Dias de Ronda em terras da Andaluzia

 

Ronda tem um precipício que a divide. Fica num lugar alto, serrano, de onde se pode ver uma paisagem atraente, limitada, ao longe, por terras ainda mais altas. Tem o tamanho certo para ser vista a pé, apesar de alguns dos seus declives e uma arquitectura e outros atractivos que vale a pena desfrutar. E é também um lugar onde se pode comer bem, sem gastar demais, o que não é menos importante.

A cidade aninha-se junto ao seu desfiladeiro.

Paragem para o peixe frito

Quando a Cristina me desafiou para irmos a Ronda, ponto do mapa que tinha visitado, há muitos anos, lembrei-me logo que poderíamos dar uma volta maior e passar por Puerto de Santa Maria, que visitara, há mais anos ainda, para matar saudades de “Pescaito frito” local. Foi o que fiz.

O local escolhido para o fazer foi o Romerijo, no centro da cidade. Mas apenas porque foi o primeiro que nos apareceu à frente, já que a oferta de peixe e marisco nesta terra é vasta e variada. Neste tipo de estabelecimentos, escolhe-se primeiro, ao balcão, os peixes e mariscos fritos, ou cozidos, e as doses que se quer levar. Depois, é tudo acondicionado em cartuxos, que o cliente transporta para a mesa, onde são servidas as bebidas. Escolhemos cerveja, mas apenas porque havia mais alguns quilómetros a fazer. E por ali ficámos algum tempo, a saborear ovas de pescada, biqueirões e choquinhos fritos, com vontade de prolongar o repasto tarde adentro. Mas ainda tínhamos muito que palmilhar.

O objectivo seguinte era Gibraltar, também para uma nova visita rápida, só para recordar. Depois de algum tempo de estrada, pela costa andaluza, cruzámos a fronteira, a pista de aviação e estacionámos num silo cidade adentro, o mais próximo possível do teleférico, que demandámos com celeridade, pois já eram 18h locais.

O preço para subir e descer, 19,5 euros, era bem puxado, mas o tempo escasseava e tínhamos ido ali para aquilo. Por isso, subimos e usufruímos de todas as vistas possíveis, já que o rochedo estava nublado de um lado. Entretivemo-nos, como toda a gente que lá estava, a tirar fotos uns aos outros, e aos macacos-de-gibraltar, ou macaco-berbere, o único primata, para além do homem, que se pode encontrar em liberdade na Europa. Menos de uma hora depois, e com alguma satisfação pelo momento vivido, voltámos de novo ao parque, e ao automóvel, com celeridade, pois o estacionamento ali também faz doer a bolsa do ser humano comum.

 

Grelhada mista à beira do precipício

O caminho para o objectivo final da viagem, Ronda, não foi fácil, feito através de mais de 30 km de estrada de curvas no meio da serrania, numa altura em que a noite estava a cair. Talvez por isso, a chegada ao Hotel D. Miguel, bem perto da Ponte Nova sobre o Rio Guadalevín, foi um alívio para todos.

É verdade que não foi, nem de perto, o melhor hotel onde ficámos. Faltava a terceira cama, que reservámos e pagámos bem caro, algumas toalhas, os comandos da TV e o chuveiro estava a precisar de reforma. Mas a simpatia e predisposição para ajudar das pessoas do hotel foi muito boa, e atenuou o sentimento deixado pelas faltas. De qualquer forma, dificilmente aconselharia este hotel a alguém, pois há, com certeza, opções melhores na cidade.

Nessa noite, o jantar na esplanada do hotel, à beira do Tajo de Ronda, desfiladeiro com quase 100 metros de altura que divide a cidade, foi recompensador. Começou com uma Porra (7 euros), sopa de substância tradicional da Andaluzia, e continuou com uma grelhada mista (28 euros) muito bem composta, de carnes de vaca e porco, na companhia de um Rasgón 2016, um tinto de Castela da casta Syrah, bem equilibrado, servido à temperatura certa. Apenas um apontamento, para referir que este era o vinho da casa, e custou 8,5 euros.

O primeiro passo do dia seguinte, a seguir a um pequeno-almoço de torradas e cafés com leite tomados fora do hotel, por um preço muito mais em conta, foi a visita à Real Maestranza de Caballeria de Ronda, a primeira das cinco escolas do género criadas em Espanha a partir do século 16, com Sevilha, Granada, Valência e Saragoça. Só dois séculos mais tarde é que foi construída a praça de touros anexa, espaço essencialmente museológico, já que apenas alberga 3 corridas por ano, uma delas a corrida Goyesca, o principal festejo da Feira de Pedro Romero, que decorre no início de Setembro. E vale bem a visita a todo o espaço, que inclui o picadeiro, o touril, a extensa praça, o museu tauromáquico e colecções que ilustram a história da maestranza e cavalaria espanhola. Fizemo-la com audioguia, o que nos ajudou a compreender melhor a história e essência do local.

Almoço encostado à muralha

Mais de um par de horas depois, já com a temperatura acima dos 35 graus, demandámos a Ponte Nova, que atravessa o Tajo de Ronda. É uma paisagem única, que nos leva a procurar afincadamente a posição certa para a melhor fotografia. A verdade é que voltei lá várias vezes, e até fui ao fundo do Tajo, bem perto do curso do rio Guadelvín, mas não consegui ficar satisfeito. Talvez numa próxima vez, daqui a mais 20 anos.

Gambas fritas e batatas bravas no De Locos Tapas.

O almoço desse dia decorreu cidade abaixo, De Locos Tapas, à beira da muralha da cidade. É um pequeno bar, com um balcão e algumas mesas cá fora, com uma lista surpreendente de sugestões e sabores, a corresponder à decoração simples, mas atractiva, com que chegavam à mesa. Um par de copos de branco da casta Verdejo, de Rueda, como companhia, e tudo fluiu de forma a nos dar prazer. Saliento o salmorejo, as batatas bravas, a gamba frita com molho thai e o pato fumado, numa refeição que terminou numa apoteose doceira, uma deliciosa bola de chocolate a lembrar um brigadeiro, polvilhada com manga seca. Retemperadas as forças, passámos ao objectivo seguinte, ao pequeno Museu do Bandoleiro, espaço dedicado aos bandidos, meliantes ou o que se queira chamar, que assaltavam por aquelas terras cheias de serras e de lugares esconsos, feitos para despistar a polícia noutros tempos.

O último bandoleiro

Entre os muitos, cujas histórias e fotos se sucediam nas paredes das salas do museu, destaco Passos Largos, o último bandoleiro activo nas serras de Ronda, morto a tiros de bala, como não podia deixar de ser, a 18 de Março de 1834, com mais de 60 anos. Gostei de estar ali, entre histórias de bandidos de outros tempos, a aprender mais um pouco. A maioria morreu jovem, antes dos 30, também baleada pela Guarda Civil espanhola. Dedicavam-se todos assaltos, e alguns deles deixavam parte do dinheiro e outros haveres aos assaltados, para que pudessem continuar a sua vida sem morrerem à fome. Eram outros tempos e outras vidas, mas foi interessante ler, ainda que por instantes, histórias de bandidos contadas de forma pouco hollywoodesca.

À saída o estio apertava ainda mais um pouco, e foi necessário beber mais água fresca para ir colina abaixo, pelo meio da urbe, passando pelas traseiras do Palácio do Marquês de Salvatierra em direcção à Ponte Velha, para mais umas fotos, e depois até aos banhos árabes, outro monumento de visita obrigatória. À porta, vimos, ao longe, uma pequena manada de cavalos à solta sobre uma colina inclinada, e decidimos ir até lá para mais umas fotos. Depois de algum tempo a observar as brincadeiras dos equinos, tivemos de nos retirar para a sombra de uma fonte perto, antes de atravessarmos o rio na ponte à cota mais baixa da cidade, a de S. Miguel, para enfrentar a subida íngreme e quente que nos esperava no caminho de volta ao centro de Ronda.

Na Cova do Gato

A canseira foi tal, que tivemos de fazer uma pequena siesta de final de tarde, antes de demandarmos o local de repasto que tinha pré-seleccionado para o jantar desse dia, o Gastrobar Tape-Art. De uma ementa vasta de tapas e pratos, saliento o salmorejo, a salada de batata, o bacalhau frito e o foie com cebola caramelizada, que estava uma delícia. O vinho da casa, um Verdejo Alma Mater de 2015, da região de Castelão e Leão, era apenas razoável.

Foie gras com cebola caramelizada no Gastrobar Tape-Art.

Reconfortados e de bem com a vida, voltámos ao hotel para repousar para a jornada do dia seguinte, uma volta de carro de 9,5 horas pelos Pueblos Blancos, que teria sido mais simpática para os sentidos com metade do percurso. Foi o que nos aconselharam, mas não faria o mesmo de novo, apesar da beleza do lugar e das terras visitadas. Foram curvas a mais, em estradas demasiado estreitas, num dia de calor abrasador. O que me valeu mesmo foi a Cova do Gato, onde o rio Gaduares sai do maciço rochoso que atravessa para confluir com o rio Guadiaro. Foi o local onde terminámos o percurso, passava das 18 horas.

A Cova do Gato, nos arredores de Ronda.

Enquanto me tentava equilibrar nas pedras daquela poça de água fria com 8 a 10 metros de diâmetro, e decidia se iria entrar antes que os meus pés e tornozelos passassem a blocos de gelo, um jovem com cerca de 8 anos, mais coisa menos coisa, empoleirou-se no grande pedregulho onde me segurava e perguntou-me com grande à vontade: “Achas que mergulhe daqui, ou entro devagar”? Eu só lhe consegui responder, talvez influenciado pelos cabelos brancos que ornamentam o meu coro cabeludo, que era melhor fazer o que lhe apetecesse, mas que deveria ter cuidado, por que a água estava muito fria. Claro que ele se atirou, dali abaixo, para a zona mais profunda da cova. Como é evidente, tive de ir atrás.

Sugestões em Ronda
De Locos por Tapas
Morada: Plazuela Arquitecto Francisco Pons Sorolla, 7,
Site: de-locos-tapas.com
Tel.: +34 951 08 37 72Gastrobar tape-art
Morada: Calle Comandante Salvador Carrasco, 1
Tel.: +34 951 43 92 75Hotel Restaurante D. Miguel
Morada: Plaza España, 4,
Site: www.hoteldonmiguelronda.com
Tel.: +34 952 87 77 22Museu do Bandoleiro de Ronda
Morada: Calle Armiñán, 65,
www.museobandolero.com
Tel.: +34 952 87 77 85