Diário de uma tímida

Em criança fui o chamado bicho do mato. Entrei para o infantário aos 5, nesse ano chorei todas as manhãs antes de ir para a escola, e durante muito tempo, vivi, como se costuma dizer, debaixo das saias da minha mãe. Não gostava de estranhos, não os olhava nos olhos, especialmente no das outras crianças, cruéis, sempre prontas a apontar aqueles defeitos que nos esforçamos tanto por esconder.

Para contrariar esta minha timidez, os meus pais empurravam-me para as mais diversas atividades, nas quais eu conseguia sempre sobressair pelas piores razões. Na natação vomitei no meu primeiro dia, obrigando à evacuação de toda a piscina. Na patinagem, os meus patins com rodas verde alface faziam-me sentir o Shrek no meio de tantas meninas de botas brancas e imaculadas a rodopiar graciosamente. E na minha primeira audição coletiva de órgão esqueci-me de regular o volume, abafando todos os outros colegas de instrumento.
Foi assim que desde pequena me habituei a fazer uma espécie de ginástica mental para disfarçar esta minha falta de jeito para o convívio. E fui-me tornando cada vez melhor, tanto que hoje são poucas as pessoas que conhecem esse meu lado “sombrio”. Não sabem que fico para morrer só de pensar que tenho de falar para mais de três pessoas, que amo verdadeiramente pessoas que não se calam, que me sinto terrivelmente desconfortável com os silêncios, que me rio quando muitas vezes só me apetece chorar. As pessoas que eu continuo a não conseguir olhar nos olhos acham-me arrogante, acham que eu não gosto delas quando na verdade tenho medo delas.
Profissionalmente não me saí mal mas sei que a minha timidez foi prejudicial à minha carreira e que tudo o que consegui foi, muitas vezes, com o triplo do esforço. Estamos na era do marketing pessoal, uma competência quase impossível para uma tímida crónica. O que nós queremos é distância dos holofotes e como praticar a modalidade de networking se todos os dias fazemos figas para que as portas dos elevadores se fechem antes de entrar alguém? Se nos corredores da empresa fugimos de quem deveríamos fazer por encontrar?
Os 40 trouxeram-me alguma segurança e, se a prática não levou à perfeição, ajudou bastante. Os 40 trouxeram-me de volta. Depois de tantos anos a fugir também de mim própria, sabe bem finalmente sentir que esta minha timidez já não me é estranha, sabe bem conseguir olhá-la nos olhos, sem medo… nem arrogância.