Dias de Creta: os acepipes a oeste

Fotos: Jorge Miguel Dentinho e Isabel Dentinho

Houve poucas férias em que mais me senti mais retemperado do que as que vivi em Creta, a maior ilha grega. Um par de dias a pernoitar perto de Chania, uma das suas cidades, para ter acesso mais rápido a duas das praias mais belas da ilha, Elafonisi e Balos, mais uma visita à Cretan Brewerie, única produtora de cervejas local, pelo menos segundo as pesquisas que fiz, para uma prova e visita, tiveram o sabor a petisco saboroso, que repetia com prazer.

Vista de Balos ao final do dia.

Praia de Elafonisi, no sul de Creta.

Praias imperdíveis

É verdade que gostei mais de Elafonisi. E não porque se consegue levar o carro quase até à praia, mas sim porque é realmente um lugar com enquadramento sedutor. Como levo sempre óculos e respirador, andei por ali a espreitar o fundo do mar e ver as suas rochas, algas e peixes, antes de vir a terra para saborear o enquadramento da paisagem e tirar fotos, que nunca são suficientes para retratar aquilo que vimos.

Balos, outra praia que parece que foi posta ali para nos tentar, ficou para o final de dia. Paga a portagem para o interior desta reserva da natureza, e feitos os cerca de sete quilómetros de terra batida até à proximidade da entrada, dado que tive de estacionar um pouco mais longe, foi hora de andar mais de dois quilómetros, a descer, entre degraus desencontrados, pedras rolantes e outras opções inclinadas, até a mais esta praia fotogénica. Outro mergulho, na lagoa, mostrou que os peixes locais gostam de debicar a pele dos pés humanos: “Um petisco!”, Pareceu-me que murmuravam entre si.

A subida teve de ser feita em troços, e fez-me abençoar as horas que passo no ginásio a “malhar”. Felizmente pude recuperar parte do líquido perdido com uma bela cerveja, comprada num dos dois barracos do parque de estacionamento, enquanto olhava as embarcações a cruzar a Baía de Kissamos.

No porto veneziano de Chania, os pescadores à cana começam a chegar mais para o final da tarde, depois do pino do calor.

Um porto veneziano

A Chania vai-se sobretudo para usufruir da beleza do seu porto veneziano. E foi o que fizemos, com paragens no Museu Naval. O calor era forte, mas o lugar era verdadeiramente sedutor.

No interior dos museus apenas existiam algumas ventoinhas a amenizar o ambiente e eu recorri a todas, como se fossem oásis no meio do deserto. Por sorte, quando me aproximei de uma das janelas do primeiro andar, que dava para o porto veneziano, uma grande tartaruga verde (são relativamente comuns em Creta) decidiu subir à superfície das águas límpidas. O bulício foi grande, entre os pescadores que enchiam o molhe e a minha emoção também, pois foi o primeiro contacto, ao vivo, com um destes animais. Com isso, claro que me esqueci que estava com a máquina fotográfica na mão e o bicho lá foi à sua vida, indiferente ao que se passava com os seres humanos. E assim fiquei sem imagem, a não ser a que ainda está na minha lembrança.

O Desfiladeiro de Samaria, o segundo maior da Europa, com 16 km de extensão.

Samaria, mas com prudência

Outro dos pontos altos desta zona de Creta é o desfiladeiro de Samaria, Parque Natural e Reserva Mundial da Biosfera, local de peregrinação para quem gosta de paisagens grandiosas e abruptas e de caminhar em terrenos difíceis, molhados e pedregosos. Claro que tive de lá ir. Mas como sou prudente, consegui convencer a família a não fazer o caminho todo, pois inclui 13 km no parque e mais três até Agia Roumeli, aldeia onde só se sai e entra de barco, até Chora Sfakion, onde muitos autocarros esperam os caminhantes para os levar às suas casas e hotéis.

São cerca de 5 a 6 horas de caminhada para os melhores atletas, a descer. Mas pelas caras de alguns dos muitos aventureiros que se cruzaram connosco enquanto subimos, acho que iria precisar de mecânico de humanos para consertar o corpo depois da caminhada.

Por tudo que disse atrás, levei o carro até Chora Sfakion. Em boa hora o fiz, pois, para mim, o esforço físico tem de ser temperado com pausas para descansar, olhar a paisagem e saborear a petiscaria local.

Tomei, em sossego, um segundo pequeno-almoço reconfortante no Forno Douroundos, produtor de pão de grande qualidade, onde nos abastecemos com alguns exemplares escolhidos entre o monte de tentações da montra. Depois foi a viagem de ferry até ao porto de início da garganta, e quatro horas de caminhada, duas a subir e duas a descer, com bastantes paragens, porque o lugar é fotogénico. Os meus filhos foram mais longe ainda, mas nós voltámos para trás calmamente, fotografando pessoas, cabras e ovelhas, as águas do rio, pedras e tudo o que parecia interessante, antes da aventura que foi o almoço.

A perna de porco com molhos de barbecue e mostarda no restaurante Nostos, onde tivemos um dos melhores encontros com a comida da ilha.

Borrego e fumo de borras de café

Em Agia Roumeli escolhemos o Paralia, mas só porque estava mais cheio que os outros e tinha vista de mar. A refeição, costeletas grelhadas de borrego, era boa, como habitual em Creta, tal como a salada grega, e a cerveja bem fresca. Não estávamos era à espera da permanente visita das vespas e do cheiro a borras de café queimadas, que as pessoas do restaurante/esplanada colocavam em cima das mesas para as afugentar. Assim, o repasto decorreu um pouco em sobressalto de cada vez que vinha um daqueles seres alados, atraído pelo tentador cheiro da gordura da carne grelhada. Levei-lhes a melhor, porque só lhes deixei os restos. Terminámos a refeição o mais rápido que pudemos, antes de partimos para o recato da praia ao lado e os mergulhos na água retemperadora, até à hora do ferry partir. Mais de uma hora de viagem e algumas horas de carro depois, pois as estradas de Creta não são fáceis, voltámos ao recato do hotel, prontos para mais outra, que contarei na segunda parte.

A NÃO PERDER:

Praias. Elafonisi e Balos são imperdíveis. Nesta última, há que se guardar cerca de duas horas para descer e subir. Os óculos de mergulho e o respirador são indispensáveis. Também espreitei a praia Seitan, na Península Akrotiri, língua de areia e mar enclausurada entre duas paredes rochosas. Era tentadora, mas a descida não. Por isso, fomos mas ao Mosteiro de Agia Triada, porque era dia de coisas menos físicas, depois de Elafonisi e Balos.

Praia de Seitan Limania.

Cretan Brewery, Fica no meio do campo, em Zounaki Platanias, Chania. Tem de ser fazer um desvio, mas vale a pena para quem gosta de cerveja, até porque a sua esplanada é bem agradável, e a oferta de companhias de comida é simpática.

Restaurante Nostos, na Agia Marina, em Chania. Foi, talvez, a melhor refeição de toda a viagem. Boa comida, bem servida, por pessoal simpático e eficiente. Destaque para a mostra de pratos gregos, que dá pelo menos para três, e para o joelho de porco. Também gostei das cervejas artesanais que provei, principalmente a preta com estágio em madeira: fresca, complexa, com torrados q.b. e final bastante longo.

Museu Naval de ChaniaConta a história marítima da ilha e da sua construção naval, mas também a da marinha de guerra grega. Inclui a Segunda Guerra Mundial, e o pós-guerra. É uma viagem interessante que tem, como único problema, a ausência de ar condicionado a temperar o ambiente. Mesmo em Setembro, foi difícil resistir ao calor.

Mosteiro de Agia Triada (Mosteiro da Santíssima Trindade). Vale a pena passear neste mosteiro ortodoxo, construído no século XVII, que fica na Península de Acrotiri, a 15 km de Chania. Há que dar uma olhada à sua igreja, ver a exposição e subir ao alto da sua muralha para olhar as suas vinhas, olivais e arredores. Depois, é descer até ao seu enoturismo, onde a prova é gratuita, tanto dos seus vinhos como dos seus azeites. Também produz mel, vinagre e sabonete de azeitona.