Crise de identidade

É importante mantermos uma identidade. Para mim, isto nunca foi tão verdade como hoje. Acho que, talvez pela minha personalidade, sempre consegui um certo equilíbrio entre o que sou e o que sou em relação a alguma coisa ou alguém. Somos a filha, a mulher, a mãe de alguém e amiga de alguém – isso é inevitável. Mas pior do que sermos alguma coisa a alguém é sermos apenas alguém quando temos alguma coisa. Acontece muito a nível profissional e a crise atirou muitas pessoas para graves crises de identidade.

O mercado de trabalho facilitava isso até há bem pouco tempo. A segurança profissional dada por 20 anos de carreira na mesma empresa fazia com o nosso eu  pessoal e profissional se confundissem muitas vezes numa relação que ia muito além de uma saudável troca de influências. Conheço vários casos. A sra. doutora que não despe o título quando sai do trabalho, leva-o consigo de fim-de-semana, para o cabeleireiro e para a escola dos filhos. Exibe-o, usa-o como uma segunda pele, na relação com os outros e nas mais diversas situações. E quando a Senhora Dr.ª fica sem o título, um género de passe para o que ela considera ser uma vida bem sucedida, o peeling é tão doloroso que a pode atirar para uma profunda depressão.

Claro que é impossível passar uma vida numa empresa sem que esta deixe marcas, positivas e negativas, na pessoa que somos. Aliás, como acontece com todas as outras experiências que temos e que contribuem realmente para a formação da nossa identidade. Mas essa é só uma pequena parte, porque nós somos muito maiores do que isso. E ainda bem.