Idiomas

Não sou bilingue nem nunca estudei noutra língua sem ser o português. No entanto, a minha vida profissional tem-me obrigado a estar em contacto com outros idiomas. Mesmo que a maioria das reuniões internacionais sejam em inglês ou espanhol (no meu caso), sempre se escuta e se tenta compreender e conversar, ou ouvir falar, em francês, alemão, italiano. E cada uma delas tem o seu encanto e até uma ligação à forma como os povos a fizeram evoluir.

O inglês é explicado, simplificado, quase universal. Se a língua tivesse de ser humanizada, diria que seria um actor ou uma actriz a declamar, em frases curtas, verbos simples, paragens certas, um texto ou uma história. É um dialecto que quase toda a gente conhece, como a expressão física quando comunicamos. Faz parte da nossa vida e é complicado dar-lhe muito sentimento ou emoção. É prático.

Já o francês, não. Imagino-o sussurrado. Ao ouvido, por entre copos de vinho num tête-à-tête, a dizer poemas de amor, a partilhar confidências, num tom rouco, quase gutural.  Frágil, mas leve e suave, a pairar por entre cafés, cigarros fumados por lábios pintados de vermelho, burburinhos de uma vida social com sons de um acordeão de fundo que nos embala. É romântico.

O italiano é o oposto. É vociferado e clamado, todo ele é movimento, emoção, excesso. Se fosse um abraço, era apertado até ao peito e ficaria a agarrar-nos por largos segundos. As palavras em italiano obrigam-nos a abrir os lábios, a boca, o peito, a levantar as mãos e os braços. É uma mesa cheia de boa comida, amigos a falar com tanta alegria que soa a zangado, risos e cantigas e muito barulho. Mas não deixa de ser melodioso, de ter harmonia. Qual Verdi, cantado do fundo do peito, transmitindo as sensações e os sentimentos comuns a todas as classes, mas sempre com uma superioridade elegante que, mesmo nos momentos mais arrebatados, não nos incomoda. É festivo.

O alemão obriga a paciência para ser compreendido. Tem palavras longas, o verbo vem no fim das frases o que exige que o outro termine a sua conversa para percebermos onde quer chegar. Já tentei estudar alemão e fiquei apenas pelo suficiente para não morrer de fome. O tom é agreste, da garganta, rasgado. É um idioma difícil, de sons e palavras longas e complicadas, exigente e que obriga a atenção e calma para se chegar a ele. É sério.

Depois vem o espanhol. Eu adoro o espanhol. A língua tem de ser enrolada, colocada levemente por entre os lábios, no topo do palato, mexe-se freneticamente para conseguir o sotaque castelhano. Como uma dança sensual, mas com um ritmo quente, com uma batida que obriga a mexer o corpo. Imagino-me sempre a bailar, a ocupar o salão para conseguir vivenciar o idioma na sua plenitude, em voltas e contravoltas, passos que mexem as ancas, os braços, toda ela é movimento e espaço. A língua espanhola alegra-me. É bailado.

Finalmente, vem o nosso português. Para mim é a língua falada, conversada. Complexa nos seus verbos, nas variações dos adjectivos e das palavras. Rica, abundante, mas ao mesmo tempo pouco aproveitada. Ou valorizada. Com sons únicos que só existem no nosso idioma e que dificilmente um estrangeiro consegue repeti-los durante toda a sua vida. O meu nome tem dois deles: o “ês” e o “ão”. Nome difícil para quem tem uma carreira internacional. Mas, lá está, adaptamo-nos e eu já tornei o meu nome para “Iniesh” ou “Ainess” e o apelido para o “Brrrrandáu”.  É profundo.

Discuto e negoceio mentalmente quase sempre em inglês. Deve ser defeito de profissão e da vida que levo. E de todos filmes e series que nos entram pela casa dentro.

Gosto muito da minha língua. Admiro e orgulho-me da sua luxuosa composição, de como posso escrever um texto complexo com palavras mais ou menos simples. Este jogo que só se ganha quanto mais se lê, se estuda.

Mas se me quero animar, é o espanhol. Es que me encanta. Pues que me hace muy feliz!

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