Década 1980 – Nascimento de um novo mundo financeiro e empresarial

Estava-se em plena revolução e redescoberta do universo financeiro. Em 5 de Setembro de 1984 é autorizado a estabelecer-se em Portugal o Manufacturers, e em Setembro, o BPI, sendo este inaugurado como primeiro banco privado em 14 de Novembro de 1984. Em 2 de Maio de 1985 outros novos bancos são autorizados: o Banco Comercial Português (que tinha como accionistas o Grupo Amorim, Ilídio Pinho, Têxtil Manuel Gonçalves, MSF…), a Banque Nationale de Paris, o Barclays Bank, o Citibank e a seguradora American Life Insurance Company.

Em 23 de Maio de 1985, o Conselho de Ministros decide baixar diversas taxas de juro e, em 27 de Maio de 1985, foi inaugurada a Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo, que em resultado da associação das caixas, pequenas instituições privadas que tinham passado ao lado das nacionalizações, se transforma num grupo financeiro com algum peso. Pouco depois, a 26 de Junho de 1985, o Banco de Portugal lançou os fundamentos para a adaptação da legislação financeira portuguesa à integração na União Europeia (harmonização legislativa e administrativa, direito de estabelecimento e livre circulação de capitais). No dia seguinte, foram autorizados o Banco Internacional de Crédito, que marcava o regresso da família Espírito Santo e de outros accionistas privados, o Banco Comércio e Indústria, o banco comercial do BPI, e uma sucursal da Société Générale.

Se desde 1977 era possível criar instituições financeiras como por exemplo, as sociedades de leasing e de investimento, é a partir de 1985-86 que se dá a denominada revolução financeira, tanto no que concerne às instituições, como alterações e reajustamentos legais (seguros, bancos, sociedades de investimento, de leasing, gestoras de fundos do investimento, de gestão e investimento imobiliário, capital de risco, fomento empresarial, corretoras, financeiras de corretagem, de administração de compras em grupo, de financiamento de aquisições a crédito, gestoras de fundos de pensões, de factoring, de gestão de patrimónios mediadores cambiais, de holdings) como no que se refere a instrumentos financeiros (planos de poupança-reforma, contas poupança-reformado, poupança-habitação, os fundos de investimentos mobiliários e imobiliários e a eliminação da tipicidade rígida dos depósitos à ordem, com pré-aviso e a prazo).

Se em 1985 existiam 4 sociedades de investimento, 7 leasings e 18 holdings, quatro anos depois, existiam 15 sociedades de investimento, leasing (16), capital de risco e fomento empresarial (22), holdings (108), corretoras e financeiras de corretagem (7), gestoras de fundos de investimento (18), gestoras de fundos de pensões (14), fundos de investimento (28), fundos de pensões (175), gestoras de patrimónios (8), imobiliárias (58), e compras em grupos (28) [1] assinalava A. L. Sousa Franco no artigo O Período Europeu (1986-1993), do livro Portugal 20 anos de Democracia.

Foi ainda em 1989, em Novembro que a banca comercial sofreu também uma alteração de paradigma com a entrada em força no retalho do Banco Comercial Português, que assim afrontava os gigantes estatais, com a Nova Rede, que num dia inaugurou 21 sucursais num investimento, segundo o Diário Económico, de 5 milhões de contos. Em Outubro de 1989 o Banco Santander tentou uma OPA hostil sobre o Banco de Comércio e Indústria (BCI), mas o BPI e os seus aliados resistiram. O braço-de-ferro foi duro, mas no final o Santander venceu em 1990 como se poderia verificar na assembleia-geral de 22 de Março. Era um novo mundo financeiro que despertava.

[1] A. L. Sousa Franco, “O Período Europeu (1986-1993), n A. Reis (Coord.), Portugal 20 anos de Democracia, Círculo de Leitores, Lisboa, 1994, p. 273