesta visita em tempo de estio à cidade eterna foi a água. A necessidade dela, já que o calor abrasador me fez beber vários litros por dia. Mas também a sua disponibilidade em diversas fontes de água fria, por vezes gelada, um pouco por toda a cidade. Apreciei, inclusive, a que jorrava de algumas com aparência de monumentos, como a Fontana dei Leoni Capitolini, numa altura em que já tinha a certeza que, ali, a água só não era potável quando tinha um aviso nesse sentido.

Não fosse isso, a conta de ingestão de líquidos seria certamente muito mais elevada, dado o preço de cada garrafa nunca ser inferior a um euro na capital de Itália.

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Jardins do Vaticano, avistados do alto da Basílica de S. Pedro

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Como todos os espaços do Museu do Vaticano, o Museu Chiaramonti, que mostra escultura, arquitectura e frescos, estava apinhado de gente.

 

A fonte da barcaça

Uma das fontes que mais gostei e frequentei foi a Fontana della Barcaccia, (Fonte da Barcaça) na Praça de Espanha, logo à frente da escadaria onde se realizaram alguns desfiles de alta-costura italiana nos anos 90. Liga ao miradouro Trinità dei Monti, onde se deve ir para ter uma panorâmica da zona velha da cidade. Por isso, e porque a praça e escadaria estavam sempre orladas de gente, muitas delas a descansar, voltei quase invariavelmente aquele lugar da zona velha de Roma ao final do dia, para descansar os olhos enquanto observava as pessoas de todas as origens que frequentavam a praça. Bem perto, a oferta de restaurantes é grande e variada, para todos os preços. Num dos últimos dias, lanchámos tardiamente no Di Quà, na Via delle Carrozze, algo entre um café, bar e restaurante, servidos por gente simpática, onde saboreámos bruschetas, risotto e gaspacho, no meu caso na companhia de um copo de espumante bem seco, mineral, fresco e agradável.

Fui lá depois de ter ido pela primeira vez ao Vaticano e percorrido as diversas galerias de colecções variadas do seu museu, um dos melhores onde estive até hoje. Quando chegámos à sua porta, abençoámos a aquisição online das entradas, no site do Museu do Vaticano, perante a fila de centenas de metros de gente que aguardava vez para compra de bilhetes.

Lá dentro pouco depois de chegarmos, facilmente nos fomos perdendo, principalmente no seio das esculturas, na beleza da decoração dos tectos, levados de rasto pela babel de milhares de pessoas que, como nós, estávamos por lá nesse dia. Fui, como é evidente, à Capela Sistina e olhei para o seu tecto, belo mas demasiado longínquo para não se sair dali com um pingo de frustração. Inesperados foram os vigorosos “shius” que se escutavam, de tempos a tempos, vindos da voz amplificada de um dos guardas, ecoando na sala e abafando o burburinho da multidão.

A oferta do Museu é muita e o período de um dia dá apenas para uma volta lambida. Felizmente havia, pelo meio, um self-service com oferta variada, de gastronomia simples que ajudou a retemperar forças e apaziguar os sentidos para uma jornada enriquecedora que se prolongou até ao fecho, lá para o final da tarde. Depois, foi tempo de percorrer a via Ottaviano, para apanhar o metro do mesmo nome, rumo ao descanso merecido.

Fotos: José Miguel Dentinho e Isabel Dentinho