Chile

No primeiro dia de estado de emergência da pandemia, 18 de março de 2020, fizemos as malas numa pressa e mudamo-nos para a casa dos meus pais no interior do país. O mundo tinha parado, o sentimento de incerteza era imenso. Pela primeira vez, senti profundamente a desesperança.  Entrei no meu quarto, pousei os sacos em cima da cama e lembro-me perfeitamente que a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “nunca mais vou ao Chile”.

E porquê o Chile?

Nos anos anteriores, viajava em trabalho regularmente para a América do Sul: Argentina, Uruguai, Peru, Colômbia e Chile. Este último país era, para mim, o mais europeu de todos. Sentia que o português era muito parecido com o chileno — como vivíamos a família, como estudávamos, como comíamos, até como negociávamos. Era importante estar frente a frente para criar confiança.

Depois, o Chile representava uma parte importante dos negócios. Foi um caso de sucesso e realização na minha vida profissional.

Então, ali, naquele dia de março, senti que o Chile e tudo o que ele representava, tinha acabado. Não ia voltar nunca mais.

Agora, em 2023, passeio pelas ruas de Vitacura. Estou de volta, pela primeira vez, desde esse ano maldito de 2020. Emocionei-me ao voar pelos Andes (gosto muito quando a hospedeira pede para nos sentarmos e apertarmos os cintos porque vamos atravessar a cordilheira) e ao encontrar esta parede protetora por cada lado de Santiago que visito.

Nada mudou: o trânsito louco, as pessoas simpáticas, a comida muito portuguesa (o único país que conheço, para além do nosso, onde se come sopa de legumes a todas as refeições), o motorista que me chama de niña, a sinceridade dos clientes que me recebem, os terramotos que não alteram nenhum movimento das pessoas.

Não foi inesperadamente, porque previa já há bastante tempo que este dia chegaria. Que iria regressar, como se tantos anos não tivessem passado.

Muitas vezes me lembro desse dia em que olhei para as malas em cima da cama, numa tristeza profunda, num desalento sem volta.

Mas, como com quase tudo o resto, dei a volta.

E culminou no que ainda faltava.

Chile, voltei.

 

Inês Brandão é fundadora e Global Business Manager da Frenpolymer. Leia mais artigos de Inês Brandão.

Publicado a 08 Novembro 2023

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