Filhos: anjos e demónios

A minha mãe tem aquela coisa tão de mãe que é apenas lembrar-se do que os filhos tinham de bons em pequenos. A mesma ferramenta emocional que permite às mães de bebés que passaram o primeiro mês a acordar de hora a hora terem vontade de ter mais bebés. A minha mãe é tão mãe ao ponto de me recordar como uma adolescente afável, mesmo perante tão óbvia contradição.
Mas esta beatificação das crianças é saudável feita à distância de 20/30 anos. Claro que nunca seremos 100% objetivos em relação aos nossos filhos. Até mesmo os que se esforçam por lhes reconhecer defeitos, arriscam-se a retirar-lhes algumas legítimas virtudes. Um equilíbrio extremamente difícil este entre a condenação e a veneração. A minha sogra costuma contar que, certo dia, foi chamada à escola, e enquanto outras mães juravam ser impossível o comportamento menos católico das suas crianças, ela perguntava: “Só isso? O meu Francisco é capaz de muito mais!”
grupo de crianças

Diabinhos com caras de anjo.

No outro dia recebi cerca de 6 miúdos para lanchar e fiquei um pouco assustada com a possibilidade de os meus filhos terem semelhantes atitudes em casa das outras pessoas. Uns só bebiam o leite x, outros detestavam a minha manteiga e houve mesmo quem praticamente vomitasse para cima das panquecas que me esmerei a fazer. Para não falar da mãe que trouxe um único pacotinho do sumo preferido da filha: “ela é um pouco esquisita, sabe…”
A minha mãe não, mas eu lembro-me de ser esquisita, de não gostar de iscas, de torcer o nariz ao arroz de grelos, de tentar fazer greve aos brócolos… E a minha mãe é tão mãe que nem sequer se lembra de me ter peremptoriamente mandado à fava.