O despertar do sol no Pico do Areeiro e outras histórias

Boa comida, grandes vinhos, vistas surpreendentes e passeios únicos a pé, com possibilidade de voltar todos os dias ao Funchal para um banho de piscina ou de mar, para refazer o corpo do tempo frio e húmido, por vezes chuvoso da montanha. O que é que se pode pedir mais em nove dias de férias de outono? Apenas para voltar de novo.

Fotos: José Miguel Dentinho, Cristina Dentinho e Jorge Dentinho

Ver nascer o sol no Pico do Areeiro é uma experiência única e arrebatadora. Emociona à medida que o astro passa a linha do horizonte e os seus raios se vão misturando com as nuvens, para de lá saírem numa panóplia de tons do branco ao amarelo e vermelho, numa apoteose festiva. À medida que a luminosidade cresce, os contornos de tudo em redor vão ficando cada vez mais nítidos, mostrando uma paisagem de montanha e de escarpas abruptas, primeiro, que se vai suavizando à medida que o olhar chega até ao mar ao fundo, que se avista entre a passagem das nuvens. Fiquei por ali, bastante tempo, para não deixar de fotografar, de um lado e do outro, tudo o que podia, incluindo a família a ver o espetáculo e as pessoas que iniciavam as suas caminhadas até outros poisos. O frio era intenso, mas cada momento que lá estive valeu a pena.

Uma paragem para foto do véu da noiva, onde se vê a antiga estrada regional que contornava a costa norte da ilha

Foi a minha sexta estada na Ilha da Madeira, entre deslocações em trabalho e férias, mas não houve nenhuma que tivesse vivido com mais intensidade e me tivesse sabido melhor. Na verdade, a preparação é tudo numa viagem de lazer, pelo menos para mim e para a minha família, pois gostamos de misturar aquisição de conhecimento, emoção e descoberta, com tempo de lazer de papo para o ar e à mesa. Foram muitas horas de pesquisa na net e algumas conversas e trocas de mensagens com madeirenses, para construir os itinerários base diários, localizar poisos de comida interessantes e selecionar as paragens essenciais.

A 20 minutos de carro do Pico do Areeiro fica o Snack Bar Faísca, conhecido, merecidamente, pelos seus pregos em bolo do caco. É verdade que em quase todo o lado da ilha se pode comer isto. Mas este é diferente para melhor, e é também maior. É grande, alto, suculento e muito bem temperado. A cerveja fresca fez-lhe grande companhia, enquanto fui usufruindo daquele tempo devagar, apesar da ameaça das vespas que rondavam de vez em quando, atraídas pelo cheiro. A necessidade de descanso era grande.

Os tentilhões do Miradouro dos Balcões, a aguardar a chegada de mais petiscos.

Levada dos balcões

Decorriam os primeiros dias de outubro, e estava a poucos dias de ser operado, com sucesso, ao coração, para substituição da válvula aórtica, peça deteriorada por má formação de origem e excesso de uso, o que condicionava o andamento e obrigava inúmeras paragens para retemperar forças. Mesmo assim, foi inesquecível o percurso da Levada dos Balcões, que fica bem perto do Faísca. Tinha sido selecionado por que a distância era curta, de 1,5 km para cada lado, e tinha poucas subidas e descidas. Como não havia e não podia ter pressa, foram cerca de duas horas, com muitas paragens para fotografar, sobretudo no miradouro final, uma vista fantástica, como muitas na Ilha da Madeira. Mas não foi a paisagem que tornou aquela paragem um pouco mais especial. Foram os tentilhões…

Quando chegámos tivemos logo a visão surpreendente de uma senhora a tirar fotos com os pássaros, que pousavam despudoradamente para recolher o que tinha nas suas mãos. Simpaticamente cedeu-nos os frutos secos que lhe restavam, quando foi embora, e por ali ficámos a usufruir daquele momento feliz até à chegada de uma equipa de televisão, que açambarcou o local. Era hora de irmos embora e lá o fizemos, pelo meio daquela vereda luxuriante, onde os únicos ruídos, para além dos nossos, eram os dos pássaros e da água que corria na levada.

Uma curva mais apertada na descida dos Carreiros do Monte.

Pelos carreiros da ilha

Outro dos passeios inesquecíveis, nos nove dias que estive na Madeira, foi aquele que incluiu a longa subida de teleférico entre o Funchal e o Monte, e a descida nos carros característicos dos Carreiros, viagem que adiara sempre até ao ano passado.Mas há que fazer algumas coisas pelo menos uma vez na vida, nem que seja para contar, ou apenas ficar com a história na memória. E ali fomos, ladeira abaixo, ziguezagueando e lambendo as margens das estradas estreitas nas curvas, cruzando as ruas com a prioridade de uma ambulância em modo de urgência e guiados, com perícia, pelos manobradores do carro. Foi bom, mas foi pouco. Não sei bem porquê, gostava de ter tido um pouco mais de tempo a fazer aquilo.

Lapas grelhadas e cerveja Porter na Beerhouse. Uma das minhas pausas preferidas no Funchal.

Lapas e cerveja

Depois foi seguir ladeira abaixo até ao centro do Funchal e ao encontro da Beerhouse, sítio onde vou sempre quando estou na Madeira. Pelas suas cervejas artesanais, é claro, mas também por dali se ter uma bela vista para o Funchal e o casario a trepar monte acima.

O meu caro amigo Ricardo Diogo Freitas, da casa Barbeito, tinha-me sugerido a açorda de lagosta e foi isso que pedi, a seguir ao bolo do caco e às inevitáveis lapas grelhadas, umas das melhores que comi nestas férias na ilha. O sabor da açorda era muito bom e fez boa companhia a um par de canecas de Brasa, uma cerveja de estilo Porter, forte e lupulada, produzida pela casa.

Bem perto fica o Museu Cristiano Ronaldo. Tive de lá ir, como é evidente, para imergir nas centenas de prémios, galardões, troféus individuais e coletivos, esculturas e outras coisas da coleção, entretido a ler tudo, como habitual, durante mais de uma hora. A desproporcionada escultura do exterior, próxima do pavoroso, pelo menos para mim, apenas faz lembrar o Cristiano Ronaldo porque está lá escrito que é ele e está posta mesmo à frente do museu. Mas pelo menos chama a atenção.

Prova de vinhos brancos e espumantes com boas histórias e vista na Seixal Wines.

Provar vinhos com vista

Uma das muitas coisas que contribuiu para a minha boa disposição em relação a esta viagem em particular, foi ter ido de novo à casa Barbeito, para uma nova volta à adega, prova de vinhos a ser lançados e para aprender um pouco mais sobre o Vinho da Madeira. Outra foi a vista à Seixal Wines, pela primeira vez, para conhecer um pouco mais a sua história e histórias e provar os seus brancos personalizados mais recentes num espaço de enoturismo muito agradável, onde apetece permanecer para usufruir da vista.

Esse dia tinha começado nas piscinas naturais de Porto Moniz, onde gosto de ir e estar, para um passeio longo com óculos e respirador, a observar o movimento dos peixes.

Depois de um almoço sem história e de uma paragem para fotografar a cascata do Véu da Noiva chegou a hora de voltar de novo a Câmara de Lobos, terra onde é sempre agradável voltar, pelo seu porto, pela baía que o encerra, mas, sobretudo, pelas suas ponchas. É verdade que bebi ponchas um pouco por toda a ilha durante aqueles dias, mas as usufruídas na esplanada do bar Number Two, que traziam sempre a reboque alguns amendoins e tremoços muito bem temperados com alho e pimentão, fizeram-me voltar ao local três a quatro vezes.

 

Pausas para comer

E as espetadas com milho frito do Restaurante Polar, um pouco mais acima da terra? De carne tenra, bem grelhada e temperada, na companhia de milho ou batata frita, eram tão atrativas ao palato que tive de voltar a este pequeno restaurante para gente da terra para a saborear de novo, sentado na sua pequena esplanada. O vinho tinto da casa, servido a jarro ligeiramente fresco, era da Península de Setúbal e acompanhou o repasto de forma satisfatória. Com sobremesas e cafés, a conta não chegou aos 50 euros para quatro, das duas vezes que lá fomos, e saímos com um sorriso no rosto.

Nove dias na Ilha da Madeira deram para muito mais, incluindo muitas voltas aos seus recantos, com muitas paragens para visitar, caminhar, tirar fotos e pausas para comer. A maior parte bem, pelo menos na zona do Funchal, em restaurantes onde o serviço à mesa é superior, por ser atencioso, simpático, eficiente e discreto, a comida é saborosa e a lista de vinhos é suficiente variada para se poder escolher. E a sensação de voltar ao hotel foi sempre agradável, semelhante a voltar a casa. No dia seguinte sabia que podia dar mais uma olhada para o seu jardim luxuriante, e para o mar lá ao fundo, antes de partir para nova jornada. Foram dias bons.

O cenário único da piscina oceânica de Porto Moniz.

As minhas sugestões no Funchal

Dormir com vista para o jardim

Quinta da Penha de França

Fica perto do centro do Funchal, tem parque de estacionamento, quartos grandes, calmos e silenciosos, pequeno almoço mais que suficiente e uma bela piscina de beira mar, com boa vista e muito espaço para estar. Ainda por cima está rodeado de jardins bem cuidados, que sabe bem percorrer. Foi um achado, que levei muito tempo a encontrar.

Morada: Rua Imperatriz D Amelia 85, 9000-018 Funchal

Tel.: +351291 204 650

 

Cerveja e petiscos a gozar a vista

Beerhouse

Boa cerveja, alguns pratos simpáticos, umas belas lapas grelhadas e uma grande vista sobre o Funchal. Vou lá sempre que estou na Madeira.

Morada: Pontão São Lazaro, Av. Do Mar, Funchal

Tel.: +351 291 22 9011

Para beber ponchas com tremoços bem temperados

 

Bar Number Two

Para mim, a melhor Poncha à Pescador da Madeira. De tal forma, que voltei lá três vezes.

Morada: Rua da Carreira, Largo do Poço nº 2, Câmara de Lobos

Tel.: +351 291 942 554

 

À beira mar

Beira Calhau

Estive lá no último dia, depois de uma bela caminhada no paredão à beira mar, que vai até bem próximo de Câmara de Lobos. Uma esplanada simpática e agradável, boa cerveja, salada de polvo e uma das melhores lapas que comemos, na companhia de bolo do caco, ajudaram a fixar o sítio e o momento.

Morada: Travessa da Praia Formosa, Funchal

Tel.: +351 291 649 403

 

As melhores espetadas

Restaurante O Polar

O restaurante é popular, pequeno e é difícil de estacionar por ali. Mas as espetadas valem mesmo a pena, tal como o milho e a batata fritos. Outra vantagem é o preço, bem mais em conta que todos os outros restaurantes onde fomos. Tem de se chegar cedo.

Morada: Rua Pico da Torre, 26, Câmara de Lobos

Tel.: +351 291 944 442

 

Restaurante Santo António

Este é, talvez, o restaurante de espetadas mais conhecido da Madeira. Mais uma vez, valeu a pena lá ir, não só pela comida, mas também pelo serviço e pela lista de vinhos, com muitas opções de escolha.

Morada: Estr. João Gonçalves Zarco, 656, Estreito de Câmara de Lobos

Tel.: +351 291 910 360

 

O prego no bolo do caco

Restaurante Snack Bar Faísca

Fica à beira da estrada, perto de alguns trilhos e do Parque Natural do Ribeiro Frio. O sabor do prego no bolo do caco vale a viagem.

Morada: ER 103, Estrada da Laurissilva, 7, Santana

Tel.: +351 291 575 634

 

Outros sítios onde gostei de comer

Restaurante Casal da Penha

No primeiro local onde jantámos na ilha gostei, em particular, do serviço de mesa, simpático, com na maioria dos outros restaurantes, mas mais completo, com mudança de pratos, talheres e guardanapos entre as entradas e os pratos, bons copos para o vinho, que foi servido à temperatura correta. De entre os pratos que vieram para a mesa, gostei, em particular, das lulas fritas.

Morada: Beco da Ataíde 1, Funchal

Tel.: +351291227674

 

Chalet Vicente

É outro dos sítios onde gosto de voltar sempre que vou ao Funchal, para comer mais uma vez o inevitável peixe espada com banana e molho de maracujá e, desta vez, o arroz de feijão da panela com nacos de novilho, saboreados em parceria com um rosé de Touriga Nacional. Como sempre, uma pausa muito agradável, com boa comida, na esplanada de um dos restaurantes mais bonitos da ilha.

Morada: Estrada Monumental, n.º 238, Funchal

Tel.: +351 291 765 818

 

Beef & Wines

Camarão tigre assado em azeite de ervas frescas, lima e um toque agridoce, plumas de porco preto e picanha fatiada, mais o rosé sul africano Leopard’s Leap, de 2017, produzido com uvas de Chardonnay e Pinot Noir, foram os componentes principais de mais um belo jantar no Funchal, feito de bons produtos, servidos no ponto certo de cozeduro. Outro sítio onde valeu a pena voltar.

Morada: Av. do Infante 60A, Funchal

Tel.: +351 963 041 993

 

Parceiros Premium
Parceiros