O dia em que a ponte caiu

-Mãe, eu vou fazer tudo nesta vida?

-Claro, filha.

Tudo, subentenda-se, tudo de bom, claro. No sentido do psicologicamente correto, do dizer às crianças que tudo é possível nesta vida. Basta querer! E enquanto lhe fazia esta conversa barata de coach motivacional pensava o quanto eu não queria estar ali, num feriado, a fazer de cupido para as centenas de meias sem par à procura de alma gémea (que raio de mania de comprar só peúgas azuis escuras!). Pensava em quantas coisas – muito piores do que dobrar meias – ela teria de fazer pela vida fora. Pensava que tantas vezes damos o nosso máximo e recebemos o mínimo em troca.

-Acorda ou vais chegar atrasada à escola, disse eu hoje de manhã pela décima vez.

-Mãe, eu quero fazer ponte, tenho muito sono.

-Qual ponte, hoje vamos todos trabalhar!

-Mãe, mas tu disseste que eu ia fazer tudo nesta vida e eu nunca fiz ponte.

E lá ruiu a ponte, nem 24 horas depois de a iludir com o ‘basta querer’.

Acham que aproveite para lhe contar já a realidade das peúgas ou que continue nesta senda da meia verdade?