Culpa, essa vadia

A culpa pode morrer solteira, mas não sozinha. Ela está aqui agora, olha-me fixamente enquanto a tento exorcizar nestas palavras. Lembra-me do assafato com roupa até ao tecto. Das mochilas das crianças por organizar. Do PowerPoint em branco. Quando não está comigo, a culpa está na casa da vizinha do lado, a que optou por não amamentar o seu filho ou que muito de vez em quando substitui a sopinha bio por um boião de borrego com ervilhas. Isto depois de pegar fogo ao coração da minha melhor amiga, recentemente trocada por outra mulher por não ter conseguido manter a chama acesa. Crime, disse ela.
A culpa não é uma palavra feminina por acaso. É quase um exclusivo nosso. Uma daquela amizades tóxicas que mantemos a todo o custo. Alimentamo-la e alimentamo-nos dela. É um diálogo permanente, uma negociação constante. Nós, as culpadas, não somos apenas portadoras, somos também transmissoras deste veneno. Como quando dizemos que não conseguimos passar uma noite longe do bebé à mãe que planeia um fim de semana romântico. Como se a culpa fosse aquele segredo avassalador que nos confiaram, mas que não aguentamos carregar sozinhas. A culpa pode morrer solteira, mas já se divertiu que nem uma louca.