O Indiana Jones português

Na tarde do dia 24, estivemos na Lourinhã e pudemos testemunhar como a  vila se desenvolveu, em grande parte devido a uma família apaixonada por fósseis que colocou esta área no mapa como a capital dos dinossauros. Octávio Mateus é hoje o investigador no museu e o irmão Simão Mateus é o responsável científico pelo Dino Parque. Ao acompanhar Octávio pelas ruas da Lourinhã, percebe-se que é uma celebridade acarinhada pelas pessoas da terra. O professor e investigador é uma referência mundial nesta área de estudo, mas mantém a sua modéstia.

Foi um privilégio visitar o museu e o Dino Parque ciceroneadas por este professor, com uma capacidade de comunicação invulgar e uma enorme paixão pelo que faz. “Ela vai ser a primeira pessoa em milhões de anos a ver este fóssil”, dizia para nós, referindo-se ao minucioso trabalho de escavação de uma aluna. Não conseguimos  deixar de ficar também empolgadas com a imaginação desse momento.

Tudo começou em 1993, como escrevi em 2015, para uma revista que iria ser lançada, mas cujo título nunca chegou a sair das ideias. Reproduzimos em baixo esse texto, pois mantém a sua atualidade.

Octávio Mates em trabalho de campo.

No campo, Isabel Mateus baixou-se para ajudar a filha de três anos e reparou numa lasca castanha, com um centímetro de comprimento e um milímetro de espessura: uma casca de ovo de dinossauro com 150 milhões de anos. O achado levou à descoberta de um dos maiores ninhos do mundo e o único na Europa com embriões. São os mais antigos alguma vez descobertos.

Porque é que aquele pequeno fragmento lhe saltou à vista e como percebeu a sua singularidade? Para total compreensão, esta narrativa exige um flashback. Recuemos, pois, ao final dos anos 70 do século passado na Lourinhã. Como todos os jovens, Isabel e Horácio Mateus queriam aventura e tinham a espeleologia como hobby. Exploravam as grutas da região quando descobriram uma necrópole neolítica, com dezenas de esqueletos humanos e muitos fósseis. Perceberam que tinham em mãos um achado singular, mas tiveram a sensatez de reconhecer que não tinham conhecimentos para lidar com ele. O arqueólogo João Zilhão foi chamado ao local e, em 1982, começou as escavações.

Os jovens passaram a dedicar-se à arqueologia. Mas na Lourinhã a qualquer passo pode tropeçar-se num dinossauro. Com a profusão de achados, deram o salto para a paleontologia, trabalhando de forma voluntária nas escavações. Acumulavam-se os fósseis e uma colecção arqueológica importante, que merecia estar num museu que não existia. “Na altura Portugal estava a transitar de país rural muito agrícola para país industrializado e moderno. E muito material estava a ir para o lixo, eram velharias. O meu pai teve a visão de que aquele material etnográfico tinha valor. Fez-se uma exposição etnográfica no inicio dos anos 80 e com isso o museu rapidamente foi preenchido por doações da população”, conta Octávio Mateus, filho dos fundadores do museu e actualmente responsável pela área de Paleontologia.

A história da Lourinhã confunde-se com a desta família. No Museu e no Dino Parque encontram-se uma das mais elevadas densidades de dinossauros relevantes para a ciência. Existem cinco holótipos, o espécime-padrão. Numa das salas está o ninho descoberto por Isabel Mateus. São estes animais extintos que dão projecção internacional à vila da Estremadura, que reclama a condição de “capital mundial dos dinossauros”, uma área muito rica em dinossauros do período Jurássico superior.

Octávio Mateus costuma  dizer que nasceu num ninho de dinossauros

Octávio Mateus nasceu a 31 de Janeiro de 1975. Costuma  dizer que nasceu num ninho de dinossauros. As razões são múltiplas e, conjugadas, encaminharam para esta área de estudo o jovem que dispensava os jogos de computador para ir para o campo observar aves. Cresceu na Lourinhã e desde os quatro anos que procura fósseis de dinossauros, acompanhando os pais no trabalho de campo. Foi o terreno fértil para que aos sete anos fizesse a sua primeira escavação arqueológica, numa necrópole neolítica, e aos nove anos registasse a sua primeira descoberta científica suficientemente interessante para integrar o espólio de um museu. Ainda tem a fotografia, segurando o dente de um Torvossauro, um dinossauro carnívoro.

Em 1991, com apenas 16 anos, participou na sua primeira grande escavação de dinossauros. Descobriram na praia de Porto Dinheiro, próximo da Lourinhã, um saurópode, dinossauro de grande porte e pescoço comprido, a que deram o nome de Dinheirosaurus Lourinhanensis. “Não há uma fronteira nítida em que deixo de ser o teenager explorador e em que começo a ser cientista.” Enquanto estava a cursar Biologia na Universidade de Évora, em 1994, integrou a escavação no ninho de dinossauros que a sua mãe descobrira, encontrando ovos com embriões no seu interior. Em 1996, já liderava a escavação. A sua primeira publicação científica data de 1997 e é sobre este ninho de dinossauros: “Postura, ovos e embriões de dinossauro terópode do jurássico Superior da Lourinhã, publicado na revista da Academia francesa de ciências Comptes Rendus de l’Academie des Sciences Series IIA Earth and Planetary Science. Os seus pais, Isabel e Horácio, eram os primeiros autores, o professor Telles Antunes, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL), e Philippe Taquet, entre outros, eram também autores.

Doutorou-se em Paleontologia pela FCT-UNL, onde é professor associado de Paleontologia no Departamento de Ciências da Terra. “Trabalho com dinossauros, animais mortos e extintos, para estudar a evolução dos animais em geral, e compreender a vida. A paleontologia é um ramo de duas árvores, com fundamentos na geologia e na biologia. Vejo-me simultaneamente como biólogo e geólogo.” É um dos cientistas portugueses de craveira internacional. Com mais de 100 artigos científicos, proceedings de conferências e capítulos de livros, sendo um deles um artigo na prestigiada Nature, descobriu o primeiro dinossauro de Angola, o Angolatitan, e liderou a investigação que descreveu o primeiro dinossauro da Bulgária. Com a descoberta e a publicação do artigo, os cientistas têm o privilégio de os baptizar “Os dinossauros nasceram há 150 milhões de anos e nascem segunda vez quando os baptizamos”, diz o cientista que descobriu e deu o nome a 18 novas espécies para a ciência.

A 300 metros da sua casa, Octávio fez uma descoberta e até o seu cão já encontrou um dente de dinossauro.

A Formação da Lourinhã é um dos mais importantes centros de paleontologia de todo o mundo. “Em termos de idade, de características da formação e de tipo de dinossauros é semelhante à Formação de Morrison, na América do Norte. A Formação da Lourinhã vai de Peniche a Torres Vedras. A de Morrison vai do Canadá ao Novo México: é um território gigantesco, mas tem apenas duas vezes e meia mais espécies. Portugal está entre os 10 países mais ricos em géneros de dinossauros”, assegura o professor. Estados Unidos, Canadá, China, Argentina ou Mongólia estão também entre os países mais ricos em dinossauros, mas os vestígios espalham-se por extensos territórios desérticos. Na região da Lourinhã, pelo contrário, numa pequena extensão povoada encontra-se uma grande densidade de vestígios. A 300 metros da sua casa, Octávio fez uma descoberta e até o seu cão já encontrou um dente de dinossauro.

Os dinossauros viveram durante 160 milhões de anos, no período Tiássico, Jurássico e Cretácico. O mais famoso dinossauro é o Tyrannosaurus rex, do Cretácico superior, da América do Norte. Na Lourinhã descobriram-se dinossauros muito mais antigos, do Jurássico superior. “Quando o Tiranossaurus rex dominou o mundo já os dinossauros da Lourinhã eram fosseis há 85 milhões de anos! A distância temporal do Tyrannosaurus rex até nós é mais curta do que do Tyrannosaurus rex para os dinossauros da Lourinhã”, compara o professor. É certo que na Europa se encontraram dinossauros mais antigos, do triásico, mas o que torna a Lourinhã especial é a conjugação da idade e da diversidade.

São desta zona os primeiros achados de dinossauros no nosso país. A 20 de Junho de 1863, em Porto das Barcas, o geólogo Carlos Ribeiro (1813-1882) observa um dente de um dinossauro carnívoro, possivelmente um Torvosaurus. Na estante do gabinete de Octávio Mateus, no campus da Faculdade do Monte da Caparica, encontra-se um exemplar do livro Dinossauros de Portugal, publicado em 1957 pelo paleontólogo russo Georges Zbyszewski (1909-1999), de diminutivo Zby, em co-autoria com Albert F. de Lapparent, que refere o achado de Carlos Ribeiro e em que outras espécies são baptizadas. É o caso do Lusotitan atalaiensis, encontrado na aldeia de Atalaia, a três quilómetros da casa onde mora Octávio Mateus. “Conheci Zbyszewski já ele era muito velhote. Andava nos sítios onde eu andava.” Em 1996, Octávio Mateus descobriu em Vale de Pombas, junto à localidade de Paimogo, sobre o Atlântico, um novo género eespécie de dinossauro do Jurássico Superior, com 150 milhões de anos, que baptizou Zby atlanticus, em homenagem a este cientista. É um saurópode de grandes dimensões (estima-se que teria entre 18 e 19 metros de comprimento), cujos ossos originais estão no Dino Parque da Lourinhã e uma réplica na fachada do museu da vila, o que torna este espécime muito fotografado.

O seu trabalho já o levou a escavações à Alemanha, Angola, Argentina, Brasil, Espanha, Estados Unidos, Gronelândia, Tunísia, Marrocos, Moçambique e Mongólia.

Octávio Mateus caça fósseis de dinossauros e outros vertebrados à porta de casa ou em locais remotos do planeta. O seu trabalho já o levou a escavações à Alemanha, Angola, Argentina, Brasil, Espanha, Estados Unidos, Groenlândia, Tunísia, Marrocos, Moçambique, Mongólia. Algumas foram “saídas de campo”, outras grandes expedições, como a que o levou ao Laos. “Foi uma das melhores experiências da minha vida”, resume.

1998, numa pequena aldeia na província de Savannakhet, no Laos. O português Octávio Mateus estava na sua primeira expedição científica internacional, à procura de fósseis de dinossauros e de outros vertebrados. Fora convidado a integrar uma missão de cientistas franceses liderada por Philippe Taquet, paleontólogo francês que fora director do Museu Nacional de História Natural de Paris e que conhecia das escavações na Lourinhã.

Mal a equipa chegara, recebeu um aflito pedido de socorro: uma criança fora mordida. A região tem a maior densidade de mambas verdes, serpentes cujo veneno mata em menos de 24 horas. Uma enfermeira da equipa tinha uma mala de primeiros socorros e o indispensável extractor de veneno, uma espécie de seringa de vácuo. A serpente não deveria ser venenosa, pois o rapaz sobreviveu. No dia seguinte, duas ou três pessoas que necessitavam de auxílio médico procuraram a equipa de europeus. E todos os dias crescia a afluência dos que caminhavam quilómetros para procurar cuidados médicos ou alívio para as suas maleitas. O caso mais impressionante foi o de uma menina, de cerca de três anos, com uma grave infecção na perna, que abrira um buraco deixando o músculo exposto. Precisava de ser conduzida a Savannakhét para ser tratada. Os pais não podiam pagar o transporte e o hospital, e a expedição suportou esse custo. “Foi cerca de 8 contos (40 euros), uma ninharia. O médico disse que mais 24 horas e teria morrido. É o preço da vida de uma criança naquele sítio. Mexe connosco”, conta Octávio Mateus, emocionado.

Ao reviver as histórias do Laos, por várias vezes fica de voz embargada e olhar humedecido, recordando a interacção com a população local. Mas não esqueçamos que estava ali para estudar dinossauros. Próximo de Ban Nakapong existem vestígios de dinossauros que foram descobertos pelos aldeões. “Segundo a mitologia local, o búfalo sagrado puxa o sol todos os dias. Quando se cansa morre e ali estavam os seus ossos. Era sempre necessário fazer referência aos deuses locais para podermos escavar os ossos sem problemas”, conta. Não se pode dizer que houve um choque cultural, pois a expressão indicia incompreensão. A mente racional do cientista lida com as idiossincrasias das culturas dos locais em que trabalha com respeito e ternura não paternalista.

Depressa os locais se aperceberam que Octávio Mateus gostava de répteis e anfíbios, pois andava sempre a observar os animais. Um dia falaram-lhe no lago sagrado dos crocodilos e levaram-no ao local: um pântano não perturbado há muitos anos. Um pequeno crocodilo mergulha, a dois metros. Octávio observa alguns excrementos. “Eram de uma espécie de Crocodylus siamensis que há 40 anos não era observada em vida selvagem. Aquela era a primeira observação directa documentada! Fiz um artigo científico”, conta exultante.

Perante o seu entusiasmo, recomendam-lhe: tem de ver a tartaruga sagrada do templo. Numa jaula muito suja no templo de Ban Nakapong, está uma tartaruga terrestre com uns 30 centímetros de carapaça. Octávio Mateus quer fotografar o animal e pede para a lavarem. Os aldeões discutem muito entre eles, mas acabam por aceder ao seu pedido. “No dia seguinte choveu. E eles disseram-me: “Eu sabia! Lavámos a tartaruga, tinha de chover no dia seguinte”.

Octávio Mateus é o Indiana Jones português: professor universitário e investigador à caça de fósseis em paragens longínquas.

As histórias sucedem-se ao ritmo do entusiasmo com que recorda a estada em paragens tão longínquas e culturalmente afastadas. Octávio Mateus é o Indiana Jones português, um professor universitário e investigador, cuja actividade científica faz dele um aventureiro em paragens distantes e exóticas. As narrativas têm momentos de perigo, de emoção e de divertimento. Usa até o chapéu, indispensável para o proteger do sol. Só que em lugar do chicote, vemo-lo no terreno com as ferramentas de um palentólogo: a pá, o escopro, o martelo, o pincel.

O verdadeiro Indiana Jones que inspirou a personagem dos filmes de George Lucas e Steven Spielberg era o paleontólogo Roy Champman Andrews, investigador do Museu de História Natural de Nova Iorque que usava chapéu, pistola no coldre e uma sacola, e se imortalizou pelas expedições efectuadas entre 1922 e 1930, no deserto de Gobi, onde descobriu os primeiros ninhos de ovos de dinossauros. Octávio Mateus foi o primeiro português a seguir as suas pegadas na Mongólia, numa expedição científica de 34 dias, realizada em 2007 e liderada pelo paleontólogo da Academia de Ciências da Mongólia Richen Barsbold. As escavações desenvolveram-se em Shine UsKhuduk (leste) e Kermen Tsaav (oeste), numa área no deserto de Gobi já anteriormente visitada por paleontólogos mas com muitos pontos inexplorados, sem vivalma em redor, em que um dos maiores receios é perder-se. Enfrentaram temperaturas com uma amplitude de 52 graus centígrados durante o dia e -1º de noite, e uma tempestade de areia com ventos de 100 km/h, que durou o dia inteiro.

Noutras geografias, os desafios eram muito diferentes. Em Julho de 2012, Octávio Mateus tornou-se o primeiro português a integrar uma expedição internacional de três semanas para escavar achados de dinossauros em Jameson Land, na zona leste da Gronelândia. A expedição foi liderada por cientistas dinamarqueses e financiada pelo museu de paleontologia MoensKlint Geocenter, do sul da Dinamarca, como forma de promoção e atracção de mais visitantes. Os paleontólogos sabiam da existência de dinossauros e outros fósseis na região, mas o local não era visitado por seres humanos há 17 anos. A equipa de onze pessoas, das quais seis paleontólogos dinamarqueses e americanos, foi transportada de helicóptero, a partir da Islândia. Ficaram isolados do exterior, mas em situação de emergência, como tinham telefone por satélite, poderiam ser resgatados. Tinham consigo duas pessoas treinadas e experientes em sobrevivência naquela região polar, uma das quais um militar que integra as forças especiais dinamarquesas. Foi ele quem treinou os cientistas a disparar. “O urso polar é o único predador da actualidade que caça activamente humanos. Pode andar dias a perseguir um humano para ver se os apanha.” Era imperioso andar com uma carabina e pistolas de alarme.

Sou defensor de que o espólio paleontológico pertence à região ou país onde foi descoberto.

Escavaram oito toneladas de fósseis que tiveram de ser retirados do local, por helicóptero. “Sou defensor de que o espólio paleontológico pertence à região ou país onde foi descoberto. Não vou a outros países escavar coisas para Portugal. É tudo feito by the book, com todas as autorizações formalizadas. Tem de ser assim porque queremos que seja uma cooperação de longo prazo”, esclarece Octávio Mateus. No seu gabinete tem ainda fósseis da Groenlândia ou de Angola, que depois de preparados e estudados em laboratório regressarão aos respectivos países. “Tenho aqui algumas tartarugas da Groenlândia, do triásico, uma das mais antigas tartarugas do mundo.” Tira de uma caixa e mostra rocha avermelhada e pequenos ossos, alguns ainda embrulhados.

Um dos principais projectos científicos em que actualmente está envolvido é de paleontologia de vertebrados, o PaleoAngola, no âmbito do qual descobriu o primeiro dinossauro do país, com geólogos e paleontólogos portugueses, angolanos, norte-americanos e holandeses.

Aqui segue os passos do professor Miguel Telles Antunes, da FCT-UNL, seu orientador de doutoramento, que na década de 1960 realizara pesquisas em Angola, interrompidas durante a guerra. A ideia de retomar esta investigação ganhou forma quando num congresso encontrou Louis Jacobs, professor norte-americano da Southern Methodist University, autor de Em Busca dos Dinossauros Africanos, de 1993. Em 2005 fizeram um visita de reconhecimento de pouco mais de uma semana a Angola. Percorreram os mesmos locais estudados por Telles Antunes, na província do Namibe e no Ambriz,e encontraram muito mais do que esperavam. A expedição estava a terminar e Louis Jacobs regressara já ao Texas. Octávio Mateus ficou ainda mais dois ou três dias em Angola.  A 25 de Maio, de 2005, num só dia descobrira o primeiro dinossauro angolano, uma nova espécie para a ciência, a que chamou Angolatitã Adamastor e a mais antiga tartaruga marinha de toda a África, um género e uma espécie novos para a ciência que baptizou de Angolachelys mbaxi. “É uma emoção. Aquilo era marinho, não era provável encontrar dinossauros, que são puramente terrestres. E logo um dinossauro saurópede, que são aqueles que eu tenho estado a trabalhar. UAU!”, exclama, recriando o entusiasmo da descoberta.

Com tantas descobertas e algumas ainda no terreno, decidiram regressar, o que tem acontecido todos os anos, explorando a faixa litoral desde Cabinda, a norte, até ao Namibe, a sul. Parte das férias de 2014 foram aí passadas, a trabalhar. A companheira de Octávio Mateus, que conheceu no museu da Lourinhã, onde era voluntária, é professora de português, mas acompanha-o muitas vezes, pois gosta das escavações.

Temos um património absolutamente extraordinário e um orçamento absolutamente ordinário.

“Não há financiamento em Portugal para desenvolver esta investigação. Todas as minhas expedições internacionais foram financiadas com bolsas do exterior”, lamenta Octávio Mateus.  “Temos um património absolutamente extraordinário e um orçamento absolutamente ordinário. Não podemos ter o mesmo financiamento para uma coisa em que somos riquíssimos que para outra em que somos paupérrimos”, advoga.

Ser-se cientista é para Octávio Mateus sinónimo de partir à descoberta. Isso pode acontecer em locais remotos como o deserto de Gobi ou a Groenlândia, ou no laboratório, onde prepara e estuda os fósseis que recolhe. Na paleontologia o que gostaria de descobrir é algo que não estou à espera. Isso é o fascinante de descoberta.” A expectativa da descoberta é maior nas escavações. Essa é a parte cinematográfica do seu trabalho. A beleza dos locais des escavação ou a interacção com as populações locais constituem dos motivos de deleite de Octávio Mateus com a sua profissão. “Na Gronelândia havia um ponto a que chamávamos ‘escarpa do fim do mundo’, com 200 metros de altura, sobre um fiorde. Conseguíamos ver umas montanhas que estavam a 300 quilómetros de distância. Não há muito vento naquela zona e o silêncio é total, nada, numa paisagem absolutamente avassaladora. E com fósseis!”, exclama entusiasmado como uma criança perante um brinquedo novo. Ele que em criança nunca teve bonecos de dinossauros. Para o jovem Octávio estes animais eram “muito mais reais e e interessantes.” Afinal, andava pelos campos à caça deles.

 

Leia aqui o testemunho de Octávio Mateus sobre As mulheres da minha vida”.

Veja a TEDx Talk de Octávio Mateus, aqui.

Dinoparque da Lourinhã