E se…

Vivemos num período de incerteza permanente. Já vivíamos antes da pandemia, mas a mesma acentuou a dúvida.

Muitos são os cenários que os economistas e tantos outros comentadores projectam para os próximos tempos, como se as variáveis do pânico ou do excessivo entusiasmo estivessem projectadas numa equação econométrica.

Desenhar cenários de regressão da economia entre 4% e 20% é o mesmo que dizer que qualquer coisa pode acontecer, pois variar a incerteza entre um cenário e outro que lhe é 5 vezes superior é o mesmo que dizer que pouco ou nada se sabe sobre o que vai ocorrer.

Na vida empresarial, um gestor que projecte qualquer cenário, em que qualquer um deles é válido, não está a gerir, está a tentar adivinhar. Mais do que adivinhar, os gestores precisam de projectar acções, ideais e contingentes, para trilhar o seu caminho, o único meio de descortinar quão longe está a luz ao fundo do túnel.

Tal como um dos traços da escrita de Saramago, que se projecta para cenários assentes no condicional (Ensaios sobre a Cegueira, Morte ou Lucidez, Todos os Nomes e mesmo a Jangada de Pedra), a economia vive hoje no contexto do “e se…”

  • E se os consumidores desatarem a comprar tudo desenfreadamente?
  • E se deixar de haver futebol com público?
  • E se não formos de férias porque não há hotéis abertos nem os voos pretendidos?
  • E se os congressos, eventos, espectáculos, restaurantes, transportes apenas reabrirem para 25% da sua capacidade?
  • E se as marcas que financiam todas estas actividades, resolverem anular ou adiar os seus investimentos?
  • E se não acontecer nada isto, mas o seu contrário?

Traçar previsões que albergam qualquer resultado é um exercício de estultícia, ora porque bate sempre certo, ora porque mais tarde se torna inútil. É apenas um entretenimento do momento.

Com explicação assente nesta pandemia, muitas são as empresas que viram afectadas de forma drástica o seu desempenho e, em muitos casos, a sua sobrevivência (ex. microempresas de retalho ou de serviços). Outras tornaram a ver a luz do dia depois de estar no fim da linha (ex. fornecedores de material têxtil médico e hospitalar). Entre os consumidores, ela obrigou-nos a descobrir parte dessa nova realidade: na educação, na comunicação, na interacção com os demais, no e-commerce, etc…

E que empresas e negócios irão passar incólumes continuando a projectar uma linha de continuidade face à estratégia desenhada? Aquelas que traçaram um caminho marcado pela transformação digital, assente num modelo de negócio orientado para aquilo a que se costuma chamar customer centricity e que nada tem a ver com vendas ou marketing, mas com a responsabilidade da organização como um todo em pensar e agir em função dos seus clientes, desde o CEO, CFO ou COO.

Não esqueçamos: a pandemia é um fenómeno novo, do qual não se conhece ainda o fim, mas há outros episódios deste novo mundo que caminham a passos largos para redefinir o modus vivendi de amanhã: o 5G, a Inteligência Artificial, a Robótica, a Realidade Virtual e Aumentada, entre outros.

Ainda iremos aprender a viver nessa realidade e a moldar o nosso dia-a-dia em função desta nova era.

Da pandemia, espera-se que passe e que seja o mais rapidamente possível. Da evolução da vida das empresas, fica a certeza de que apenas sobreviverão e serão bem-sucedidas as que incorporarem no seu modelo de negócio o foco no cliente.

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