Dia da Mãe com filhos?

Todos os anos tenho a mesma dúvida. É permitido festejar o dia da mãe sem filhos? Uma horinha que seja? É que desde o último primeiro domingo de maio, já disse ‘vai lavar os dentes’ pelo menos 5840 vezes (no mínimo 8 x por dia x dois filhos). Porque, no fundo, é um pouco como o Dia do Trabalhador, o trabalhador supostamente não trabalha nesse dia (enfim, conforme a sua família empresarial). Mas, a bem na verdade, o mais certo era eu não saber o que fazer nessa horinha que fosse.

No último fim de semana, os meus filhos foram passear com as madrinhas e eu passei mais de metade do tempo a tentar decidir o que fazer (aproveitar para namorar ou aproveitar para estar com outros casais sem filhos, aproveitar para ir ao cinema ou aproveitar para ir almoçar na esplanada à torreira do sol e beber uma bela sangria de espumante, aproveitar para desconversar ou aproveitar para falar sobre temas importantes que não é suposto as crianças ouvirem?). E depois há aquelas vozes, tão sábias quanto irritantes, que dizem ‘vais ter muito tempo para estar sem os teus filhos mais tarde, quando forem mais velhos’. Sim mas eles estarão mais velhos e eu também e não poderei ir para a esplanada por causa das pontadas de ar e a hérnia do hiato não me permitirá beber espumante de frutos vermelhos à discrição (para não falar das artroses que me impedirão de dar um mortal com dupla cambalhota entre lençóis).

E, sim, esta conversa de durona é só porque acabei de pedir 350 vezes que  fossem lavar as mãos. Ou então, já sei, posso ser a mãe com que sempre sonhei, aquela mãe descontraída, espetacular, que continua a conversar com os amigos enquanto o miúdo de 7 anos experimenta a cerveja do pai e joga à bola com o miolo do pão do couvert. Ou deixar, em nome da liberdade da expressão, a miúda sair com olhos esfumados para o jardim de infância… Aquela mãe espetacular que considera lavar os dentes um capricho da globalização, uma cedência ao lobby da poderosa Colgate.

Ou então posso simplesmente ser eu. A mãe imperfeita. A mãe chata para chuchu. Que erra mas que tenta fazer melhor todos os dias. E para brindar ao facto de ter feito finalmente as pazes com tal inevitável imperfeição, talvez  possa beber um pouco mais do que a conta de sangria. O pai que leve o carro.